26 fev 2010 - 18h57

“O Atlético é muito melhor do que as equipes por que passei”

O anúncio da contratação do lateral-esquerda Jean, durante esta semana, exigiu um esforço de memória dos torcedores atleticanos. Alguns, principalmente os mais novos, não lembravam direito dele. Outros sabiam bem e rapidamente se lembraram da história: Jean era destaque do time júnior, foi convocado para a Seleção Brasileira Sub-20 e brilhou em um Campeonato Sul-Americano. Logo que voltou da competição, foi negociado com o Feyenoord, da Holanda. Só teve tempo de fazer três jogos pelo time profissional. Mas talvez o que tenha ficado mais marcado tenha sido o fato de o Atlético ter recebido a contrapeso na negociação o também lateral-esquerda Michel Bastos, hoje brilhando no meio-campo do Lyon e com boas chances de ir para a Copa do Mundo.

Desde então, passaram-se sete anos. Jean não conseguiu se firmar no Feyenoord, nem no Hamburgo, da Alemanha. Teve uma rápida passagem pelo Fluminense, onde trabalhou com Antonio Lopes, e jogou os três últimos anos no Asteras Tripolis, da Grécia. Apesar de ter passado tanto tempo fora, o fato de ter sido negociado muito jovem gerou uma situação inusitada: o retorno do jogador ao Furacão numa idade em que normalmente os atletas estão vivendo o auge da carreira – ele tem 26 anos.

Feliz por poder finalmente vestir a camisa do Atlético, Jean concedeu entrevista exclusiva à Furacao.com. Não se furtou a responder nenhuma pergunta, mesmo as que à primeira vista pareciam delicadas. Falou sobre como se sente quando vê seus contemporâneos Michel Bastos, Marcelo e Adriano atingindo posição de destaque no futebol europeu, sobre lesões e sobre as dificuldades de comunicação com os companheiros em função do idioma.

No momento mais importante da conversa, Jean admitiu que o Atlético foi o melhor clube em que já jogou. “E olha que não foram equipes de menor expressão”, ressalta, lembrando que o Feyenoord é um dos três maiores clubes da Holanda e que o Hamburgo é o quarto maior clube em número de títulos da Bundesliga.

Como é voltar ao Atlético depois de sete anos?
Estou muito feliz porque foi algo que eu venho falando sempre. Foi muito rápida a minha passagem pelo Atlético. Quando estava aqui na base, logo fui para a Seleção Brasileira e depois para a Europa. Então meu maior sonho depois disso era voltar ao Atlético. Fiquei com aquela sensação de que deixei uma boa quantia para o clube, era uma boa oportunidade, mas eu poderia ter ficado mais, sem dúvida. Naquela época, os jogadores da minha safra acabaram jogando umas 50, 100 partidas pelo Campeonato Brasileiro. Então eu achei que poderia ter ficado mais tempo e desfrutado aquele momento. Tive alguns problemas com o Vadão, um dos motivos até para a minha saída, mas a vontade era ficar e jogar, para depois sim sair. Agora estou realizado.

Depois que voltou da Seleção Brasileira, você jogou apenas três partidas no time profissional e, de certa forma, frustrou a expectativa de muitos torcedores, que esperavam acompanhar o surgimento de um novo talento. O que você tem a dizer a esses torcedores agora?
Isso é uma coisa que não foi somente dos torcedores, foi um momento meu também porque eu vinha num crescimento muito grande. Atuei bem pela Seleção Brasileira Sub-20, depois na Sub-23 e a tendência era eu ir para a principal. Então acabou sendo algo frustrante porque a minha cabeça era jogar aqui, sair da Sub-23 e ir à principal, como fez o Adriano, que naquela época jogava no Coritiba. No outro dia que voltei da Seleção acabei sendo vendido e o Adriano deu sequência. Isso sempre ficou na minha cabeça, que eu poderia ter ido para a principal, ou ter ficado aqui, como o Dagoberto, por exemplo, que saiu bem depois. Mas não teve como eu saber naquele momento, a decisão não foi toda minha. Naquele momento tinha o Petraglia e o Vadão, então teve mais porcentagem para eu sair do que ficar.

