2 nov 2011 - 14h10

Gustavo: “Se alguém fala mal do Atlético, eu brigo mesmo”

Foram cinco anos dedicados às cores do Atlético Paranaense e sete títulos conquistados. Gustavo Caiche, ex-zagueiro de 1,92m de muita raça e determinação, foi eleito o melhor zagueiro do Brasil conquistando o troféu Bola de Prata da Revista Placar em 2001, ano em que se consagrou Campeão Brasileiro pelo Furacão, clube que defende até hoje com unhas e dentes. “Meu coração não é só vermelho, tem a metade preto”.

Em duas passagens pelo Atlético, Gustavo foi Campeão Paranaense em 98, venceu a Copa Paraná em 99 e foi tricampeão estadual em 2000, 2001 e 2002. Ganhou ainda a Seletiva da Libertadores em 99 e ajudou na inédita conquista do Campeonato Brasileiro em 2001. Sua imagem escalando o alambrado do estádio Anacleto Campanella na final de 2001 ainda está viva na mente de muitos atleticanos, assim como o gol do título em cima do Coritiba em 2000. “Esse gol não se apaga jamais. Atletiba era o jogo que eu mais queria jogar, não importava o que valesse. Os caras me odiavam, eu ia lá e fazia gol”, relembra.

Sempre ligado nos assuntos envolvendo o Atlético, Gustavo atualmente se dedica ao seu projeto social no Guarujá, em São Paulo, onde há mais de um ano treina cerca de 40 crianças e adolescentes, dando a oportunidade da convivência em grupo com orientações e ensinamentos através da prática do futebol.

Nesta entrevista exclusiva à Furacao.com, Gustavo relembra grandes momentos vividos com a camisa rubro-negra desde sua chegada ao clube ao lado de Lucas e Cocito, e seu auge em 2001, onde jogou as partidas finais à base de infiltrações. “Nem treinava mais, só injetava xilocaína e ia pro sacrifício. Não queria ficar de fora de jeito nenhum, eu sabia que ia dar conta do recado, mas sem a infiltração eu não teria condições de jogar”. A volta ao clube, em 2008, momento turbulento e praticamente idêntico ao atual do Furacão vivendo o perigo do rebaixamento, também foi lembrada. “O time tinha bons jogadores, mas o grupo estava rachado, cheio de panela e confusão. Um dia fizemos uma reunião no CT e quase o pau comeu”.

Aos 35 anos, Gustavo também falou de seu começo no futebol, alegrias, momentos difíceis lidando com lesões crônicas e a dificuldade em pendurar as chuteiras.

Conte-nos como foi seu início de carreira, seus primeiros passos no futebol, seus anos de Botafogo de Ribeirão Preto e passagens por grandes clubes como Atlético, Palmeiras e Corinthians.
Comecei na Escolinha Olímpica de Futebol da Mabel, fábrica de bolacha que tinha em Ribeirão Preto, onde nasci. Um dia meu primo, que costumava ficar na minha casa quando tinha treino, pois morava longe da escolinha, me levou junto com o meu irmão mais velho. Participei do treino e no dia seguinte o treinador, seu Noel, pediu para eu voltar. Então comecei a jogar, tinha uns sete anos. Depois fui para o Palestra, também de Ribeirão Preto e, em seguida, para o Comercial, onde disputei um campeonato e o Botafogo quis que eu fosse pra lá. Cheguei com 13 anos, jogava de volante e aos 16 já estava no profissional, atuando como zagueiro. Aos 17 já era titular e atuei na maioria dos jogos da Série B do Paulista e do Brasileiro. E em 98 surgiu o convite para vir ao Atlético.

