26 jul 2004 - 21h54

Sacudindo o Caldeirão

Furacão, êo! Atlético, ôô!“. Os gritos de incentivo ao time do Atlético sempre prevaleceram na Arena da Baixada, fazendo com que a torcida levasse a fama de “fanática” no Brasil inteiro. Não é à toa, afinal, que o apoio incondicional dos torcedores, com seus gritos aliados às batidas dos instrumentos, sempre foram um diferencial da torcida atleticana. Temida e admirada por adversários, a nação rubro-negra hoje precisa dividir seu apoio com cantos como “ei, Petraglia, libera a bateria!” ou “já virou sacanagem; libera a bateria, deixa de bobagem!“.

A polêmica começou no dia 2 de maio, no Atletiba válido pelo Campeonato Brasileiro. Na mesma época em que se viu obrigada a baixar o preço dos ingressos por determinação da justiça, a diretoria atleticana proibiu a entrada do material de percussão das torcidas no estádio. A justificativa era de que a bateria no anel inferior gerou uma série de reclamações dos proprietários dos camarotes, que alegavam falta de visão e o barulho excessivo. A determinação durou até 30 de maio, no jogo contra o Cruzeiro, quando a bateria foi liberada no anel superior da Arena, onde, segundo os dirigentes, a presença de torcida não prejudica a visão dos proprietários de camarotes.

“O Atlético respeitou todos. Para conciliar interesses, nós buscamos um local que é extremamente confortável e que proporciona uma visão do campo tão ou mais privilegiada do que o anel inferior”, afirma o presidente João Augusto Fleury da Rocha, explicando uma das razões da medida.

O aparente clima de paz durou 34 dias, ou dois jogos – contra Cruzeiro e Vitória. A partir do jogo contra o Juventude, em 3 de julho, a Torcida Organizada Os Fanáticos decidiu descer para o local que tradicionalmente ocupa, mesmo que isso representasse a ausência do material de percussão. “A gente prefere ficar lá em baixo porque lá em cima não é o lugar da torcida. Lá em cima é um lugar perigoso, não dá para ficar o tempo inteiro em pé, pulando e cantando. A curva do anel inferior já ficou conhecida como sendo da torcida organizada. Por isso, nem nós, nem a Fanáticos, abrimos mão de ocupar o nosso espaço”, avisa o presidente da Ultras do Atlético, Gabriel Barbosa.

Segundo Fleury, o anel superior é absolutamente seguro. “Essa área foi escolhida com o concurso da Polícia Militar justamente para proporcionar maior segurança aos torcedores”, rebate ele.

Para resolver o impasse, as torcidas organizadas pedem diálogo. “Propomos sentar com a diretoria e conversar. Nada melhor do que eles ouvirem nossas reivindicações, para o melhor para o próprio Atlético. A torcida é a razão de tudo isso, nós queremos o melhor para o clube, assim como eles”, pede Gabriel. Posição semelhante tem a Fanáticos. “Queremos que a diretoria tenha bom-senso e entenda que o que queremos é o melhor para o clube. Nós queremos ir para a Baixada cantar, torcer, empurrar o Furacão. Esperamos que a diretoria entenda que a gente deve continuar ajudando o Atlético a vencer”, resume o vice-presidente da organizada, Juliano Rodrigues.


Torcedores sentem falta da agitação na Arena

A vibração da torcida e o apoio incondicional nos 90 minutos de jogo, ao som do tradicional batuque fizeram com que o estádio ficasse conhecido no Brasil inteiro como um caldeirão. Sem ele, alegam os torcedores, a Arena se transforma num estádio frio, comum e sem-graça. E a volta dos bons tempos do Caldeirão rubro-negro é uma vontade da maioria dos atleticanos. Enquete da Furacao.com aponta que cerca 80% dos internautas acreditam que a bateria está fazendo falta no anel inferior da Arena. Do mesmo modo, integrantes do Fórum do site elaboraram, conjuntamente, um manifesto pelo retorno dos instrumentos de bateria ao anel inferior do estádio.

Se é a bateria que dita o ritmo da torcida rubro-negra, sua ausência está sendo sentida até mesmo pelo time, dentro de campo. “O Atlético, com a torcida ao seu lado, é quase imbatível dentro do Caldeirão. Mas com a torcida contra, ele vai brigar para não cair. A torcida do Atlético é muito grande e muito intensa, precisamos dela ao nosso lado sempre”, desabafou o técnico Levir Culpi após o jogo contra o Fluminense.