Procede a informação que é o seu contrato é na forma de rendimento, ou seja, ele pode ser rescindido a qualquer momento?
Sim. Eu concordei em todos os quesitos sobre a oferta que foi colocada pelo presidente Marcos Malucelli, até pelo fato de eu estar há três anos fora do país. Então foi uma conversa muito sincera, tanto da minha parte quanto da dele. Eu já tinha isso em mente, de primeiro chegar, jogar e mostrar o meu futebol. Depois sim a gente fala de valores. Eu até comentei com ele que, a partir de dezembro, a gente pode conversar melhor até porque o valor de mercado da Europa ainda é muito diferente daqui, mas deixei claro que o dinheiro não seria empecilho nenhum, porque a minha vontade maior é ficar. Existindo a vontade do clube, aliando a minha, será o ideal.

O que a passagem pelo futebol europeu acrescentou à sua experiência como profissional?
Como profissional, muita experiência mesmo, até porque você sempre acha que o melhor está no próximo time ou lá fora. Você sempre imagina poder chegar em uma situação melhor. Dei uma rodada boa e tive muita experiência cultural também, mas cheguei à conclusão que o Atlético é muito melhor do que todas essas equipes por onde passei. E olha que não foram equipes de menor expressão. Mas o Atlético é o que melhor oferece estrutura e condições profissionais, que dá segurança para o atleta fazer o melhor dentro de campo. Aqui você sabe que será muito bem assessorado em todos o sentidos e isso serviu também como experiência para mim, porque eu estava no melhor lugar do mundo e não sabia! Aqui estou perto da minha família, da torcida, toda a estrutura, o estádio, então não é em todo clube que podemos encontrar isso.

E quais as principais diferenças que você encontrou no ambiente do clube desde o seu retorno?
Muitas diferenças! Quando cheguei ao CT, em 2000, havia uns dois campos e o mini estádio. Agora tem uns sete ou oito campos, nem contei, fora a piscina, que naquela época era ao ar livre, agora é coberta. O Atlético evoluiu muito. O Alan Bahia subiu da base junto comigo, disputamos todos os campeonatos juntos e agora ele continua aqui. Tem o Júnior Lopes também, que esteve duas vezes no Fluminense com o Paulo Campos, que acabou me levando para a Grécia. Além do próprio Antonio Lopes, com quem também trabalhei no Fluminense. Essa minha convivência com eles ajudou muito para eu voltar ao Atlético. Foi um consenso entre o presidente e o treinador, além de todo o pessoal em volta. E acredito que tenha pesado o meu nome por acreditar no meu sonho, que surgiu lá atrás e não pôde se concretizar.

Como você está fisicamente? Nos últimos anos, você sofreu lesões com certa regularidade, não teme que isso possa atrapalhar seu rendimento?
Sou suspeito para falar, mas até então, pelo que me passaram, na parte física estou entre os cinco melhores condicionados do grupo. Lógico que fisicamente é uma coisa, jogar é outra, mas eu estava em plena atividade até dezembro. Daí passei a ter uma conversa lá no Asteras que eu queria retornar ao Brasil, então fiquei esse tempo sem jogar, mas sempre treinando. É bom esclarecer isso porque foi uma informação que acabou sendo um pouco distorcida, no meu ponto de vista, porque quando eu estava fora e tinha algum problema, sempre tive as portas abertas aqui no Atlético para me tratar e me recuperar. Em dois ou três anos em que estive fora e acontecia alguma coisa comigo, eu cuidava lá, mas não voltava 100%. Nos últimos anos eu consegui fazer isso no Brasil. Na primeira vez que vim aqui me tratar eu sempre voltei 100% para lá. Nunca tive nada grave, jamais fiquei mais de um mês parado, então quando tratava lá não tinha recuperação. Quando vinha para o Brasil eu também acaba divulgando o nome do Atlético, porque sempre falei que aqui o atleta tem tudo para voltar bem. Aí o pessoal acaba generalizando um pouco, juntam o contrato de produtividade e algumas informações que não são a realidade, enfim, o Alan sabe bem disso, fomos campeões juntos, estávamos sempre jogando e ganhando. Claro que todo atleta está exposto a lesões, mas acho difícil alguém que não tenha tido uma lesão que tenha parado por pelo menos uma semana. Quando retornava ao Atlético para fazer tratamento e voltar, sempre ficava aquela coisa, eu poderia ter ficado parado na Europa que ninguém ia saber. Então tem o pessoal que busca e acha essas informações erradas e começa a falar.