E foi aqui que você viveu seu auge como jogador, participando da conquista do Campeonato Paranaense de 2000, marcando o gol do título em cima do Coritiba, além da conquista do Campeonato Brasileiro de 2001. Como você avalia sua trajetória pelo Furacão?
Cheguei aqui em 98. Eles iam levar o Lucas, que era artilheiro do campeonato que a gente subiu da Série C. Mas eu e o Cocito estávamos nos destacando também e fizeram o “pacote”. Cheguei para substituir o Reginaldo Cachorrão, que estava machucado, e o time não era campeão havia oito anos. Um pouco antes da reta final, o Cachorrão lesionou a panturrilha e o Wilson estava com pneumonia. Tinha o Edinho Baiano e o Renato Cleonício improvisado, e no início eu era reserva. Aí o Abel (Braga) me colocou pra jogar. Minha estreia foi no Pinheirão, depois joguei contra o Paraná de zagueiro, mas não fui muito bem. Depois jogamos contra o Iraty e já virei titular. Fomos para as finais, eliminamos o Iraty e fomos jogar três jogos com o Coritiba. Me destaquei ao lado do Edinho e do Wilson, que voltou nas finais. E ali fomos campeões depois de oito anos de jejum. Joguei a Copa Paraná em 98, quando o Atlético foi campeão em cima do Grêmio Maringá. Em 99 teve a Seletiva para a Libertadores e ficamos a um ponto de nos classificarmos entre os oito no Brasileiro. Teve uma crítica muito grande em cima da gente. Precisávamos de um empate e perdemos para o Botafogo de Ribeirão Preto, que já estava rebaixado, era muita pressão. Mas aí fomos campeões da Seletiva, fiz quatro gols e fomos para a nossa primeira Libertadores, em 2000. Nesse meio tempo ainda fomos campeões paranaenses em cima do Coritiba, um dia muito especial pra mim. Fui expulso, tirei a camisa, xinguei e desabafei bastante. Nós jogávamos por um empate, era a primeira final na Baixada já reformada, ainda mais contra o Coxa, então tinha todo aquele clima. Eles saíram na frente do placar e talvez ninguém lembre, mas eu dei um carrinho, tirei a bola, mas ela sobrou no pé do cara que fez o gol. Fiquei com aquilo na cabeça me atormentando, você não tem noção. A Baixada lotada, a torcida jogando junto, e eu tirei a bola no pé do autor do gol! Fiquei louco, minha cabeça estava à mil. Mas aí fiz o gol, aos 35 minutos do segundo tempo e foi um baita frango do goleiro deles. O Luizinho Netto batia escanteio sempre no primeiro pau, mas aí ele bateu no segundo, cabeceei e o goleiro deles caiu de pernas abertas. A hora que vi a bola entrando, arranquei a camisa, saí xingando muito, o Reginaldo não conseguia colocar a minha camisa de jeito nenhum. Chorei muito, joguei minha camisa pra torcida e fui expulso. Aí no final do jogo, estava assistindo lá da entrada do vestiário, o juiz marcou uma falta perigosa pra eles, mas eles bateram pra fora. Aí falei, “agora não entra mais”. Entrei pra história e sempre lembram de mim por isso. O Brasileiro de 2001 foi a maior conquista, mas esse gol em cima do Coxa na Baixada é algo que não se apaga jamais. Aliás, Atletiba era o jogo que eu mais queria jogar, não importava o que valesse. Os caras me odiavam, eu ia lá e fazia gol. Acho que fiz uns três ou quatro gols em Atletibas. Aí veio 2001, fomos campeões paranaenses e joguei uns dois ou três jogos no máximo por causa do meu tornozelo esquerdo, que já tinha operado quatro vezes. No Brasileiro também não joguei muitos e o Dr. Thiele até apresentou o meu caso num congresso, diziam que eu não tinha mais condições de jogar futebol. Em 2001, o Mário Sérgio me colocou pra jogar na estreia contra o Grêmio, ganhamos de 2 a 0, mesmo eu não estando 100%. Aí ganhamos do Cruzeiro, Flamengo e Galo e contra o São Paulo eu coloquei uns parafusos no tornozelo, para tirar dali seis meses, mas teve rejeição e fiquei mais duas semanas parado. Nas finais, lesionei o joelho colateral e já não treinava mais. Fiquei as finais todas assim. Concentramos um mês antes e no jogo contra o São Paulo eu não estava mais treinando, injetava xilocaína e ia pro sacrifício. Fazia as infiltrações e fiquei um mês sem treinar, não fazia nada, era tratamento direto e gelo, já que eu não queria ficar de fora de jeito nenhum. Eu sabia que ia dar conta do recado, mas sem a infiltração eu não teria condições de jogar. E a infiltração que eu fazia era anestésico, não sentia dor durante o jogo, mas depois passava o dia todo sem andar. Depois disso fiquei três meses parado tratando até voltar a jogar. Nesse tempo, o Dr. (José Luiz) Runco (médico da Seleção Brasileira), ligou dizendo que eu seria convocado pelo Felipão junto com o Kleberson para os amistosos antes da Copa, mas eu estava machucado, não conseguia nem andar. Aliás, tenho que deixar meu agradecimento a todo o DM naquela época, porque senão fossem por eles a minha história no Atlético não seria tão bonita como foi, já que minha carreira poderia ter acabado naquele momento. Em 2002 fomos campeões paranaense em cima do Paraná, depois teve a Libertadores e não fomos bem, o time não teve foco. No Paranaense vencemos porque éramos superiores, mas além da preparação não ter sido bem feita, todos estavam recebendo propostas. A gente via que alguns jogadores já queriam ir embora e perdemos o foco. Fiquei até o final daquele Brasileiro e estava difícil para renovar o contrato, o Atlético não queria renovar. Aí fui emprestado ao Palmeiras e senti minha lesão no joelho. Fiquei lá só seis meses, joguei o Paulista, uns três ou quatro jogos. Ficava mais no DM do que jogando ou treinando. Aí fui para o São Caetano em 2003, ficamos em terceiro lugar e conquistamos a vaga para a Libertadores e joguei todas as partidas, até as quartas de final. Em 2004 fui campeão paulista e em 2007 cheguei ao Corinthians. Meu começo foi bom, depois não foi dos melhores, foi uma pressão enorme, já que o time não se classificou para as finais do Paulista. Em 2008 fui para o Sport através do Geninho e fui campeão pernambucano. No ano seguinte veio o Nelsinho Batista e meu relacionamento lá já estava desgastado, fiz acordo e rescindi. Aí voltei ao Atlético em 2008.

