26 mar 2008 - 11h19

Confira os bastidores da fundação do Atlético

Quem ama não esquece. Foi pensando nesta frase que a Furacao.com criou em 2004 o Diário da Fundação do Clube Atlético Paranaense. A história do Rubro-Negro deve ser contada e passada de geração em geração porque são 84 anos de superação, raça, garra, amor e títulos. Poucos se lembram e muitos nem eram nascidos quando os cofres do Atlético estavam praticamente vazios. Os torcedores doavam dinheiro em urnas nas praças públicas da cidade. Os jogadores, que vestiam e continuam vestindo a camisa atleticano com muito amor, tinham seus salários atrasados, mas mesmo assim jogavam com a raça que ficou conhecida como a Raça Atleticana.

Hoje, o Furacão é conhecido no mundo inteiro. O Atlético cresceu, se tornou “independente”, tem um dos melhores Centro de Treinamentos das Américas, e a Kyocera Arena é o melhor estádio da América Latina. Jogadores que por aqui passaram se tornaram ídolos em todo o mundo. Mas nunca esquecem de elogiar o time da Baixada. Nesses 84 anos de vida, foram muitas alegrias, muitas glórias, muitas lágrimas derramadas pelo nosso Furacão. E com certeza muitos anos de luta virão, mas a torcida atleticana que em 1970 parou a estrada de Paranaguá, nunca deixará de apoiar o time do coração: o nosso Furacão.

E para relembrar os momentos que antecederão a fundação do nosso querido Atlético, e comemorar os 83 anos de história do clube, a Furacao.com traz aos torcedores o Diário da Fundação do Clube Atlético Paranaense. Relembre e viaje no tempo com a história rubro-negra. Boa Leitura atleticano!

26 de março de 1923 – segunda-feira

Quantas voltas esse mundo dá! Hoje fomos surpreendidos pela turma liderada por José Gonçalves Junior, Anibal Carneiro e Heitor Valente, do América, propondo uma união de forças. Logo eles, os americanos, que não faz nem uma década deram seu grito de independência e resolveram deixar o Internacional para formar um novo clube.

Desde a fundação do Internacional, em 1912, todos sabiam estar diante de uma grande força. A esquadra era muito eficiente e representava uma negação às sociedades de colônias de imigrantes, ganhando força em todos os cantos da cidade. O único problema é que o clube passou a reunir muitos associados e nem todos tinham espaço para jogar.

Facilmente derrotávamos Paraná e Curityba. E
como abrir mão de Ivo Leão, Cândido Mäder, Pandu, Maravalhas, Manfredini e Bacalhau? Não havia muita solução. Por isso, a esquadra reserva do Internacional decidiu desvincular-se e, em 1914, surgiu o América Foot Ball Club. Sabíamos que seria um grande clube, mas nada pudemos fazer para evitar a saída deles. Em 1915, nenhum clube conseguiu fazer frente ao Internacional, campeão invicto, com belas atuações de Ivo Leão. Mas, dois anos depois, o América montou uma bela esquadra e levou o troféu do Torneio Oficial.

Mas hoje os tempos são outros e a situação dos americanos não é nada confortável. Nem a conquista da segunda divisão do Estadual acalmou as coisas. A dívida acumulada com a Associação Sportiva Paranaense não é das menores. Ontem, no jogo extra para decidir o representante no Torneio Oficial, América e Universal empatavam por 3 a 3 quando Marrecão decidiu tirar o time de campo na marcação de um pênalti estranho a favor dos universalistas. Ao que tudo indica, a decisão será nos bastidores.

Confesso que, apesar de surpreso com a proposta, não sou de todo contra. Reservadamente, comentei com Leão, Candinho e Arcésio que a união das forças pode ser uma alternativa para conter a ascensão do Britânia. Dos arianos não podemos esperar muita coisa, afinal é uma sociedade de colônia, muito fechada em suas tradições. Mas precisamos provocar alguma reação, senão o futebol de nosso Estado estará fadado ao desinteresse popular.

