23 dez 2011 - 4h20

Eu Fui: relatos de torcedores que presenciaram a final

Atleticanismo é uma espécie de religião praticada por uma apaixonada multidão espalhada por todo o estado do Paraná, que se reúne nos dias de jogos do Clube Atlético Paranaense na Arena da Baixada, como seita absolutamente fanática. A definição do cronista Carneiro Neto resume bem a intensidade e a paixão da torcida atleticana pelo mundo, as quais não poderiam deixar de serem demonstradas no estádio Anacleto Campanella, palco da final do Campeonato Brasileiro de 2001. Momentos que ficarão para sempre na memória de cerca de 2.400 torcedores guerreiros que enfrentaram 413 km e invadiram a pacata São Caetano do Sul na antevéspera do Natal de 2001 e comemoraram a plenos pulmões o inédito título conquistado pelo Rubro-Negro.

Não faltaram estrelas douradas nas arquibancadas, sejam elas feitas de papelão, pintadas ou bordadas em bandeiras e camisas. Mesmo antes de a bola rolar, o sentimento de confiança dos torcedores era predominante. O placar de 4 a 2 no jogo de ida, na Arena da Baixada, aliada à excelente campanha durante o campeonato, não deixava dúvidas de que todos voltariam a Curitiba ostentando com orgulho a faixa de campeão no peito. E foi em direção a essa torcida que os jogadores correram ao apito final do árbitro Carlos Eugênio Simon, capitaneados pelo zagueiro Gustavo, que escalou o alambrado de quase três metros para comemorar com os atleticanos.

Cada camisa vermelha e preta trazia consigo a força de milhões de corações rubro-negros espalhados por todos os cantos do Brasil, que acompanharam àquele momento histórico do Furacão com os olhos vidrados na televisão e os ouvidos grudados no rádio. Um singelo placar de 1 a 0, com mais um gol do herói Alex Mineiro, confirmou a tão sonhada conquista, resultando em momentos de alegria inesquecível para toda a nação rubro-negra.

Para relembrar o melhor momento da vida do Clube Atlético Paranaense, os colaboradores da Furacao.com Danillo Ribeiro e Silvio Toaldo Júnior ouviram alguns atleticanos que tiveram a oportunidade de presenciar o nosso maior título em São Caetano do Sul. Confira os relatos:

“Passado o primeiro jogo da final, como sempre gostei de viajar para ver o Furacão jogar, tinha a certeza de que iria para São Caetano do Sul ver de perto o primeiro título nacional do meu time do coração. Fui integrante do famoso “bonde 3-2-0” e tive a felicidade de viajar com vários grandes atleticanos como Juarez Vilella Filho, Doizinho e Lupércio, além do cara que junto com meu saudoso pai me ensinou a ser atleticano, meu tio Jori. Saímos com duas horas de atraso e parecia que o nosso ônibus era uma distribuidora de cerveja ou algo parecido, estava um espetáculo! Quando chegamos no trevo do Atuba um ônibus já tinha quebrado e tivemos que esperar para sairmos todos juntos. Enfim, às 2h30 estávamos a caminho de São Caetano. Como havia mais de 120 ônibus na excursão, fomos direto, sem paradas e a fome aumentando. Eram 9h quando chegamos em Taboão da Serra e ficamos aguardando a escolta que nos levaria até o estádio. Depois de 4h de espera, mais uma hora de revista, às 13h estávamos a caminho do Anacleto Campanella. Por medida de segurança determinada pela polícia, os ônibus paravam nas catracas e cada torcedor descia direto para dentro do estádio. Quando peguei meu ingresso e fui colocar na catraca percebi que ele não voltaria. Pensei: como vou ficar sem o ingresso mais importante da minha vida? Saí da fila, voltei pra rua e comprei de um cambista num valor absurdamente alto somente para guardar, mas não me arrependo, já que pouquíssimas pessoas têm esse ingresso guardado. Sobre o jogo todos sabem a história dos 90 minutos. Um detalhe interessante: pouco antes do término da partida, placar de 1 a 0 para o Atlético, o locutor dizia nos alto-falantes: “Atenção, torcida do São Caetano: não desanimem, não desistam! Ainda dá tempo e a festa do título está confirmada logo após a partida com muito chopp e trio elétrico na Rua Goiás”. Até a torcida deles vaiou o locutor. Mas o mais emocionante estaria por vir. Na comemoração, os jogadores correram em nossa direção e o Kleber jogou sua camisa para a torcida. Meu amigo pegou e na hora o Kleber se arrependeu, ficou pedindo para devolver, mas não teve jeito. Anos depois, meu amigo acabou me vendendo e essa só tem um dono!”
Juninho Madeira, 34 anos, músico