Gustavo: “Meu coração não é só vermelho, tem a metade preto” [fotos: arquivo pessoal]

Sua volta ao Furacão aconteceu depois de seis anos. Como foi esse retorno, ainda mais num período conturbado do time?
Cheguei aqui e o time estava pra cair, aquela confusão danada. Estava com lesão no tornozelo, joguei bem pouco, umas três ou quatro partidas. Foi nesse momento que eu vi que já não conseguia jogar, pois ficava machucado a maior parte do tempo. Mas ajudei bastante fora de campo, acho que até foi mais difícil do que dentro. Voltei porque o Geninho me chamou, disse que precisava de ajuda, que não ia deixar o time cair, mas que sozinho não dava. Aceitei na hora. O time tinha bons jogadores, mas o grupo estava rachado, cheio de panela e confusão. Essa foi a parte mais difícil. Fizemos uma reunião no CT e quase o pau comeu. Algumas coisas são importantes demais na minha vida e o Atlético está dentro disso. Não queria manchar minha história no Atlético com um rebaixamento, mas aí o time se salvou. Aliás, quando voltei não tinha essas coisas de sessão de autógrafos. E foi nesse retorno que eu vi o quanto era querido, fiquei impressionado. Fizeram uma sessão de autógrafos na Arena Store e não parava de chegar gente. O que apareceu de pais acompanhados por filhos chamados Gustavo por minha causa não foi brincadeira! Foi algo muito gratificante, imagina, um cara colocar nome no filho por sua causa? Ali eu vi que fui importante, que fiz por merecer. O assessor de imprensa do clube até interrompeu a fila porque o jogo do Atlético já tinha começado e a fila continuava enorme. Ele disse jogadores como Alex Mineiro e Washington tinham ido lá e aquilo nunca tinha acontecido. Aí que tive a noção mesmo.

O que você pensa do Atlético hoje?
Fico até meio assim de falar porque todos são profissionais e estão no clube por méritos, mas hoje vejo que muitos não têm identidade. Até hoje quando escuto alguém falar mal do Atlético eu brigo, xingo mesmo. Os coxas me odeiam. Teve uma vez que fui ameaçado por vários deles em um restaurante, isso sempre acontecia. Quando vou a Curitiba tem uns que me xingam na rua, mesmo 10 anos depois. Os atleticanos me param, é bacana. Tem uns moleques que não chegaram a me ver jogar e me olham estranho, mas aí os pais chegam e falam de mim, isso é bacana. Nunca deixei de acompanhar o Atlético, mesmo jogando pelo São Caetano, Palmeiras ou Corinthians. Quando o Atlético perde me sacaneiam aqui no Guarujá, tiram sarro porque sabem que eu fico bravo e apelo mesmo. Naquela época, se a gente perdia ou empatava eu não saía nem por decreto da minha casa, de vergonha, de raiva, e não era só eu. Claro que tinha os mais folgados, sem comprometimento. Mas sempre tive identidade com o Atlético, continuo sendo atleticano, mas vejo falta de tudo. Em 2008 eu vi isso, tinha gente só de passagem. O cara chega, quer ter a passagem para constar no currículo, mas não quer marcar nome. Não são todos, mas acaba atrapalhando os demais. A gente quis marcar os nossos nomes na história em 2001. Hoje vou e volto de Curitiba e vejo que sou querido. Em todo lugar tem atleticano, tem uns que podem não gostar de mim, não sou unânime, mas tive identidade. O que vejo hoje é falta de comprometimento e identidade com o clube. Pra mim, quando a gente perdia dava vergonha, porque eu sabia que ia ter um mar de gente lá pedindo autógrafos depois e sair com uma derrota nas costas era vergonhoso. O elenco atual é bom, não entendo como foi tão mal nos campeonatos. Fiquei cinco anos no Atlético e ganhei sete títulos pra me tornar ídolo, até pelo reconhecimento que tenho e tive quando parei de jogar. Hoje a gente vê uns caras que jogam duas ou três partidas e já viram ídolos, e isso acontece por falta de títulos e comprometimento de alguns. Pra ser ídolo tem que ter conquista, boas atuações e isso falta até na Seleção Brasileira. Tem que dar a vida em campo.