22 de janeiro de 1924 – terça-feira

Nessa semana voltamos a tratar da união de forças com o pessoal do América. Já faz um ano que eles nos procuraram, sondando uma possível fusão.

Desde então, muito se tem discutido a esse respeito. Ontem foi marcada uma reunião lá no Café do Comércio. Quando chegamos na Rua XV, por volta do meio-dia, fomos informados da morte de Lênin, fato que acabou mudando o rumo das conversas.

Alguns se dedicaram à defesa ardorosa do socialismo, enquanto que outros pareciam não se importar muito com a morte de Lênin. Em todo caso, essas diferenças não atrapalharam os entendimentos para a união dos dois clubes. Aliás, muito ao contrário. Muitos alvinegros e alvirrubros se entenderam nas opiniões políticas, de ambos os lados, criando bons laços de admiração e respeito.

Arrefecidos os ânimos, passamos a tratar da união
dos clubes. Os americanos relataram suas restrições financeiras. Dificilmente terão condições de disputar o campeonato deste ano, pois a dívida com a Associação Sportiva Paranaense já está em cifras altas.

Particularmente, estou cada vez mais favorável à fusão. Não há mais espaço para muitos clubes em Curitiba. A tendência natural é a união de forças para a constituição de agremiações mais fortes. E qual fusão poderia ser melhor que a entre os dois clubes mais populares da cidade? Pois acho que as conversas estão adiantadas e a oficialização do novo clube deve ocorrer nos próximos dias. O nome parece já estar certo: Club Athletico Paranaense. É uma forma de homenagear o Estado, já que a nova associação terá repercussão em todo o Paraná.

Ainda há discussões quanto às cores do uniforme. No ano passado, o impasse gerado nessa escolha acabou encerrando as conversas. Mas agora acho que todos estão mais maduros e conscientes de que a fusão deve mesmo sair. Os internacionalistas não abrem mão da camisa alvinegra, que eles reputam ser mais elegante. Já os americanos querem por força a inclusão do seu vermelho. Ainda há um terceiro grupo, que defende uma solução salomônica, com a presença de três cores: preta, branca e vermelha. Os americanos pensam que o rubro-negro seria melhor, deixando o branco apenas para os calções e alguns detalhes na camisa.

21 de março de 1924 – sexta-feira

Estou um pouco apressado, mas não poderia deixar de registrar que hoje à noite teremos uma assembléia para decidir os últimos detalhes para a fundação do Athletico. Imagino que na próxima semana já deveremos marcar outra assembléia para a eleição dos diretores e para a formação do time.

Ainda não definimos quem será o presidente, mas acho que a escolha não poderá recair sobre outro nome que não o de Arcésio Guimarães, Arnaldo Loureiro de Siqueira ou Joaquim Narciso de Azevedo. Qualquer um deles contará com o apoio de todos, pois os três trabalharam muito pela fusão e são respeitado por ambos os lados.

Os mais empolgados já sonhem até com a construção de um novo campo de jogo no terreno cedido pelo Governo ao Internacional. Apesar disso, o Arcésio deverá propor que os jogos continuem sendo realizados na Baixada da Água Verde. Nada mais natural, afinal o campo também é familiar a todos e oferece ótimas condições.

22 de março de 1924 – sábado

São quase seis horas da manhã e acabei de chegar da assembléia geral. Agora está oficializado: Internacional e América deixam de existir para o surgimento de uma nova força no futebol paranaense, o Club Athletico Paranaense. Será um clube ainda mais forte, unindo a tradição do Internacional e a força popular do América.
Apenas dois sócios votaram contra a fusão: o Moysés Camargo e o Leocádio Correia Júnior. Mas depois da aprovação por ampla maioria, tenho certeza de que os dois passarão a torcer fervorosamente pelo Athletico.

Definimos também as cores do Athletico, que será mesmo rubro-negro, tendo o branco apenas como cor auxiliar. A camisa terá listrar horizontais rubro-negras e o calção será branco. O distintivo será formado pelas iniciais do clube: CAP. Aliás, já fui encarregado com outros companheiros de comprar as novas camisas no Rio de Janeiro, onde há uma confecção de primeira!