Por que você não conseguiu se firmar no Feyenoord e no Hamburgo?
Isso é um processo que eu acho que a maioria dos jogadores que saem do Brasil vai enfrentar. Além de o futebol ser diferente, tem a parte física que é muito mais exigida, além do problema da língua. O jogador que sai do Brasil com seus 18 anos não sabe o que vai encontrar, não tem nenhuma base ou estrutura para suportar isso. Comigo aconteceu tudo muito rápido, até então o pessoal sabia que eu era o Jean da base, mas não tinha reconhecimento nacional, ou estadual que fosse. Em seis meses isso mudou, fui morar em outro país e muitas mudanças aconteceram. De certa forma, isso acabou influenciando dentro de campo, até porque a maioria dos jogadores novos que saem daqui não chega lá para jogar, tem todo um período da adaptação e, daí sim, um pouco mais de reconhecimento. Posso não ter me firmado, mas adquiri a experiência que me fortalece agora.

Dentre os problemas de adaptação por ter ido morar muito jovem na Europa, qual foi a maior dificuldade: clima, comida, cultura?
Tem todas essas, mas a maior foi a língua mesmo. Você chega em um vestiário, está todo mundo rindo e você não entende nada. Vai ficar dando risada? A sensação que eu tive foi como se fosse aquela coisa de “surdo mudo” mesmo.

O futebol europeu é muito diferente do brasileiro? Você atuou exatamente em que posição nesses anos?
Fiquei quase três anos no Asteras e joguei em todas as posições, desde lateral-esquerda, ponta-esquerda, terceiro atacante e volante. Foi um privilégio porque hoje você tem que saber jogar em duas posições. Hoje posso jogar tanto na parte do meio ofensivo quanto defensivo. Lá na Grécia eles jogam no 4-4-2 com uma segunda linha de quatro. No Brasil é como se fosse um 3-5-2 com laterais mais ofensivos…

Dos clubes pelos quais você passou, o que você ficou por mais tempo foi o Asteras Tripolis. Como foi sua passagem por lá?
O time foi campeão com o Júnior Lopes e o Paulo Campos, e quando o Júnior retornou ao Brasil eu estava no Atlético fazendo treinamento, até porque quando eu não estava em recuperação eu treinava no Atlético, sempre tive as portas abertas. Então o Júnior voltou e disse que o Paulo Campos estava procurando um lateral-esquerda e eu acabei indo. Não tivemos títulos pelo fato de ser o primeiro ano na primeira divisão, mas fomos o único time que subiu e conseguiu ganhar de todos os times grandes. No último em casa ganhamos até com um gol meu, quando joguei como ponta, contra o AEK, que é a terceira força de lá. Também vencemos o Panathinaikos e o Olympiakos. Acabamos aquela fase em terceiro ou quarto lugar e brigamos pela vaga na Copa da UEFA, depois no segundo ano brigamos para não cair. Agora, em dezembro, quando saí, também estávamos brigando pela UEFA.

Quando você deixou o Brasil, era uma das maiores promessas do futebol brasileiro, titular da Seleção Brasileira Sub-20 e estava indo para um grande clube da Holanda. De certa forma você ficou frustrado com o que ocorreu? Você se arrepende de ter ido?
Não. Além do mais, brasileiro tem aquela coisa de ir mais pelo lado emocional, de querer sair para ver tudo, ou pelo fato de não terem me dado a oportunidade que eu gostaria de ter. Eu estava vindo numa crescente boa, já estava na lista dos convocados para a Sub-23 e, consequentemente, chegaria à seleção principal. O sonho de todo jogador é isso, e o meu foi quebrado. Não só minha, como eu acho que da torcida também. Só tive um caminho, que foi o de ir, até pela oferta, que acabou sendo melhor para o clube do que para mim.

Na sua negociação, o Atlético recebeu a contrapeso o Michel Bastos, que hoje é astro do Lyon e está perto de ser convocado para a Seleção Brasileira na Copa do Mundo. Quando você vê as notícias sobre ele, pensa às vezes que poderia ser você ocupando esse papel de destaque?
Isso é outra questão que fica na minha cabeça. Já aconteceram pelo menos três situações assim. Na época do Atlético era eu e o Adriano do Coritiba, ele ficou e acabou indo para a seleção principal. A outra foi com o Marcelo que estava no Fluminense jogando comigo, sendo que eu era o titular da posição, só depois que ele começou a treinar e ir bem. E tem ainda o Michel. Então, a sensação que eu tenho é a de que eu sempre estou próximo de chegar lá, mas por uma e outra acaba acontecendo de eu não ir. Não tiro os méritos de ninguém, todos têm muita qualidade, mas também não vejo ninguém muito acima do que eu posso produzir para também estar lá.