O Boa Vista (RJ) foi o último clube brasileiro que você defendeu. Como foi e essa passagem?
Cheguei lá em 2009, mas quando saí daqui mal conseguia jogar. Joguei algumas partidas do campeonato carioca e foi lá que vi que não conseguia mais jogar. Comecei a pensar em encerrar a carreira e até já tinha conversado com a minha família. Aí voltei ao Guarujá com a intenção de encerrar minha carreira, mas recebi o convite do Al Shamal, do Qatar, e fui. Até pensei se poderia estender a carreira mais um pouco, já que treinávamos só à noite, mas não aconteceu. Joguei só seis jogos e machuquei o tornozelo novamente, fiquei um mês sem treinar e decidi que não dava mais. Voltei ao Brasil, depois de seis meses fora, e não quis mais saber. Comecei a procurar outra coisa pra fazer, descansei e então dei início ao meu projeto aqui no Guarujá.

E o que a passagem pelo Al Shamal te trouxe de experiência?
A cultura é muito diferente. É um país lindo, poderia estar morando lá até hoje, é muito fácil de se adaptar. Mas dentro de campo ainda são amadores, mesmo tendo alguns jogadores estrangeiros atuando lá há algum tempo. No meu time tinha muita gente que trabalhava durante o dia. Tinha eu de profissional, um centroavante (Paulo Jr) e um tunisiano, o resto era tudo amador, que iam treinar e jogar à noite. Havia outros times um pouco mais profissionais, mas o Al Shamal era totalmente amador, e olha que era da primeira divisão e pagavam bem. Tenho amigos lá até hoje. Sei que a coisa ainda não melhorou muito, mas acho que daqui a uns 10 anos vai ser uma potência, como hoje é o Japão e o Emirados Árabes.

Como você encarou o final de carreira no futebol profissional? Em que momento você viu que não dava mais?
Quando você começa a ficar com raiva, não consegue treinar direito, a coisa que você mais gosta de fazer e fez a vida toda, é porque tem algo errado. Aí ficava pensando, será que é uma fase? Estou me machucando por excesso ou falta de treinamento, reforço muscular? Mas não era bem isso. Minha lesão no tornozelo se arrastava, eu tratava e jogava, mas em 2008 eu pensei: estou no clube que gosto, onde me sinto bem e todos gostam de mim, mas não tenho condições de dar o meu melhor. Não conseguia mais dar conta, não fazia a pré temporada inteira e sempre parava pra tratar. Minha forma física foi deixando a desejar, já tinha conversado com a minha família e achei melhor encerrar. Aí pensei, vou fazer e trabalhar com o quê agora? Eu já tinha vontade de fazer um trabalho social, então montei essa empresa, a G3Futsports, para fazer a outros o que um dia fizeram por mim, lá na minha escolinha, e depois no Palestra, ou seja dar oportunidade para quem quer e gosta, unindo o útil ao agradável. Senti que não tinha mais condições físicas e não queria estragar tudo que fiz no futebol. Sempre saí pela porta da frente de todos os clubes por onde passei, sempre fui querido, independente da situação, então preferi parar e não manchar a minha carreira.

