10 set 2005 - 10h32

1970, o Título da Raça: Sicupira

Se o Atlético é hoje um dos maiores clubes do Brasil deve muito disso ao que foi construído ao longo de seus 80 anos de história. Se hoje a torcida tem a oportunidade de vivenciar um momento histórico fantástico, há algumas décadas a situação era bem diferente. Mais precisamente nos anos 60, quando o clube atravessou um de seus momentos mais complicados. Depois de doze anos sem conquistar um título, o Atlético foi campeão paranaense de 1970 e, com uma conquista histórica, proporcionou uma das maiores festas de que se tem notícia na história do futebol paranaense.

Para comemorar os 35 anos da conquista do Estadual de 70, os sites Furacao.com e RubroNegro.Net publicarão uma série de entrevistas com personalidades atleticanas. Ex-jogadores, dirigentes, técnicos e apaixonados atleticanos revelarão detalhes daquela conquista épica.

A décima entrevista da série é com o ex-jogador Barcímio Sicupira Júnior, um dos maiores ídolos da história do Atlético. Sicupira vestiu a camisa rubro-negra durante oito anos e marcou 154 gols, marca até hoje inigualada. Foi o artilheiro do Campeonato Paranaense de 1970, com 20 gols, e um dos grandes responsáveis pela conquista do título. Apesar de uma carreira brilhante, Sicupira só foi campeão uma vez: justamente em 1970. Atualmente, ele é comentarista da rádio Banda B e do canal CNT. Confira a entrevista exclusiva com Sicupira sobre o título de 70:

Em setembro, comemora-se os 35 anos da conquista do título paranaense de 1970 pelo Clube Atlético Paranaense. Qual a importância daquele título no contexto em que foi conquistado?
Era um tempo difícil porque fazia 12 anos que o Atlético não conquistava nada, com o Coritiba levando vantagem. Por isso, esse título pode ser considerado um marco para que o Atlético pudesse reagir. Não era o melhor time do campeonato, mas era um time bravo, guerreiro, que compensava uma possível inferioridade técnica com raça, com vontade,

Os mais novos talvez não saibam, mas o Atlético enfrentava graves dificuldades financeiras naquele início dos anos 70. Você lembra disso e de algum episódio que retrate a situação precária em que o clube se encontrava?
Realmente a situação era bem complicada. Tenho dois casos para exemplificar isso. Eu tive passe livre uma porção de vezes. Porque naquela época, se o clube ficasse três meses sem pagar os salários dos jogadores, a gente ganhava o passe. E foram várias as vezes em que fiquei com o passe, porque o Atlético não tinha como pagar os salários. Outra situação que várias vezes encontramos era em épocas de chuva. Se chovia de manhã e a gente treinava, os treinos da tarde não aconteciam porque as toalhas estavam molhadas. O Atlético não tinha dois jogos de toalhas para dar aos jogadores. Então eram situações assim, até mesmo constrangedoras, que a gente tinha que superar com vontade para vencer.

Como foi a comemoração do título no jogo em Paranaguá e depois, em Curitiba?
Foi uma festa digna do tempo da espera. Em Paranaguá foi aquele delírio com a torcida que estava lá, que lotou o campo do Seleto. Tinha muita gente lá, então aquilo já deu mostras de como seria a festa aqui. Na estrada, na volta de Paranaguá, também teve muita festa, porque a estrada foi liberada só para a gente e para os carros que subiam a serra, então foi quase que uma rodovia toda só de Atlético. E a gente chegou e fomos direto para a avenida, comemorar com a torcida que estava aqui. Ficamos madrugada adentro fazendo festa, foi uma comemoração muito especial.

Qual o momento mais marcante da trajetória do Atlético no Campeonato Paranaense de 1970?
A reta final, as últimas duas partidas acho que foi o momento especial. Porque bem no final, o Coritiba teve um jogo em Paranaguá, que até hoje eles alegam que o campo não tinha condições e empataram. Enquanto nós viramos nos últimos minutos o jogo contra o União e ficamos um ponto na frente. O pessoal da crônica não esperava que a gente vencesse, tanto que saímos perdendo para o União, mas conseguimos naquela base da superação a virada. E aí, na última rodada, aquela emoção toda. Foi um campeonato muito irregular, o Atlético perdeu muitos jogos, principalmente fora de casa, e para a crônica daquela época o Coritiba era melhor.

Naquela época falava-se muito em uma possibilidade de fusão do Atlético com algum outro clube de Curitiba em função das dificuldades econômicas. Isso existiu mesmo ou era lenda?
Não, em 1970 não se falava em possibilidade de fusão. Pelo menos não entre os jogadores. Talvez alguma coisa mais interna, que a gente não tenha sabido, mas entre os jogadores, assim, aberto em público, não chegou a se cogitar a possibilidade de fusão. Isso veio algum tempo depois.

Você acha que a conquista de 1970 pode ser chamada de "O Título da Raça"?
Acredito que sim. Era um time que lutava contra uma porção de coisas, principalmente a falta de dinheiro, que é uma coisa muito complicada. Os jogadores entenderam a situação do clube e continuaram acreditando, trabalhando, buscando a conquista. Se aquele situação tivesse acontecido hoje, com certeza os jogadores tinham ido embora, abandonado o Atlético no meio do caminho, porque hoje o futebol está muito profissional. Naquela época não, a gente foi até o fim e vencemos.



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