8 set 2005 - 19h01

1970, o Título da Raça: Glacy Passerino Moura

Se o Atlético é hoje um dos maiores clubes do Brasil deve muito disso ao que foi construído ao longo de seus 80 anos de história. Se hoje a torcida tem a oportunidade de vivenciar um momento histórico fantástico, há algumas décadas a situação era bem diferente. Mais precisamente nos anos 60, quando o clube atravessou um de seus momentos mais complicados. Depois de doze anos sem conquistar um título, o Atlético foi campeão paranaense de 1970 e, com uma conquista histórica, proporcionou uma das maiores festas de que se tem notícia na história do futebol paranaense.

Para comemorar os 35 anos da conquista do Estadual de 70, os sites Furacao.com e RubroNegro.Net publicarão uma série de entrevistas com personalidades atleticanas. Ex-jogadores, dirigentes, técnicos e apaixonados atleticanos revelarão detalhes daquela conquista épica.

A nona entrevista da série é com Dona Glacy Passerino Moura, viúva do presidente Rubens Passerino Moura. Médico e militar, Rubens Passerino Moura foi presidente do Atlético em 1970 e uma figura decisiva para o time conquistar o título estadual daquela temporada. Ao lado do irmão Claudio e de diversos atleticanos de enorme dedicação, o Coronel Passerino conseguiu contornar dificuldades financeiras. Sempre ao seu lado, Dona Glacy recorda algumas passagens daquela época:

Em setembro, comemoram-se 35 anos da conquista do título paranaense de 1970 pelo Clube Atlético Paranaense. Qual a importância daquele título no contexto em que foi conquistado?
Por ter sido mais de uma década depois, 12 anos, foi de uma importância muito grande. Como meu falecido marido (Rubens Passerino Moura), presidente do Atlético na época, enfrentava sérias dificuldades financeiras, o título foi mais valorizado. O Rubens colocou urnas nas ruas para as pessoas colocarem o dinheiro que pudesse ajudar o Atlético, que estava sem um centavo. Os postos foram instalados na Avenida Luiz Xavier, bem no coração da "Boca", no "Senadinho" e na Praça Tiradentes.

Os mais novos talvez não saibam, mas o Atlético enfrentava graves dificuldades financeiras naquele início dos anos 70. Você lembra disso e de algum episódio que retrate a situação precária em que o clube se encontrava?
Eu me lembro que quando o Rubens assumiu, vários jogadores o procuraram para que ele se tornasse avalista dos apartamentos desses atletas. Então ele avalizava e fazia tudo isso por amor ao clube, pois precisava desses jogadores. Eu sempre achei essa atitude muito marcante, eu nem cheguei a cogitar o contrário. Eu sabia que não iria adiantar. Para ser avalista dos jogadores, sem mesmo ter respaldo depois, era perigoso, mas era tudo passional. O Rubens dava tudo de si. O jogador chegava lá, explicava a situação e o meu marido ajudava no que fosse possível. Quanto aos salários eu não sei como ele fazia, mas sei que ele sempre contava com a ajuda do irmão dele, que fazia parte da diretoria. Todos os jogadores conseguiam receber. Havia muito respeito dos jogadores para com o Rubens, ainda mais por ele ser do Exército. Eles sabiam da paixão dele pelo Atlético e isso passava para eles dentro de campo.

Como foi a comemoração do título no jogo em Paranaguá e depois, em Curitiba?
Eu tinha ficado aqui em Curitiba e acompanhei os festejos pela televisão. O que posso dizer é sobre a festa que teve aqui na cidade, foi uma verdadeira apoteóse. Nas fotografias de jornal dá para se ter uma idéia da loucura que virou essa cidade. Ele chegou naquele estado dele, gritando, com faixa e festejando muito. Lembro de ter visto num jornal uma frase dele, antes do jogo da final, contra o Seleto: "Que ninguém seja louco de nos roubar. Comando a massa e quebro tudo isso aí", dizia. Dizem que no segundo gol do Atlético, ele mostrou o cotovelo aos torcedores do Seleto e fumou mais de duas carteiras de cigarro, tamanho era o nervosismo.

Qual o momento mais marcante da trajetória do Atlético no Campeonato Paranaense de 1970?
O Rubens tinha uma paixão muito grande pelo Atlético. Quando o Rubens ainda não era presidente, ele costumava ficar com amigos atrás do gol dos fundos da Baixada atirando bolinhas no goleiro adversário com estilingues, no intuito de salvar o time. Ele não era uma pessoa de muitos amigos, mas sim de bons amigos. Também não escondia de ninguém sua raiva pelo Coritiba e ficava muito feliz quando o Atlético ganhava um Atletiba, seja pelo placar que fosse. Uma vez eu lembro que ele prometeu que ia quebrar um rádio aqui de casa se o Brasil fosse campeão do mundo. E não deu outra: em 1958 ele não resistiu após o quinto gol brasileiro e explodiu em frente ao rádio, arrebentando-o. Curiosamente, depois o aparelho ficou depois em exposição no Bar Americano e na redação do jornal Paraná Esportivo. Outra vez, vendo um certo "corpo mole" de alguns jogadores, o Rubens chamou-os num canto e disse que se continuassem daquela maneira, tirava-os do time, encostava e não os emprestava, muito menos vendia. Deixava-os no "come-e-dorme", como se diz por aí.

Naquela época, falava-se muito em uma possibilidade de fusão do Atlético com algum outro clube de Curitiba em função de dificuldades econômicas. Isso existiu mesmo ou era boato?
Se realmente houve, eu não sei. Mas acredito que o Rubens jamais iria aceitar. A situação financeira estava bem complicada, mas o título veio ajudar essa crise que o Atlético passava. Pelo temperamento do Rubens, jamais ele iria aceitar "dividir" o Atlético dele.



Últimas Notícias

Libertadores

É bom rever você, Walter!

Foram necessários apenas oito minutos em campo contra o Jorge Wilstermann e um único chute a gol para uma história ser coroada com choro, abraços…