14 set 2005 - 16h36

Entrevista: Carneiro Neto fala sobre o título de 70

Se o Atlético é hoje um dos maiores clubes do Brasil deve muito disso ao que foi construído ao longo de seus 80 anos de história. Se hoje a torcida tem a oportunidade de vivenciar um momento histórico fantástico, há algumas décadas a situação era bem diferente. Mais precisamente nos anos 60, quando o clube atravessou um de seus momentos mais complicados. Depois de doze anos sem conquistar um título, o Atlético foi campeão paranaense de 1970 e, com uma conquista histórica, proporcionou uma das maiores festas de que se tem notícia na história do futebol paranaense.

Para comemorar os 35 anos da conquista do Estadual de 70, os sites Furacao.com e RubroNegro.Net publicarão uma série de entrevistas com personalidades atleticanas. Ex-jogadores, dirigentes, técnicos e apaixonados atleticanos revelarão detalhes daquela conquista épica.

A décima terceira entrevista da série é com o jornalista e historiador Antonio Carlos Carneiro Neto. Colunista da Gazeta do Povo há 20 anos, Carneiro é um dos baluartes da crônica esportiva paranaense. Em 1970, Carneiro Neto era narrador da Rádio Clube Paranaense e participou da transmissão de diversas partidas do Estadual ao lado de Airton Cordeiro, chefe da equipe. Confira as recordações de Carneiro Neto sobre o título de 1970:

Em setembro, comemoram-se 35 anos da conquista do título paranaense de 1970 pelo Clube Atlético Paranaense. Qual a importância daquele título no contexto em que foi conquistado?
A conquista do título de campeão paranaense de 1970 foi importante para o Atlético porque ele estava há 12 anos na fila e havia sofrido muito em 1967 com a queda para a segunda divisão estadual e com a perda do título de 1968, no último segundo do jogo decisivo com o Coritiba. Aquele título estava nas mãos do Furacão que, entretanto, deixou escapar com dois empates inesperados com Britânia e Seleto, dois times pequenos, provocando uma decisão extra com o Coxa. Em 70, o Atlético estava mergulhado em dívidas – pelos investimentos feitos em 68 para o estadual e para o Roberto Gomes Pedrosa – embrião do atual Campeonato Brasileiro. Com a morte do presidente Jofre Cabral, ele não pode concluir o seu plano que, entre outras coisas, passava por uma fusão com o Santa Mônica Clube de Campo – que era dele – e a construção da nova Baixada. Ficaram as dívidas e a crise emocional pela sua morte e a perde do campeonato. Felizmente, sob a liderança do presidente Rubens Passerino Moura, o clube se reergueu formando uma diretoria com cerca de 20 dirigentes da melhor qualidade e o título de 70 foi conseqüência do trabalho sério, honesto e competente. A vinda do técnico Alfredo Ramos, em 69, foi fundamental, pois se tratava de um profissional experiente, carismático e muito sério. O time era tecnicamente razoável, mas jogava com uma garra incrível e contava com alguns jogadores que desequilibravam, como Djalma Santos, Sicupira e Nílson Borges.

Os mais novos talvez não saibam, mas o Atlético enfrentava graves dificuldades financeiras naquele início dos anos 70. Você lembra disso e de algum episódio que retrate a situação precária em que o clube se encontrava?
Bem, a primeira respondeu parte desta pergunta. Lembro-me de diversas passagens, pois transmiti quase todos os jogos do Atlético naquela campanha, já que foi o meu primeiro ano como narrador da Rádio Clube Paranaense. Fui repórter até 69. A cena emblemática da situação financeira do clube foi quando em uma partida no interior, o bicampeão mundial Djalma Santos foi calçar as meias e elas só tinham o cano. Ele forrou as chuteiras e foi pro jogo. Havia muita camaradagem entre os dirigentes e os jogadores e, como sempre, a torcida enlouquecida nas arquibancadas fazendo a sua parte.

Como foi a comemoração do título no jogo em Paranaguá e depois, em Curitiba?
Fui para Paranaguá na camionete da rádio e voltei de litorina com a torcida, convidado pelo Anfrísio Siqueira e o Rubens Cortese, dois atleticanos da velha guarda, meus amigos, que foram os organizadores ao lado do doutor João Carlos Farracha da descida para a decisão via férrea. Antes do jogo, Paranaguá parecia uma cidade sitiada com torcedores atleticanos uniformizados, bonés, bandeiras etc., por todos os lados nas ruas, nos bares, nas praças. Em torno do estádio Orlando Mattos havia um mar rubro-negro, pois desceram mais de 10 mil pessoas e o estádio só tinha capacidade para 5 mil. Ficaram ouvindo o jogo pelo rádio e cada gol era aquele dentro e fora do estádio. Na volta os jogadores foram levados para um dos melhores restaurantes da época – Fontana Di Trevi – que ficava na rua XV, onde hoje tem um restaurante por quilo na Boca Maldita ao lado do Braz Hotel. Lá houve um jantar entre dirigentes, jogadores e familiares. Eu havia sido convidado, mas como a litorina chegou mais tarde, nos limitamos a comemorar com o chope lá na Baixada. A volta da delegação registrou a maior apoteose jamais vista na cidade: Alfredo Ramos contou-me que da Academia do Guatupê até a Boca Maldita havia gente dos dois lados da estrada e das ruas, gritando, chorando, acenando e comemorando.