Como a maioria dos jogadores, você continua no meio após parar de jogar. Hoje você tem um projeto social e está fazendo seu nome na área, lidando com atletas, empresários e parcerias. Como está sendo essa vida de professor, supervisor e tudo mais?
É bem diferente. No começo foi difícil, já que montei tudo e dou andamento sozinho. Tenho algumas parcerias, por exemplo, com preparador físico e pessoal de academia, que me dão uma força, mas o projeto em si eu faço sozinho. Fiz um estágio no Atlético com o Márcio Henriques (preparador físico auxiliar) , além de outros estágios com o (Paulo César) Carpergiani e o Dorival Jr. Tenho contato com o Geninho até hoje, ele sempre me aconselha sobre tipos de treinamentos. Também fiz um curso na Federação Paulista de Futebol para ser treinador. Dentro de campo me sinto à vontade, até porque sempre fui capitão e líder por onde passei, tanto dentro quanto fora de campo, sempre com personalidade forte. Não tenho dificuldades em comandar, orientar e passar tudo que aprendi no futebol, a parte tática e tudo mais. A dificuldade é aprender as coisas fora de campo, coordenar o projeto, fazer a logística de testes para os jogadores. Mas como tenho bom relacionamento com os clubes fica mais fácil para levar os meninos, me sinto à vontade. Hoje já me chamam de “Caça Talentos” e muitos clubes e empresários me procuram atrás de indicações, o que é muito gratificante, já que agora estou tendo a oportunidade de revelar jogadores.

Como você é em casa, no ambiente familiar? Como é o Gustavo fora das quatro linhas?
Sempre fui um cara tranquilo, até mesmo quando jogava, nunca fui de baderna, de noitada, sempre fui concentrado, até mesmo porque jogar futebol era o que eu sabia fazer e precisava estar inteiro para realizar a minha função. Agora, parado, não mudou muito. Moro no Guarujá, um lugar tranquilo, e tenho mais tempo para a família. Jogador não tem final de semana, aniversário do filho, dia dos pais, das mães ou feriados. Agora sobra tempo para os meus dois filhos, minha vida hoje é para eles. Meu filho mais velho, Vinícius, de oito anos, é surfista e está começando a querer jogar bola. O mais novo, Felipe de quatro anos, faz capoeira junto com a minha esposa. Eu faço jiu jitsu, que hoje é meu esporte, junto com o futevôlei. Futebol não jogo nem pelada mais, é raro mesmo.

Quais seus principais amigos no meio futebolístico?
O Lucas até perdi um pouco de contato, agora que ele voltou pro Japão. Mas conheço o Cocito desde os 15 anos, saímos juntos de Ribeirão Preto para vir ao Atlético e ainda jogamos juntos no Boa Vista. Em 2009 ele estava no Corinthians, eu no Palmeiras, mas sempre em contato. O Reginaldo Cachorrão é outro parceiro que tenho contato até hoje. O Geninho é meu amigo particular, além de ter sido meu treinador. O Rodriguinho mora no meu prédio, arrumei tudo para ele morar aqui quando veio para o Santos, agora está tratando do joelho e é um dos maiores colaboradores do meu projeto. Tem o Alessandro, lateral-direito, e outras amizades, mas que a gente acaba perdendo um pouco de contato.

Falando agora sobre o seu projeto social, a G3Futsports, como surgiu a ideia?
Mesmo ainda jogando eu já pensava em montar algo, era algo que eu queria fazer. Tinha a intenção de ser treinador, de continuar no futebol e quando parei vi que alguns queriam, mas não tinham oportunidades. Quando cheguei aqui, fiz um amistoso e selecionei uns moleques, contei da minha carreira e eles toparam. Quando comecei a machucar em 2008 vi que minha carreira estava no fim e comecei a pensar nas alternativas.

E já deu para revelar alguns atletas? Como está a inserção desses nos clubes pelo Brasil?
A gente já tem quatro jogadores em clubes e os demais fazem testes durante uma semana nas agremiações. Todos que fizeram avaliações passaram pelo menos na primeira fase. Temos um goleiro no Noroeste, que vai disputar a Copa São Paulo no ano que vem, e três jogadores no Santacruzense. Também estamos levando alguns jogadores para o Ivinhema, do Mato Grosso do Sul. Para um início de projeto está excelente, mas claro que um dia gostaria de encaixar um dos meninos no Atlético, no clube que mais me deu glórias. Seria a comprovação de um trabalho bem feito.

