4 abr 2019 - 16h00

Patrocínio de co-participação: entenda a parceria entre Athletico e o Banco Renner

A saída da Caixa Econômica Federal promoveu uma mudança no modelo tradicional de patrocínio aos clubes de futebol. O mero anúncio da marca foi substituído por uma modalidade pouco usual até então: a da co-participação. Corinthians, Cruzeiro, São Paulo, Vasco e Flamengo optaram por esse modelo. No último dia 26 de março, o Athletico também anunciou uma parceria com o Banco Renner.

Mas o quê esperar desses novos patrocínios? Furada para os clubes? Ganhos milionários como prometem dirigentes e bancos nas apresentações dos patrocínios? Provavelmente nenhum dos dois, como veremos a seguir.

Bancos digitais no Brasil

Para começar, é preciso entender esses novos bancos digitais. O Nubank é provavelmente o mais conhecido e não para de conseguir clientes e investimentos. Logo, a alemã N26, que faz sucesso na Europa, estará no Brasil.

No entanto, ainda há os céticos com o novo produto. Não é para menos: são empreendimentos novos em uma indústria já madura: das instituições financeiras.

Não bastasse isso, tudo ocorrendo num país como o Brasil onde pessoas com um pouco mais de vivência ainda têm receio de deixar seu dinheiro até numa poupança – algo extremamente seguro. Então, nesse “novo mundo” das start-ups, como inserir algo novo no mercado? Simples (na teoria): conquistando ele! Ou seja, é preciso primeiro fazer com que o consumidor conheça o produto e que goste dele.

Garantia

A primeira pergunta é sobre a segurança de transferir recursos para contas digitais. Uma absoluta minoria das pessoas utiliza as contas nesses bancos digitais como sua conta principal, o que é algo prudente.

Mas, por exemplo, esses bancos oferecem uma alternativa de investimento em renda fixa. Isso é seguro? Sim, e muito. Investimentos de até R$ 250.000 são garantidos pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC), ou seja, se o banco quebrar você consegue seu investimento de volta. E o retorno desses investimentos? Um pouco melhores que a poupança, se você mantiver o tempo certo de maturação do investimento (nem pense em ficar tirando e colocando o dinheiro na conta de investimento!).

Enfim, podem abrir suas contas tranquilamente, mas se atentem às taxas cobradas. Se for exclusivamente pela ajuda ao clube, há outros meios de colaborar de forma que 100% (ou algo próximo disso) vá para a conta do clube – por exemplo, tornando-se sócio.

Conquistar para depois lucrar

Há a máxima de que toda empresa busca o lucro. Mas considerando só o curto prazo, provavelmente não será este o caso. Por exemplo, o banco digital Monzo, do Reino Unido, registrou uma perda líquida de mais de £30 (cerca de R$ 150) por cliente em 2018 (e o banco nasceu em 2015). Possivelmente algo planejado nesses primeiros anos de banco: primeiro eles conquistam mercado, depois pensam no lucro a longo prazo (ninguém está aí para fazer caridade na economia).

Por isso, não é difícil imaginar o porquê destes novos bancos digitais patrocinarem clubes brasileiros, certo? Pura estratégia de inserção neste novo mercado. O que preocupa é a baixa (ou inexistente) lucratividade nesta etapa dos bancos.

As instituições financeiras no futebol

  • São Paulo e Banco Inter: patrocinador master do São Paulo desde agosto/2017, estima-se que o contrato gira em torno de R$23 milhões anuais (algumas fontes dizem R$ 14 milhões/ano). Fornecem um serviço de banco digital sem taxas de manutenção ou anuidade de cartão de crédito. Há menos informações sobre esse contrato, mas é muito provável que siga o modelo de parceria. Assim, o São Paulo teria direito a metade dos lucros gerados pelo uso de produtos com sua marca no Banco Inter. Antes da parceria, o banco tinha em torno de 100 mil correntistas. Agora, o Banco Inter começou o ano de 2019 com 1,45 milhão de clientes. Desse número, foram emitidos 145 mil cartões personalizados do SPFC. Não dá para negar o impacto que teve a exposição da marca na camisa do clube paulista. Importante destacar que o crescimento não é fruto apenas da parceria; o período de grande crescimento coincidiu com o início dos serviços inteiramente digitais.

 

  • Corinthians e BMG: firmado em janeiro/2019 com valores anuais fixos de R$ 12 milhões. Possui a cláusula de participação dos lucros decorrentes do uso de produtos com a marca do clube. O clube recebeu um adiantamento de R$ 30 milhões, o que, segundo eles, é evidência de que o banco espera lucrar ao menos R$ 36 milhões com os produtos vinculados ao Corinthians (e assim metade iria para o clube). O banco apenas forneceu liquidez ao seu patrocinado (o que é ótimo ao clube), mas não comprometeu suas finanças por isso, pois de uma forma ou de outra daria R$ 60 milhões ao clube (o contrato é de cinco anos). Caso não haja lucratividade nenhuma com o produto Corinthians, restariam R$ 30 milhões a serem pagos nos próximos anos. O lucro do banco BMG no último ano foi na casa dos R$ 200 milhões e muito fruto do crédito consignado. Se houver uma adesão em massa da torcida, provavelmente será na forma de contas digitais e uso do cartão de crédito, ambas sem cobrança de taxas. Ou seja, não parece ser provável aumentar em quase 20% o lucro.