Qual o momento mais marcante da trajetória do Atlético no Campeonato Paranaense de 1970?
Houve diversos acontecimentos. Vamos a alguns deles: naquele tempo a Baixada não possuía iluminação artificial e os seus jogos nas quartas-feiras eram realizados à tarde. O estádio enchia sempre – cerca de 8 a 10 mil torcedores invariavelmente – e no dia seguinte a Tribuna do Paraná publicava as fotos dos executivos com pastas 007, ternos e gravatas. Era a maior gozação. Num desses jogos, Nílson seria julgado pelo TJD e o Atlético conseguiu fazer com os auditores atleticanos se reunissem ao meio-dia, julgassem para que ele, como foi absolvido, pudesse entrar em campo às 15h30. Houve jogos bem dramáticos, como os dois Atletibas – 1 a 0, gol de Zé Leite na Baixada e empate no Alto da Glória -, os jogos contra o Ferroviário, o Grêmio Oeste e o União Bandeirante, os melhores times do interior naquela temporada. O penúltimo jogo, que decidiu o campeonato já que o Coritiba empatou em 0 x 0 com o Grêmio Oeste, em Guarapuava, foi particularmente de matar. O União Bandeirante vencia por 1 a 0 quando aos 37 minutos do segundo tempo foi marcado um pênalti a favor do Atlético, na Baixada. Djalma Santos cobrou e chutou para fora. Faltando 5 minutos, o Furacão foi com tudo para cima e Sicupira fez dois gols garantindo a vitória. O jogo final em Paranaguá foi mera formalidade, pois o Seleto não tinha nenhum interesse no resultado.

Naquela época, falava-se muito em uma possibilidade de fusão do Atlético com algum outro clube de Curitiba em função de dificuldades econômicas. Isso existiu mesmo ou é uma lenda?
Pelas dificuldades financeiras dos clubes, que viviam exclusivamente da renda dos jogos e, em alguns casos, das promoções com sorteios de automóveis e nessa parte o Coritiba era mais organizado e se deu bem, tanto que construiu o estádio e ganhou uma dúzia de títulos naquela época, sempre se falava em fusão. No caso específico do Atlético sempre houve um namorico com o Pinheiros, que era ali da Água Verde, mas nunca deu certo por causa das cores da camisa, o hino, aqueles coisas que o atleticano preza muito. O mais próximo de fusão que existiu mesmo foi em 1995 quando houve uma reunião oficial no escritório do conselheiro Erondy Silvério, do Paraná Clube. Foram seis representantes do Atlético e seis do Paraná – 3 da ala azul e 3 da ala vermelha. Mario Celso Petraglia liderou o grupo de atleticanos, entre os quais eu estava presente a convite dele, e, pela primeira vez o Atlético apresentou uma proposta clara de fusão sem qualquer interesse subalterno. Foi uma conversa franca, só que na época o Paraná Clube era tricampeão paranaense e o único time na Primeira Divisão. Como não houve um entendimento prévio entre os pinheirenses que eram favoráveis à fusão com os colorados, que só tomaram conhecimento da proposta naquele momento, eles pediram tempo para refletir e nunca mais se falou no assunto pois em seguida o Paraná Clube emitiu uma Nota Oficial afirmando que não se interessava por nenhum tipo de união. Recordo-me que, no trapiche da oficina da loja de automóveis do Erondy Silvério, Mario Celso Petraglia olhou para mim e disse: "É, vamos ter que fazer o maior clube de futebol do Paraná sozinhos". E fez. Além da Arena, do CT do Caju e das dezenas de jogadores revelados, com destaque ao pentacampeão mundial Kleberson, o Atlético é o atual campeão paranaense, vice-brasileiro e vice da Libertadores.

Qual sua melhor lembrança daquele título?
O campeonato de 70 foi marcante porque depois de 12 anos o Atlético ganhou um título e, depois, ficou mais 12 anos sem vencer. O drama financeiro do clube era realmente grande e só foi superado com a nova mentalidade injetada pela "Retaguarda Atleticana", formada por um grupo de jovens empresários atleticanos – Valmor Zimermann, Petraglia, Valdo Zanetti, Osni Pacheco e muitos outros. De 82 em diante o Atlético foi diversas vezes campeão e o único clube do mundo a construir três estádios: o Pinheirão, já que só os atleticanos compraram camarotes, cadeiras, estacionamento etc; a nova Baixada no período do Farinhaqui e a Arena da Baixada, inaugurada em 99. Coisas que só acontecem com o Atlético.



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