Qual o objetivo da G3Futsports? O que é mais gratificante?
O objetivo é tirar esses meninos das ruas, afastando das drogas, dando oportunidade para que eles melhorem de vida, dentro de um clube, através de um esporte fascinante como é o futebol. Quando um deles atinge a idade, encaixamos em outra função para que ele possa ter um rumo na vida. A maioria dos meninos são necessitados, que precisam realmente de uma oportunidade. O mais gratificante é quando aqueles que não estavam indo bem na escola começam a ter maior frequência ou largam vícios por causa do esporte. Queremos que todos melhorem na escola, mas o principal é encaixá-los nos clubes. É uma gratificação muito grande ver um menino estudando e jogando num clube, é o meu prêmio. A única condição é estar estudando e apresentar um bom atestado de frequência, não adianta apenas estar matriculado. Também prestamos assessoria, temos contato sempre com as famílias, oferecendo assistência social. Muitas vezes os pais vão até o treino pedir ajuda pra gente, dizendo que o filho está fazendo isso ou aquilo em casa, ou indo mal na escola, e procuramos sempre ajudar e melhorar.

Como você administra o projeto, você faz parcerias ou convênios? Você conta com a ajuda de alguém, como prefeitura etc?
Não tenho ajuda de ninguém, nem da prefeitura. Uso um mini campo como voluntário, nas segundas pela manhã. Não tenho ajuda financeira de nenhuma empresa, recebo algumas doações de materiais e tenho parcerias, ou melhor, permutas, trocando serviços ou tendo descontos para melhorar alguma coisa. Não existem patrocinadores ou apoiadores. Todo apoio que ganhamos é revertido para o projeto. Já perdemos um preparador físico por falta de verba, o outro, de treinamento funcional, foi pra Costa Rica. Até mesmo estagiário é remunerado e ninguém quer fazer nada de graça, mesmo sendo algo social. Então, atualmente, estamos em busca de um preparador para melhorar nossas condições de trabalho.

Quais são as maiores dificuldades de tocar um projeto social como este?
São os empresários se metendo no meio. Aqueles que conheço e sei como trabalham são bem vindos, mas você começa a fazer um trabalho bacana, encaixando os jogadores nos clubes, e às vezes aparecem alguns oportunistas. Ajudo a tirá-los das ruas e dou oportunidade, mas não vou largá-los em qualquer lugar. As pessoas vêem o trabalho sendo bem feito e querem se aproveitar. Tive o cuidado de não me envolver com a política da cidade, tem muito vereador querendo se aparecer, tentando comprar o projeto, mas também não posso barrar todo mundo porque preciso de ajuda financeira. Tenho que cuidar para não estragar, já que o projeto leva o meu nome e não quero manchar a minha imagem.

Quais ideais e valores você procura passar para esses atletas, já que você passou pelas mesmas coisas que eles e se tornou um jogador de sucesso?
O principal está na educação e a gente tenta oferecer outros caminhos além da escola, como é o caso do esporte. Também passamos ideais como respeito, humildade e educação, que são os três pilares desse projeto. Fora e dentro de campo, além de ser bom jogador, ter força e habilidade, tem que ter esses três quesitos, que me fizeram ser o que sou. Se cada um tiver dentro de si esses ideais, podem ir longe.

Vários jogadores também investem em projetos sociais ligados ao futebol pelo Brasil, como o Raí, Cafu, Bebeto e Leonardo. O que te motivou a seguir o mesmo caminho?
Acompanho o Gol de Letra faz tempo, sempre foi um incentivo para que eu fizesse o meu. Quem me colocou pra jogar futebol foi o Sócrates, que me deu a primeira oportunidade e virei titular. Ele é m cara que sempre fui admirador e tenho respeito por sua família, joguei com os filhos dele no Botafogo e sou amigo deles até hoje. Temos que fazer algo com o que conquistamos, para quê guardar? Passar só aos filhos? Temos que passar adiante. Hoje tenho uma boa situação, consigo ajudar a minha família, mas alguém um dia me deu oportunidade para que tivesse um futuro e é isso que quero fazer com eles aqui, passando ensinamentos para que eles possam ter uma vida melhor.

Gostaria de deixar alguma mensagem para a torcida atleticana?
Queria que todos acompanhassem o meu projeto, a G3Futsports, um projeto que leva a minha cara, do atleticano, do Gustavo dentro de campo, guerreiro, que sempre colocou a cara pra bater e nunca desistiu. Sei que o time não está tendo um bom ano, mas que os torcedores não desistam. Aprendi muito no Atlético e levo comigo na minha vida e trouxe para o meu projeto. Quero agradecer os cinco anos que passei aqui, tudo que a torcida e o clube fizeram por mim. O que sou hoje devo 90% ao Atlético. Meu coração não é só vermelho, tem a metade preto.



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