“Tinha 22 anos na época e, até então, nunca tinha viajado para ver o Atlético. Mas assim que começamos a passar de fase, disse à minha mãe que não importasse onde fosse a final, eu iria. Assim, o Atlético foi passando e o ETA fazia aquela contagem regressiva com caminhão de som pela cidade contando os dias que faltavam para o Atlético ser campeão. E enfim, chegou a final. O ETA organizou uma excursão e fiquei responsável por um dos ônibus. Um dia fui buscar os ingressos de todos os ônibus (eram cinco) na sede do Atlético e chamei meu pai para ir junto, pois tinha de medo de ser assaltada no caminho e perder todos os ingressos da final, era muita responsabilidade. Felizmente deu tudo certo. A viagem foi bem tranquila. Paramos em uma cidade antes de São Caetano para juntar todos os ônibus de todas as excursões. Lá pelas 11h chegou a polícia paulista para fazer a revista do pessoal. Cada ônibus que era revistado o pessoal tinha que entrar e não podia mais descer. Difícil era fazer a galera ficar no ônibus, já que todo mundo estava ansioso pro jogo. Logo que a PM terminou a revista, seguimos direto para São Caetano, não paramos nem para almoçar. Os moradores das casas próximas ao estádio nos recepcionaram super bem. Começou a chover, o pessoal saiu em busca de capas de chuva e de algo pra comer, já que ninguém tinha almoçado. Entramos no estádio e a espera pro jogo parecia interminável. Começou a partida e eu sentia a torcida meio nervosa, o pessoal não cantava tanto quanto eu esperava. Uma sensação única, diferente! Até que saiu o gol do Alex Mineiro e a torcida explodiu. De longe eu procurei o Juarez Vilella Filho, porque na lista de discussão ele duvidava que o Atlético fosse campeão. Acabou o jogo, fui sacudi-lo. Ele estava sentado na arquibancada com um olhar incrédulo, inexplicável! Eu falava: “Viu só, chegou a nossa vez! Somos campeões!” Jamais vou esquecer aquele dia e essa viagem que foi a primeira e sem dúvida a mais marcante que fiz para acompanhar o Atlético.”
Milene Szaikowski, 32 anos, cerimonialista

    

“Ia de carro com um amigo atrás dos ônibus da torcida, de madrugada, mas acabamos não aguentando a ansiedade e passamos por eles na saída da cidade. Na época, íamos sempre em quatro amigos a todos os jogos, mas na final só fomos dois. Caímos na estrada às 00h30 e chegamos na porta do estádio às 8h30, depois de sofrer um pouco em São Paulo para achar o caminho. Na madrugada, paramos em um posto e tinha um monte de policiais armados para conter os ânimos, mas só havia nós dois de torcedores no recinto. Pra não dormir ao volante, fomos cantando as músicas da torcida a viagem inteira. Perto do meio-dia vimos que a torcida do Atlético estava chegando pelo outro lado e entramos no estádio logo que abriu o portão. Foi só nervosismo antes e durante o jogo. Lá pelos 40 minutos do segundo tempo tive a certeza que ninguém tirava mais o nosso título. O Gustavo subiu o alambrado bem onde eu fiquei, pena que estava no antepenúltimo degrau. Na volta do estádio, muita gente buzinando, com bandeira e tudo mais, sozinhos em São Paulo, tentando achar o caminho de volta. De vez em quando passava mais alguns ‘perdidos’”.
Lincoln Luiz Rocha, 35 anos, advogado

“Como descrever um dos melhores momentos de minha vida? Lembro como se fosse hoje quando recebi uma ligação do grande amigo Ricardo Lyjak, avisando que tinha duas vagas, com ingresso, para a final em São Caetano. Demorei exatos 0,1s para soltar um sonoro ‘Eu vou e meu irmão vai também’! No embarque realizado na Praça no Atlético, muita ansiedade, otimismo e até um acidente ditaram o ritmo. A viagem, embalada por gritos de incentivo ao Furacão, cerveja e muita resenha, transcorreu de forma tranquila. Tenho certeza que quem esteve lá não esquece da imagem dos ônibus da torcida atleticana tomando conta da Marginal Tietê. Com a vitória conquistada em Curitiba, a torcida rubro-negra era só confiança no título, que foi sacramentando aos 22 minutos do segundo tempo pelo reverendo da grande área: Alex Mineiro, após rebote do goleiro Silvio Luiz. Os segundos, minutos e horas seguintes foram recheados de alegria para todos os atleticanos, com um quê a mais para quem estava acompanhando tudo in loco. Mesmo após uma longa viagem de volta, a chegada a Curitiba foi à tempo de soltar a voz em frente à Baixada, junto ao coro entoado pelo nosso capitão Nem”.
Rodrigo Abud, 32 anos, jornalista

