5 nov 2003 - 0h01

Vinte e cinco anos de “São Ziquita”

São Ziquita ressuscitou o Atlético“. A manchete do jornal Tribuna do Paraná de 6 de novembro de 1978 sintetiza o que fora o clássico entre Atlético e Colorado do dia anterior.

Era uma tarde que tinha tudo para ser esquecida pela torcida rubro-negra. Mas em apenas 13 minutos a história mudou completamente e virou sinônimo da superação e garra atleticana. Até os 30 minutos do segundo tempo, o Atlético jogava mal e o Colorado aplicava uma goleada capaz de calar o Caldeirão: 4 a 0, em plena Baixada. Foi aí que surgiu a figura de Ziquita, que marcou quatro gols e se transformou no novo herói da torcida.

Hoje, 25 anos depois dessa partida histórica, a Furacao.com relembra todos os detalhes desse clássico e traz uma entrevista exclusiva com o herói do passado, o “São Ziquita”.

Este ano comemoram-se 25 anos daquele clássico entre Atlético e Colorado, que o senhor marcou quatro gols nos últimos 16 minutos. Como foi aquele jogo na Baixada?
Foi uma tarde em que todos nós, do Atlético, esperávamos uma vitória fácil, tranqüila. O nosso time era muito superior ao do Colorado e todos tinham consciência disso. Mas daí, de repente, sem ninguém esperar, tomamos quatro gols do adversário. Todos os gols deles, por falhas nossa. Mas o nosso time era melhor e, em dezesseis minutos, mostramos o que tínhamos de melhor. Eu tive a felicidade de dominar quatro bolas e empatar o jogo. Todos sabiam: ou o Atlético faz quatro ou toma oito. Felizmente conseguimos empatar.

Quando estava 4 a 0 para o Colorado, vocês sentiram que dava para empatar?
Futebol tem momentos muito diferentes. Esperança a gente sempre tinha, até porque durante todo o jogo insistimos para marcar os gols. Mas a partida estava quase no fim, era muito difícil conseguir alguma coisa…

Em que momento vocês perceberam que dava para conseguir um melhor resultado?
Depois do terceiro gol. Porque quando o jogo estava 4 a 0, a nossa torcida começou a ir embora do estádio, não acreditando numa reação. Mas depois do terceiro gol, o torcedor começou a voltar correndo, o que animou ainda mais o nosso time. E com a torcida empurrando, a gente foi pra cima, buscando o gol de empate.

Naquela época, o senhor disse que se tivesse mais 5 minutos, o Atlético viraria para 5 a 4. De repente, o time começou a engrenar ou foi a raça atleticana que prevalecia?
Ah, com certeza a gente viraria o marcador. Estava sobrando raça e vontade no nosso time. Num jogo que você sai perdendo de 4 a 0 e consegue o empate, não tem esquema que tático que resista. Foi na vontade, no amor à camisa. E esse quinto gol quase saiu, porque eu acertei uma bola na trave quase no fim.

Esse jogo foi o seu melhor momento no Atlético?
Não só no Atlético como em toda a minha carreira esportiva. Foi um jogo que me marcou muito, e até hoje sou conhecido como “o jogador que marcou quatro gols em 16 minutos”.

Em 78, o Atlético tinha um super-time. Todos diziam que tinha “pinta de campeão”. O que faltou para levar a taça?
Nosso time realmente era muito bom, mas no futebol, infelizmente, nem sempre o melhor ganha. Nosso time era muito superior ao do Coritiba, mas não conseguimos levar a taça. Futebol é assim, você tem momentos de alegria e de tristeza. Para mim, foi mais triste ainda, porque eu fui para o Atlético para vencer, para ser campeão. Mas futebol tem surpresas e uma dessas aconteceu justamente na decisão contra o Coritiba.

Ziquita comemora um de seus gols contra o Colorado

O senhor foi o artilheiro do Atlético em 78 e o vice-artilheiro do campeonato. O Ziquita era um grande artilheiro?
Ah, isso eu era. Dificilmente eu passava um jogo sem marcar gol. E em vários jogos eu marcava dois, três. O que eu mais gostava era marcar gols, era essa a minha maior satisfação dentro do futebol.

