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8 out 2016 - 18h07

A legitimidade da reação da torcida

Na entrevista coletiva que concedeu depois do jogo com a Chapecoense, Paulo Autuori desferiu críticas duras à torcida do Atlético. Com um discurso recheado de contradições, convidou os acusados a uma reflexão unilateral. Apesar de reconhecer a importância das arquibancadas – uma expressão saudosista, já que tudo são cadeiras nas arenas suntuosas e frias da atualidade –, alertou para o risco de fracassos dentro de campo caso persistam vaias e protestos de torcedores/consumidores.

Essa lamúria contraria os números que colocam o Atlético na liderança entre os clubes mandantes no campeonato em curso. Ela enxerga um aparente absurdo: como um time que acumula vitórias em casa é vaiado pelo seu público? Como se explica comemorar o gol, momento maior do futebol, com xingamentos? Vivêssemos num ambiente de “normalidade”, o inconformismo de Autuori seria perfeitamente compreensível.

Acontece que há muito tempo o Atlético foi colocado sob um regime de exceção. A pretexto de aumentar os lucros de uma entidade constituída sem fins lucrativos, impuseram-nos os ingressos mais caros do País. Para a manutenção da “ordem”, fomos proibidos de transitar livremente no estádio, de extravasar nossos sentimentos, de exibir nossa paixão. Exigiram de nós um comportamento que sufoca e mata a nossa força coletiva. O resultado não poderia ser outro: graças às estripulias da direção autocrática, deixamos de ser a torcida que talvez mais apavorasse os adversários em todo o País.

O problema do cinza que impera na Baixada não se resume à neutralidade da cor. A tragédia é que a Baixada se transformou num cárcere gigantesco, que nos coloca como prisioneiros de um delírio que dura mais de vinte anos. O cinza tomou conta da alma atleticana, e a culpa, Autuori, não é nossa. A culpa é de uma direção que contraria a lógica do futebol e desrespeita sistematicamente aqueles a quem deveria prestar contas. Uma direção de fantoches que desmancham equipes vencedoras para satisfazer os caprichos do ditador que bajulam. Uma direção que criminaliza e humilha o seu público, na tentativa de utilizar-se dele para finalidades não bem explicadas.

No conflito que envolve as torcidas organizadas, os maiores equívocos partiram dos cartolas. A pretexto de proteger o clube, eles não pouparam o ridículo. Foi assim com a charanga chata e pelega contratada para sepultar a espontaneidade da massa. Foi assim com a triste homenagem ao Weverton “medalista” olímpico. Ou com as faixas que nos chamaram de “mentira” para exigir mais sócios, espalhadas pelos quatro cantos do outrora caldeirão. Ou com a omissão criminosa da cúpula diante do racismo protagonizado por um estúpido habitante da “região nobre” do estádio. E foi assim, para concluir, com a transferência do jogo com o maior rival para um estádio que não é o nosso (uma evidência de que futebol é o que menos importa para essa gente).

Há razões de sobra para espanto e indignação com o que acontece no Atlético. A torcida cometeu erros, sim, que precisam ser corrigidos. Para isso, no entanto, a soberba dos engomados é o que menos contribui. Unidade se consegue com diálogo, e não com autoritarismo. As vaias e o clima tenso que atrapalham os jogadores a cada partida expressam uma angústia coletiva, o desejo de liberdade, a busca da alegria que a ditadura nos quer roubar. As reações do distinto público, apesar de agressivas, são legítimas. Seria oportuno que o excelente Autuori as encarasse com um pouco mais de independência, sem se impressionar com as manias de grandeza do seu patrão.



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