“Confesso que fiquei com um pé atrás quanto a viagem a São Caetano. Na bagagem de outras, derrotas, empates e nenhuma vitória. Apesar do excelente resultado na Arena por 4 a 2, ainda estava com receio de acompanhar o Furacão mais uma vez fora da capital. Mas não poderia perder essa, eu tinha que estar presente. Saímos de Curitiba na noite anterior ao mais importante jogo da história do Atlético. Embalados pelo tradicional cântico em homenagem ao rival, partimos ao destino que mudaria nossa vidas para sempre. Após várias horas parados em Registro, com direito à geral policial da cabeça aos pés, enfim, São Caetano do Sul. Fomos hostilizados na chegada, mas para a nossa surpresa, não pela torcida do Azulão, mas pelas outras. Corintianos, são paulinos, santistas, etc, todos na torcida pelo São Caetano e contra o Atlético. Já nas arquibancadas, a tensão tomou conta e o nervosismo veio à tona, cessando somente quando nossos guerreiros entraram em campo. Após outro gol do atacante mais importante da nossa história, enfim, a certeza da conquista aflorou. Olhos marejados, que por fim escorreram após o apito final. Explosão vermelha e preta. Os jogadores subiram nos alambrados para comemorar com a torcida, um momento indescritível. Enfim, éramos os melhores do Brasil! No caminho de volta não utilizamos mais a musica pink-floidiana como escudo de proteção, mas sim, com gritos de ‘É campeão!’. Enfim, o respeito merecido, esperado há anos. E o reconhecimento do titulo merecido começou com a própria torcida do São Caetano, já que na passagem dos nossos ônibus pela cidade recebemos saudações, aplausos e sorrisos. Até cantamos ‘São Caetano, eu te amo’! Logicamente não o time, mas sim a cidade que nos acolheu sem violência para o capitulo mais intenso da nossa história. Foi, sem dúvida, o mais emocionante da minha vida rubro-negra”.
Jefferson Luiz Maciel, 33 anos, gerente financeiro

“A jornada para buscar o título brasileiro foi inteira emocionante. No sábado à noite eu já me surpreendera ao chegar à Praça do Atlético e encontrar meus amigos atleticanos e mais inúmeros torcedores para embarcar nos ônibus que partiriam para São Paulo. A partida foi de madrugada, e o nervosismo não deixou muita gente dormir, o que foi positivo, pois favoreceu a confraternização regada à cerveja dentro dos ônibus. Na estrada para São Paulo, lembro muito bem de uma cena de arrepiar: o comboio realizou uma parada para alimentação em Itapecerica da Serra, já ao amanhecer. Quando olhei para a frente da estrada, via dezenas de ônibus da torcida, até onde a vista alcançava. Para trás, idem. Não dava sequer para contar quantos eram, a sensação era de uma verdadeira caravana de guerreiros em busca do título. O retorno também foi muito emocionante. Decidi voltar de avião para participar da festa em Curitiba. Após muita confusão em São Paulo, com troca de aeroportos e muito atraso na decolagem, pegamos o voo fazendo aquela festa rubro-negra. E quando o comandante anunciou “Tripulação, pouso autorizado”, ao olharmos pela janela do avião, avistamos na Av. das Torres um movimento diferente: o caminhão de bombeiros com os heróis atleticanos recém saído do Afonso Pena, desfilando escoltados por centenas de atleticanos, todos transbordando de alegria”.
Ricardo Campelo, 32 anos, advogado

