26 mar 2008 - 15h48

"Temos motivos para ser atleticanos", por Valério Hoerner Jr

Novas e velhas gerações: "temos motivo para ser atleticanos"
por Valério Hoerner Júnior

"Ninguém é atleticano por acaso!" – mote de uma peça publicitária que divulgou algum tempo atrás a marca do Clube Atlético Paranaense. O vídeo é muito bom com seus quase trinta minutos exibindo imagens comovedoras. Não esquecer de mostrar o porquê de o Atlético ser hoje tão grande e tão vibrante.

O CT do Caju e a Kyocera Arena aparecem para registrar o efeito de um trabalho sério e idealista: planejamento de longo prazo, coragem, persistência, trabalho em equipe, habilidade técnica e a necessidade de contornar obstáculos com criatividade e cumprimento das metas. Isso tudo representa claramente a própria razão do sucesso. Um sucesso que passou a incomodar muita gente diante dessa dilargação de horizontes rubro-negros e da eliminação de eventuais apoucamentos no que diz respeito a uma planificação séria e perfeitamente realizável.

Diante agora do iminente término da Arena, ou pelo menos de imediato do primeiro anel, ouvi outro dia de um muito lúcido coxa-branca que ainda não havia digerido a pesquisa sobre as torcidas no Paraná: – "Olhe, não quero ser maldoso, mas acho que o Atlético está crescendo demais, dando passos maiores que as pernas… Daqui a pouco, explode! Pense no que estou dizendo."

Está claro que é a santa vontade dos adversários, de muitos da Imprensa, de cá e de lá, principalmente da coxarada que não consegue engolir as verdades contemporâneas. Já não dá nestes tempos mais transparentes para tomarem-nos de assalto os títulos que nos tomaram com a maior cara de pau. Em torno de dez! Quando alguns mais lúcidos concluem corretamente que o Coritiba parou no tempo e no espaço, e que só tenta fazer certas coisas para não se distanciar demais, não deixam de ficar mortificados diante do quadro atual do futebol brasileiro, principalmente porque não conseguem na verdade identificar uma perspectiva de efetivo sucesso para si. Se lhes coubesse a humildade, talvez os percalços fossem mais bem superados, mas quando se lhes deparam negras perspectivas, passam automaticamente a criticar os demais e plantar sapos nos terrenos alheios.

É quando a gente lembra o tempo da Velha Baixada, simpática, confortável, mas modesta na aparência e humilde no acolhimento. Eram os tempos dos carrinhos de pipoca, dos pacotes de mimosa que levávamos para dentro do Estádio, do amendoim com casca… Do pinhão cozido em latões de querosene… Era o tempo do Chic-Chic que vendia toda sorte de guloseimas e do hábil "Quem não me pediu que me pida", afoito e engraçado no comércio dos copinhos de água mineral, então uma novidade. Tempos em que o Gaião ia cobrar a mensalidade na nossa casa, ou no escritório, e passava mais de uma hora falando do Atlético, contando coisas, deixando o molhado dos olhos denunciar seu Atleticanismo. Aí veio o Aníbal Khury que, ao assumir a presidência, demitiu-o, como aos outros cobradores e amigos, a título de modernidade. Em que mudou o Atlético? Apenas na arrecadação: esses humildes cobradores ficaram na mão e nem por isso o Atlético se modernizou. O Aníbal, num golpe de caneta, prejudicou os dois lados, a da classe dos cobradores de trinta anos de casa e a do Atlético, pois o sistema administrativo rubro-negro jamais funcionou.

Nesses tempos, a coxarada arrotava grandeza e nós baixávamos a cabeça. Apanhávamos nos Atletibas e namorávamos a tabela para ver a que distância nos encontrávamos. E passamos décadas nesse miserê. De bolsos vazios e carentes de inteligência e ousadia para enfrentar a banda do lado de lá.

Ao dar, comovidamente, atenção ao que somos hoje, podemos compreender finalmente porque não somos atleticanos por acaso. Soubemos ser modestos por mais tempo que merecíamos, mas com a grandeza de quem não podia aspirar nada além. O sofrimento nas adversidades nos trouxe a compreensão dos desfavorecidos. Soubemos nos abrigar no agasalho da esperança e crescer nas controvérsias do entusiasmo. Crescemos então, principalmente nós, da geração anterior à Arena, que pudemos viver com orgulho o dia de ontem. E avaliando-o, acabamos curtimos essa fase de humildade e secundarismo. Isso nos deu o saber da compreensão que nós, hoje, receitamos à "geração Arena", geração esta que sofre por pouca coisa. Que fica indignada por coisas de somenos importância. Entretanto, pelo motivo de essa geração nova e briosa não ter vivido os tempos de antanho, possui ela hoje a responsabilidade de entender o porquê de tanto sucesso. Nada veio de graça. E muito custou. Nenhum atleticano erra por que quer com relação ao seu clube. Erra procurando acertar, mas não se pode ganhar sempre. Civilidade a essa nova geração não fará mal, pois o engrandecimento revestido de modéstia deve significar a penitência a que está sujeita por ser tão exigente no presente sem tomar conhecimento do passado.

Valério Hoerner Júnior é advogado, professor universitário, jornalista, biógrafo, contista e ensaísta. Ocupa a cadeira nº 40 da Academia Paranaense de Letras. É autor de mais de uma dezena de livros, entre eles a essencial obra "Atlético: a paixão de um povo", em co-autoria com Heriberto Ivan Machado.



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