Você continuou acompanhando o Atlético durante esses anos em que esteve na Europa?
Sempre. Outro dia comentei com o Alan Bahia, eu vi quando ele completou 100 partidas pelo Atlético e ele me disse: “Pô, você está acompanhando”? Ele tem uma grande história aqui no Atlético, assim como o Rogério Corrêa (NR: o ex-zagueiro do Atlético é casado com a irmã da esposa de Jean). Também sempre acompanhei por causa da minha família, até por mim mesmo, por eu ser cria da base. Sempre acompanhei e sempre vou acompanhar o Atlético, seja onde for.

Atualmente, o Márcio Azevedo é considerado titular absoluto da lateral-esquerda e um dos melhores jogadores do time. Como você encara chegar ao clube sabendo que terá de disputar posição com um jogador que vem tendo um rendimento elogiado?
Fico feliz de ver jogadores da mesma posição jogando bem. Tem o Netinho e o Márcio Azevedo que estão bem, então eu torço por eles até porque não é fácil chegar a um certo nível, de ter oportunidades para mostrar o futebol. Não vejo isso como empecilho, mas como positivo porque se acontecer de eu jogar é porque estarei em melhores condições. Posso jogar na lateral e no meio e nada melhor do que competir com melhor nível. Será uma disputa sadia, conheço bem o Lopes e vi a forma como ele tratou o Marcelo no Fluminense, ele vinha de seleção e mesmo assim nos colocou jogando juntos. Se eu estiver bem, a tendência no decorrer do ano é que podemos até jogar juntos, não tem porque deixar um dentro e outro fora. Acredito nisso, estou com a cabeça boa e torço por todos porque cada um conquistou o seu espaço.

Em quanto tempo você acha que estará fisicamente à disposição da comissão técnica para estrear?
Ainda não tenho o ok da parte administrativa, por causa da papelada envolvendo a Federação, contrato etc., mas estou fazendo normalmente a preparação física para manter o condicionamento que eu já vinha tendo. Estou autorizado pelo departamento médico e treinando forte, mas daí tem mais a parte técnica. Você tem que treinar pelo menos uma semana com o treinador para ele te avaliar, e com o Lopes eu ainda não treinei. Tem toda essa parte burocrática, então não posso adiantar como as coisas irão acontecer.

Muitos torcedores sequer viram você jogar pelo clube. Você pode contar a esses torcedores como é o seu estilo de jogo?
Não foge muito das minhas características na base. Depois que passei pela seleção e pela Europa, cheguei ao Fluminense e fiz as mesmas coisas, que é o chute de fora da área e o passe, as características mais fortes. Claro que é diferente de quando você tem 18 e depois 26, mas você adquire um crescimento da massa muscular e fica mais experiente. Não corre tanto como antes, até porque antes você acaba correndo sem saber o que fazer, hoje você já joga mais bem posicionado, consegue ler o jogo, saber a situação que você pode subir e quando você não pode.

Você trabalhou com o Lopes no Fluminense e com o Júnior Lopes no Asteras Tripolis. Portanto, não terá dificuldades para se adaptar ao método de trabalho da comissão técnica, certo?
Eu tenho a mesma visão do Júnior e do Lopes: se você estiver trabalhando bem, um bom jogador sempre tem espaço na equipe. Esse é o pensamento quando vim para cá e será em qualquer equipe. Ninguém assina contrato para ser titular, depende do retorno dentro dos treinamentos e dos jogos. Também conheço o Leandro (Niehues), o próprio seu Nilson (Borges), então todo o pessoal me conhece.

Para encerrar, qual sua mensagem para os torcedores?
Bom, não vejo a hora de reencontrar a torcida, estou bastante ansioso. Assim como fiquei arrepiado de ver a torcida gritando o nome do Alan Bahia e do Netinho nesses últimos jogos que acompanhei, espero que seja o mesmo comigo.



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