“Fui coordenador de um dos ônibus, o famoso 3-2-0, onde mais de um terço era composto por amigos e outra parte de pessoas que vieram a se tornar minhas amigas com o tempo. Chegamos a Itapecerica da Serra na manhã daquele domingo e, depois de uma longa espera pela escolta policial, rumamos ao Anacleto Campanella. O clima de final estava no ar, mas sem aquela tensão característica, devido à cordial recepção dos locais, bem como a confiança que aquele time transmitia. A vitória sobre a virada deles em casa, com aquele gol no final, pênalti sofrido pelo eterno Adriano Gabiru nos dava, além da vantagem do empate, um gol de diferença sobre o São Caetano. Pra ser bem sincero, me lembro pouco do jogo. Uma bomba que o Mancini meteu na trave e um chutaço do Kleberson fizeram com que a nossa torcida voltasse a cantar mais alto, porque o time da casa atacava mais e o Atlético ainda não havia entrado na partida. Do gol de Alex Mineiro lembro só da comemoração, o enorme cachorro branco de pelúcia sendo alçado para o alto (e que ajudou muito na volta, cobrindo um rombo em uma janela quebrada no caminho), e de Gustavo praticando alpinismo no alambrado para comemorar conosco. Ainda anestesiado, meio sem acreditar no que estava vivendo. Um sonho impossível da minha infância, onde tinha plena ciência que os inúmeros títulos que o Furacão conquistava em minha mesa de futebol de botão eram somente fruto da minha vontade. Já na volta, enquanto paramos para jantar, vi na TV a imagem que mais me marcou: milhares de irmãos atleticanos na Praça Afonso Botelho, um mar de gente vestida de vermelho e preto, pendurada na copa das árvores e fazendo a câmera da televisão se mexer com a explosão tanto na hora do gol como ao final da partida. Naquele momento, horas depois de terminada a partida, chorei e me imaginei ali abraçando todo mundo lá. Mas me veio à cabeça que qualquer um daqueles que estava na praça daria tudo para trocar de lugar comigo e viver tudo o que vivi naquele 23 de dezembro de 2001, em São Caetano do Sul, na véspera do meu aniversário! Valeu a pena cada minuto da vida lembrar os sublimes momentos que passei ao lado de cada torcedor atleticano que viveu a maior emoção de nossas vidas até então: ser testemunha viva e ao vivo do título de Campeão Brasileiro do Clube Atlético Paranaense”.
Juarez Villela Filho, 33 anos, servidor público estadual

“Fui de avião, às 7h30, com mais dois amigos. Em São Paulo dividimos o táxi com o narrador Osires Nadal Junior e às 10h já estávamos em São Caetano, tomando cerveja e comendo bolinho de carne numa padaria perto do estádio. Aos arredores era só festa, clima de cidade pequena, povo receptivo. À tarde, caiu aquela chuvinha pra alegrar a torcida e o jogo. Bom, o jogo foi só sucesso! Na entrada do time acendi sinalizadores amarelo, vermelho e preto, e lembro que na época saiu uma foto em um jornal com esses sinalizadores acesos. Depois do jogo pegamos uma carona até o aeroporto com um ônibus que não sei da onde surgiu, o qual acabou sendo apedrejado por torcedores corintianos já na capital paulista. No aeroporto ainda encontramos os jogadores e tiramos fotos com eles. Lembro que o Ilan ainda comentou, apontando para o Dagoberto: ‘Vocês ainda vão ouvir falar muito desse piá’, que na época tinha 17 anos”.
Wagner Ribas, 29 anos, consultor de negócios

“Era sábado, estava almoçando e comentado sobre a final do Furacão, que seria em São Caetano do Sul, e falei: ‘Vamos para lá buscar a estrela!’. Meus amigos, Tuca e Jaca, responderam: ‘Só se for agora’. Foi o tempo de arrumar uma mochila, e tudo deu certo. Saímos de Curitiba por volta das 16h e chegamos lá por volta de 23h30. Procuramos incansavelmente um hotel e um lugar para comer. Na cidade todos já contavam que o campeonato já era deles e que a gente tinha perdido a viagem. Encontramos um boteco para fazer um lanche e, quando saímos de lá, encontramos uma senhora bordando o símbolo do São Caetano com a estrela. Falei para ela que era melhor fazer o do Furacão! Como não encontramos nenhum hotel, acabamos dormindo os três num motel mesmo por volta das 3h. Pela manhã, levantamos logo cedo e como não tinha café, fomos atrás de outro local para comer, o que seria a nossa última refeição em São Paulo, por volta das 10h. Deixamos o carro no lugar onde dormimos e fomos de táxi para o estádio. O taxista, mesmo vendo que estávamos com camisas do Atlético, nos levou no meio da torcida do São Caetano. Pagamos o táxi e recorremos a alguns policiais para que estes pudessem nos levar para o portão onde estava a torcida atleticana. Chegando ao estádio, demos entrevista a um repórter do Sportv, que nos perguntou se a chuva não poderia atrapalhar os nossos planos. Respondemos, em tom de brincadeira, que tínhamos vindo para buscar a estrela, que ela estava acima das nuvens e que todos conheceriam o verdadeiro Furacão. O espaço reservado para a torcida rubro-negra não tinha banheiro e vendedor ambulante era proibido. Durante o jogo todo sofrimento foi recompensado pelo Furacão. Foi só alegria e festa. Assim que acabou o jogo voltamos para Curitiba e fomos direto para a Baixada, chegamos às 1h30. Vale registrar que depois do café da manhã só fomos comer novamente em Registro, mas valeu e muito. Faria tudo de novo com amor e espero que seja dentro em breve”.
José Carlos Motta Milschi, 48 anos, técnico mecânico

Colaboração: Danillo Ribeiro e Silvio Toaldo Júnior, da equipe Furacao.com



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