21 out 2002 - 12h47

Opinião: “a culpa é de quem?”

A intolerância e o desrespeito ao próximo são dois dos defeitos mais
repugnantes do ser humano. Não existe justificativa para o que aconteceu
ontem na Baixada, após a partida, e que ganhou as manchetes do Bom dia
Brasil na manhã de hoje.

Protesto? Sim, tudo bem. Já escrevi na minha coluna de sexta-feira que os
Fanáticos tinham mesmo todo o direito de cobrar, já que incentivaram os
jogadores o tempo todo. Ficar de costas durante o jogo? Tudo bem. Vaiar mais
uma derrota em casa? Ótimo. Agora, tentar agredir os jogadores é demais.
Achei que cenas como essa haviam acabado na Arena após o episódio do
“esfaqueador”, em 2000. Cenas que afastam do estádio os verdadeiros
torcedores, que são divulgadas em todo o país e que dão a impressão de que o
Atlético não tem torcida, mas sim uma horda de bárbaros.

Além do mais, a perseguição aos jogadores é uma estratégia errada; só tende
a piorar a situação. O pior: eles não são os únicos culpados por essa má
campanha. Querem mais? Os próprios torcedores também são responsáveis.

Briga política
Explico. A torcida do Atlético teve participação fundamental na manutenção
de Mário Celso Petraglia na presidência do clube. A intenção pode não ter
sido essa, mas o movimento “Fica Petraglia” teve conseqüências políticas
claras dentro do clube.

A primeira foi o afastamento de dirigentes importantes ­ senão fundamentais
­ na conquista do título de Campeão Brasileiro. Ademir Adur, Valmor
Zimermann, Ênio Fornéa, Saimir Aidar, deixaram o clube, entre outros; ficou
apenas Petraglia e aqueles que compartilhavam das mesmas idéias que ele.
Essa decisão foi crucial na vida do Atlético. Se os torcedores não sabem, as
rusgas começaram já antes da conquista do Brasileiro: Petraglia era contra a
permanência de Geninho, Nem e Souza no clube. O grupo de Adur bateu o pé e
os manteve. Provavelmente, se Petraglia já estivesse no comando naquela
época, o Atlético nem teria chegado ao título nacional. Tanto que a primeira
medida que tomou ao ser levado novamente à Presidência foi mandar embora o
Geninho e o Nem. Para o Brasileirão 2002, ao invés de tentar trazer algum
jogador de peso ­ quem sabe a volta do próprio Souza ­ insistiu em trazer
Wellington Paulo e Fabrício do América Mineiro (antes de sair do clube, Adur
e Fornéa já eram contra essas contratações).

Portanto, todo torcedor que participou do “Fica Petraglia” ou que concordou
com o movimento é também responsável por esta situação.

Não estou querendo crucificar o Petraglia. Ele, mesmo antes de decidir ficar
no Atlético, no primeiro semestre, já deixava bem claro seus objetivos:
formar um time competitivo, mas sem contratar estrelas. Em nenhum momento
prometeu ganhar o bicampeonato a qualquer custo. Ao contrário, pretendia
vender estrelas como Kléberson e Kléber e arrecadar recursos para a esperada
conclusão da Arena. O que ele prometeu era terminar a Baixada, e acredito
que até o fim de seu mandato deve deixar essa pendenga resolvida.

E o torcedor que fez campanha para ele sabia disso. Ou deveria saber.

Petraglia errou sim. Errou ao contratar jogadores e técnicos que não têm a
qualidade ou a dignidade necessárias para vestir o manto rubro-negro. Mas
crucificar um homem que fez tudo isso pelo Atlético ­ Arena, CT,
reconhecimento nacional e internacional, um título atrás do outro ­ é uma
ignorância. Assim como culpar os heróis de nossa maior conquista ­ Alex
Mineiro, Kléberson, até mesmo o fraco Alessandro. Hoje eles podem estar mal,
mas já nos deram a maior alegria de nossas vidas.

A responsabilidade é de todos. E é importante que todos assumam sua parcela
de culpa, do presidente do clube ao mais humilde torcedor. Só assim para
sair dessa crise infernal.

Eduardo Aguiar
colunas@furacao.com

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