Depois desses anúncios, muito comemorados por todos, passaram à eleição da diretoria. O Arcésio Guimarães foi eleito com quase a totalidade dos votos e tenho certeza que fizemos a escolha certa. Joaquim Narciso de Azevedo, do América, será o vice-presidente. Hugo Franco e Arnaldo de Siqueira ficarão como secretários, enquanto que Matheus Boscardin e Erasmo Mäder serão os tesoureiros, responsáveis por arrumar as contas do clube.
Acho que a escolha de Arcésio, nosso presidente do Internacional, foi ótima. Ele tem grande capacidade de liderança e será importante nessa fase de formação do Athletico.

Antes de chegar em casa, passei na sede da Gazeta do Povo e apanhei um exemplar do jornal de hoje. Vejam o que noticiou a página de Desportos: “Vamos hoje dar uma nova aos nossos leitores, notícia essa muito importante para o desporto paranaense. Conforme era esperado os antigos rivais América e Internacional uniram-se ontem. A união para a junção dos dois clubes realizou-se ontem na sede do Internacional S.C., com elevado número de sócios de ambas as sociedades. Após entrarem em acordo ficou resolvido que nova sociedade tomasse a denominação de Club Athletico Paranaense, o que foi aceito por unanimidade. A Assembléia tomou diversas deliberações tais como elaboração dos estatutos, formação de teams, cores e eleição da diretoria, que ficou constituída por quatro sócios de cada club. A novel sociedade terá as cores iguais às do Flamengo do Rio. A sessão de posse será quarta-feira, às 20 horas, na sede social do Club Athletico Paranaense. À novel sociedade auguramos muitas victorias”.

23 de março de 1924 – domingo

Acordei cedo, e como sempre faço aos domingos, fui dar um passeio na Rua XV. Depois de tomar um cafezinho com meus amigos Hugo Franco e Matheus Boscardin, aproveitei o tempo livre para ter os sapatos engraxados.

Enquanto lia o jornal e esperava que o engraxate finalizasse o trabalho, fui surpreendido com a chegada de Candido Mäder, ainda animado com os acontecimentos da noite anterior. Como não pude ir, Candinho me contou como foi a pequena festa que fizeram para comemorar a fundação do Athletico. Comida de primeira e bebida à vontade, segundo ele me disse. E pensar que perdi isso tudo! Meu consolo é que uma outra festa deverá ocorrer logo depois da posse da diretoria.

Candinho também falou de sua emoção ao ser aclamado sócio benemérito do novo clube e revelou sua gratidão ao Alcídio de Abreu, autor da proposta. Sem dúvidas, o Candinho é um dos mais empolgados com a fusão. Ele tem várias idéias para divulgar o novo clube e não tenho dúvidas que um dia ainda será presidente do Athletico.

24 de março de 1924 – segunda-feira

Abro a Gazeta de hoje e já vejo mais uma notícia sobre o Athletico: “Produziu a melhor impressão nos nossos meios desportivos a união dos clubes América e Internacional, resultando dessa fusão o Club Athletico Paranaense. A novel sociedade já mandou buscar as camisas no Rio. A esquadra do CAP, segundo soubemos, é a seguinte: Tapyr, Albano, Bugiu, Franico, Marrecão, Malelo, Smyth, Arold, Ary, Marrequinho e Motta. O referido club temporariamente ficará com o campo do Água Verde. Mais tarde irá construir seu stadium no Passeio Público em lugar que lhe foi cedido pela prefeitura”.

De fato, há muitos que esperam a construção do estádio no Passeio Público, mas se houver votação, serei contra. Acho que a Baixada da Água Verde foi construída sob solo sagrado. Desde que o Joaquim Américo Guimarães conseguiu o terreno e ergueu as arquibancadas, o povo paranaense conquistou um estádio eterno e que ainda nos dará muitas glórias.

Vou conversar com o Arcésio e propor a manutenção da Baixada. Acho até que podemos tentar a negociação desse terreno do Passeio Público, captando mais recursos para a ampliação do clube.