Para os representantes das organizadas, esse apoio que pede o treinador fica mais completo ao som do material de percussão. “A bateria, o apoio total da torcida, a vibração toda, com certeza é um fator a mais para motivar os jogadores. Queremos sempre fazer uma festa bonita, contribuir com cada vitória e cada conquista do Atlético, como sempre fizemos”, justifica Juliano, da Fanáticos. “A torcida está desconfortável. Antes, a gente ia aos jogos preparados para uma grande festa. Hoje, mesmo ganhando, não é a mesma coisa. Falta aquela vibração, aquela alegria. Falta um algo a mais, que é a bateria, as faixas, a volta daquela essência que nos faz acreditar que a Baixada é sim a casa da torcida atleticana”, emociona-se Gabriel.

Os dirigentes contra-argumentam que é melhor para as torcidas ficarem no anel superior da Baixada. “Foi feito um estudo de ressonância musical e chegou-se à conclusão de que se as baterias tivessem situadas no andar superior, as ondas sonoras atingiriam uma repercussão muito maior, especialmente sobre a torcida adversária”, justifica o presidente Fleury.

Ditando o ritmo das vitórias

A paixão e o amor incondicional pelas cores vermelho-e-preta sempre impulsionaram o torcedor atleticano. Uma torcida que tem como marca registrada o atleticanismo e o apoio irrestrito ao time durante toda a partida. A torcida é conhecida nacionalmente por sua irreverência e criatividade, que através de gritos, cantos, coreografias e músicas transforma rapidamente a Arena da Baixada num verdadeiro Caldeirão. Um Caldeirão atleticano.


Fanáticos pede diálogo com a diretoria

Em 1978, a recém-criada Torcida Organizada Os Fanáticos conseguiu, com o apoio do então presidente Antônio Sérgio Guimarães Lück, dinheiro suficiente para a compra da charanga da Fanáticos. O primeiro instrumento do grupo foi uma azabumba (um surdo que fica pendurado no peito). Assim começou a história de um relação explosiva, capaz de calar torcedores adversários e intimidar jogadores de outros times em nome da paixão pelas cores rubro-negras.

Hoje, apesar das diferenças entre alguns torcedores e a diretoria, a relação entre time/torcida continua a mesma, movida pela paixão que une milhares de atleticanos, simplesmente, apaixonados. Uma paixão sem limites, em nome do engrandecimento do Clube Atlético Paranaense.

E você, acha que a presença da bateria dá um colorido especial na festa da torcida atleticana? Confira os depoimentos de alguns torcedores sobre o assunto:

“Ir à Arena e não ouvir o bumbo da Fanáticos é como ver o jogo o tempo todo sentado, andar na Rua XV sem topar com o Oil Man, ou beijar de olhos abertos: não tem graça.” – Dary Júnior, jornalista e colunista da Furacao.com

“A bateria representa o coração rubro-negro batendo mais forte. É um ritmo que contagia todos nós, torcedores…. A única coisa que queremos é torcer e unidos ajudar o Furacão no caminho do bi.” – Jaqueline dos Santos, estudante

“Assim como por muito tempo os tambores elevaram o moral e aumentaram a determinação dos antigos guerreiros em batalha, a bateria marca o ritmo da nossa alegria e da nossa paixão. Nada mais desejamos além de nos juntarmos aos esforços de todos os atleticanos, sejam eles jogadores, comissão técnica, diretores, simpatizantes ou torcedores, para que com a garra de todos, seja possível demonstrar ao nosso modo, o orgulho e principalmente o compromisso de quem é apaixonado pelo nosso querido Furacão.” – Sergio Surugi de Siqueira, professor universitário

“Em cinco anos de funcionamento da nova Baixada, jamais foi noticiada qualquer reclamação por parte dos proprietários de camarotes, e tampouco houve qualquer problema com a organizada naquele local. Curioso que este ‘problema’ seja apontado pela diretoria justamente neste momento marcado pelo desentendimento” – Ricardo Campelo, advogado e colunista da Furacao.com

“O apoio incondicional de nossa torcida, nossos gritos de guerra, a batida de nossa bateria e o entoar dos cantos sempre foram nosso diferencial. Sempre fomos temidos e admirados por adversários por este motivo. A bateria é fundamental neste quesito. Não podemos abrir mão desta ferramenta, que complementa a raça que orgulhamos ter.” – Eduardo Vieira, empresário

Reportagem: Patricia Bahr, do Conteúdo da Furacao.com

Saiba mais sobre o tema dessa reportagem:
Manifesto elaborado pelos integrantes do Fórum Furacao.com
Torcida ainda protesta pela bateria
Atlético esclarece questão da bateria na Arena



Últimas Notícias

Opinião

Um Athletico! Uma vida!

E lá se vão 49 anos. Isso aí, 49! Ano do Furacão! E como vivi esse Athetico! E como estou vivendo, feliz e não menos…