De onde saiu o apelido Ziquita, já que seu nome é Gilberto de Souza Costa?
Nossa, essa história é bem antiga. Na minha cidade, quando eu era menor, tinha um senhor que se chamava Ziquita, que tinha problemas mentais. Como eu não gostava de estudar, só queria saber de jogar futebol, meu pai começou a me chamar de Ziquita, só para provocar, porque eu não queria nada com a vida. E o apelido pegou, todo mundo começou a me chamar assim, até hoje.

Todos os atleticanos, quando lembram do senhor, falam que o Ziquita era “um crioulo forte e raçudo”. Essa era a sua principal característica, a raça?
Sim, a raça era o meu forte. Eu nunca desistia, sempre acreditava. E isso também foi me identificando com a torcida, porque a torcida do Atlético sempre gostou de jogadores que têm raça, amor pelo clube. Até hoje eu tenho um carinho muito grande, não só pelo Atlético, como também pela torcida atleticana.

O senhor continua acompanhando as coisas do Atlético?
Acompanho sim. Eu nunca me esqueço do Atlético. Eu assisti o jogo contra o Corinthians, o Atlético fez uma partida muito boa. De agora em diante, o Atlético vai crescer ainda mais. Este ano, o time está sofrendo muito, porque perdeu importantes jogadores. E, no campeonato por pontos corridos, você não pode perder pontos, porque se distancia muito do primeiro lugar. Mas eu tenho certeza que este time vai dar ainda muitas alegrias ao torcedor do Atlético.

O senhor acompanhou o título brasileiro de 2001?
Acompanhei e vibrei muito com essa conquista. Era o título que faltava. O Atlético sempre foi um grande clube e precisava de uma conquista deste quilate para se firmar entre os maiores do futebol brasileiro. Hoje, com estrutura que o Atlético está montando, tenho certeza que daqui pra frente o time vai crescer ainda mais.

O senhor conhece a Arena?
Infelizmente, depois que eu saí do Atlético, eu nunca mais voltei a Curitiba. Não conheço a Arena pessoalmente, só pela televisão. Mas sei que é um estádio maravilhoso, muito bonito mesmo. Tem um amigo meu, que foi a Curitiba, e me disse que esse estádio é a coisa mais linda do mundo. Antes de morrer eu quero dar uma passadinha aí, para conhecer o novo Caldeirão do Diabo e ver um jogo do Atlético de dentro da Arena.

O que o Ziquita faz atualmente? Continua trabalhando com futebol?
Eu estou descansando. Gosto muito de pescar, e esse tem sido meu maior passatempo. Eu tenho esperança de algum dia arrumar um clube para treinar. Seria bom demais. Porque eu sempre gostei e trabalhei com o futebol, é o que eu sei fazer. Mas aqui, em Valadares, não dá. O time é de 2ª divisão, não te dá muitas ambições. Eu tenho muito prestígio na região de Ribeirão Preto, porque eu tive uma boa passagem pelo Comercial de lá. Quem sabe, um dia, eu não consiga uma chance?

Gostaria de trabalhar no Atlético?
Ah, seria bom demais. Ainda mais com toda essa estrutura que o clube tem. Mas não sei, talvez eu nem precise chegar num time tão grande, como o Atlético. Acho que eu preciso começar num time bem menor. Hoje, eu queria ver o meu genro trabalhando no Atlético. Ele é jogador de futebol, um bom atacante. É o Tico Mineiro, que jogou muito tempo na Portuguesa, foi campeão do Rio-São Paulo pelo Botafogo. É muito bom jogador, estava na Coréia e voltou agora. Espero que no ano que vem ele consiga trabalhar num bom time. Se for o Atlético, melhor ainda.



Últimas Notícias

Torcida

Colecionadores da nossa paixão

Para alguns torcedores atleticanos, não basta apenas vestir a camisa por amor. É preciso guardar algumas, centenas delas num acervo particular, em coleções prá lá…

Torcida

As histórias por trás dos acervos

Cada colecionador é, de certa forma, guardião de um pedaço da história do clube. E cada coleção também acaba criando sua própria história. Nenhuma nasce,…