25 de março de 1924 – terça-feira

O surgimento do Athletico já repercutiu por toda Curitiba. Quando estava saindo para o trabalho logo cedo, fui parado no portão de casa pelo grito de um vizinho. Era seu Atílio, fervoroso torcedor do Palestra Itália. Com seu sotaque italiano carregado, ele brincou dizendo que o novo clube não duraria muito tempo e que logo, logo teria de procurar uma fusão com o Universal. Só pude dar risada, pois percebi que o Athletico já começa a amedrontar os rivais antes mesmo de fazer seu primeiro jogo.

Respondi a ele que tivesse cuidado com o Athletico e que esperasse para ver em campo Ary, Marrequinho e Motta. Na verdade, não podia falar muita coisa porque no último jogo contra o Palestra, o Internacional havia levado uma goleada. Mas de qualquer modo é bom perceber que o Athletico já conquista o respeito dos demais clubes de Curitiba. Acho que temos tudo para fazer uma ótima campanha. Aposto principalmente na experiência do Tapyr, que já mostrou ser um dos melhores goleiros do estado e no oportunismo do Marrequinho, que não desperdiça uma boa chance de gol.

Aliás, tanto o Marrequinho como o seu irmão mais velho, Marrecão, são alguns dos americanos mais empolgados, ao lado do Joaquim Narciso de Azevedo. Os três foram fundamentais para a fusão e serão símbolos desse novo clube.

26 de março de 1924 – quarta-feira

A economia do Paraná está conseguindo se firmar e o governo argentino está facilitando a entrada da erva-mate do estado nas terras vizinhas, com a redução de 30% das taxas para o produto paranaense. Mas o assunto que mais tem repercutido é mesmo a criação do Club Athletico Paranaense. Hoje é o grande dia, quando internacionalistas e americanos se reunirão na sede do Internacional, na Rua XV, a partir das 20 horas. Definitivamente, América e Internacional deixarão de existir e todos concentrarão suas forças no engrandecimento do Club Athletico Paranaense.

Já separei a cartola e um belo lenço nas cores vermelho-e-preto para comprovar minha adesão. Combinei com o Candinho em fazermos uma homenagem especial ao Arcésio e ao Joaquim, afinal eles foram os principais idealizadores para o surgimento da nova sociedade.

Escolhemos 26 de março como a data oficial da fundação do clube. Imagino que a cada ano Curitiba pare nesse dia para comemorar o aniversário do Athletico, o clube dos paranaenses.

Estava lembrando que as primeiras conversas sobre a fusão ocorreram há mais de um ano e fui consultar meu diário da época. Acabei descobrindo uma grande coincidência. A primeira sondagem dos americanos foi exatamente no dia 26 de março do ano passado! Portanto, nada melhor do que essa data para a comemoração do aniversário.

27 de março de 1924 – quinta-feira

Já passam das onze horas da manhã e acabei de acordar. Perdi a roda de conversa no Café do Commercio, mas a ocasião mereceu. Varamos a noite em meio aos festejos da criação do Athletico. Em candentes palavras, Arcésio Guimarães proferiu um discurso emocionado. Recordo-me especialmente de uma passagem: “Como rebento pleno de vida, deverá continuar trajetória dos antigos rivais, rivalizando-se com seus adversários e com eles nivelar-se” . Foi aplaudido em pé, por todos os presentes. Todos estamos conscientes de que o Athletico poderá fazer frente a qualquer agremiação esportiva do Estado e é para isso que trabalharemos a partir de agora.

Ressaltamos que se trata de uma obra fictícia baseada em fatos reais. O autor do texto é uma personagem, alguém que jamais existiu, mas que poderia ter existido. Trata-se de uma espécie de Forrest Gump atleticano: presente nos locais certos, nos momentos certos.

Todas as pessoas citadas no diário viveram a época da fundação do Atlético e os fatos mais relevantes ligados ao clube são verídicos. Os detalhes, no entanto, são obra de nossa imaginação, inspirada na bela história do clube.

Fonte: o texto acima foi extraído do Hot Site elaborado pela Furacao.com para o aniversário de 80 anos do Clube Atlético Paranaense.



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