 

  • Atlético-MG/Vasco e BMG: ambos os clubes firmaram acordo nos moldes do Corinthians, no início de 2019. O Atlético Mineiro já havia sido patrocinado pelo BMG no período de 2010 a 2014 – o dono do BMG, Ricado Guimarães, é torcedor e foi presidente do Galo. Após esse período, o banco reduziu sua operação com clubes de futebol. O Vasco irá receber R$ 8 milhões fixos neste primeiro ano e estimativas do banco e clube dão conta que o valor deverá subir para R$ 15 milhões a partir do segundo ano, com a participação nos lucros. Já o Atlético Mineiro irá receber um valor fixo próximo do que recebia da Caixa no ano passado, na casa dos R$ 13 milhões.

 

  • Flamengo e BS2: o contrato foi anunciado em abril/2019. O Flamengo receberá um valor fixo de R$ 15 milhões por ano, mais variáveis. Para se ter uma ideia, a Caixa pagava R$ 25 milhões por ano ao Fla. A diretoria do  estima que terá uma arrecadação superior a R$ 30 milhões/ano com a nova parceria. A receita variável virá da seguinte forma: R$ 10 a cada conta digital aberta e 50% do lucro dos serviços contratados pelos clientes. Ao contrário do Digi+ Furacão, a BS2 não cobra taxa mensal pela manutenção da conta.

 

  • Cruzeiro e Banco Renner: este talvez seja o mais interessante para os atleticanos, dada a semelhança que deve haver entre este contrato e o do Athletico. O patrocinador é o Banco Renner, apesar de marca exposta ser a “Digi+” (que é a conta digital do banco Renner). O valor fixo que o Cruzeiro receberá é parecido com o que recebia da Caixa, algo em torno de R$ 10 milhões. O clube receberá 50% do lucro líquido com a utilização dos produtos que levam a marca do clube. Antes de assinar o contrato, o Digi+ contava com 200 mil clientes e a expectativa do banco é atingir a marca de 1,5 milhão com a parceria com o Cruzeiro. Ou seja, para cumprir a meta é necessário que cerca de 10% dos torcedores do Cruzeiro migrem para o Digi+. Algumas diferenças da conta Digi+ para BMG e Inter já citadas anteriormente: taxas! Para manter um pacote básico (4 saques, 2 extratos, 4 TED e transferências entre contas Digi+ ilimitadas no mês) é preciso pagar R$ 9,90 por mês. Caso o cliente queira ter cartão de crédito também, o mais básico tem anuidade de R$ 118,00 (aproximadamente R$ 9,83 ao mês). Ou seja, para ter um serviço próximo ao que oferece seus concorrentes, o cliente do Digi+ precisa pagar quase R$ 20,00 por mês.

 

Portanto, seis clubes da série A já fecharam um acordo nesses moldes e um está prestes a fechar (Flamengo). Marcas fortes como Corinthians e Flamengo  buscaram alternativas para se manterem competitivos.

Mas além disso, e essa é a principal aposta, o mercado de patrocínios está frio. Em outras palavras, o Brasil é um país em que qualquer tipo de investimento é mais difícil e investir em clubes mal geridos – em sua maioria -, não parece ser uma fonte segura de retorno.

Por isso, as novas parcerias surgem como as únicas opções para os clubes brasileiros. Diante do cenário, os dirigentes dos clubes se veem entre escolher propostas inferiores ou parecidas com as que tinham no passado, ou uma inferior/parecida com a promessa de que pode ser muito mais rentável do que parece. Eles estão escolhendo a segunda opção.

Athletico e Banco Renner

No caso do Athletico, os valores não foram divulgados. Mas deve ser algo acima dos R$ 6 milhões da Caixa e abaixo do valor do Cruzeiro. No cenário acima descrito, parece um bom negócio.

Mas não é possível acreditar em valores miraculosos, e que de repente essa receita variável vá fazer o clube receber R$ 30 milhões no ano. Tanto o presidente do Cruzeiro, Wagner Pires de Sá, quanto o presidente do Conselho Deliberativo do Athletico, Mario Celso Petraglia, enfatizaram muito em suas entrevistas que não se trata de um patrocínio e sim de uma parceria.

Também é preciso deixar claro os bancos não são bonzinhos e não estão repassando metade deles para os clubes. E não, eles não estão pagando mais aos clubes do que eles valem. No fim das contas, o valor final recebido através das parcerias será algo bem próximo ao que os clubes recebiam antes.

Além disso, é muito complicado atingir as projeções de novos clientes do Digi+. O Banco Inter levou mais de um ano para conseguir o feito, patrocinando o São Paulo e em um período que o mercado estava menos saturado do que hoje. Agora existe um Nubank com muita força, um BMG crescente, um Inter consolidado, N26 chegando com expertise internacional e, principalmente, o fato de que o Digi+ tem concorrentes oferecendo produtos mais consolidados e cobrando menos.

Os negócios de apenas banco digital simples (conta depósito mais cartão de crédito) passam por uma fase de implementação que não gera lucros, ou não se é apenas banco digital simples e consegue lucro via, por exemplo, crédito consignado (como é o caso de BMG e Banco Renner), que, provavelmente, não será o forte dos clientes que virão via clubes de futebol.

Logo, se o contrato de receita variável dos clubes for apenas lucro líquido dos clientes que consomem produtos com marca do clube, provavelmente esse lucro será muito pequeno ou nulo. Imagino que deva haver um adicional por clientes novos, o que já é um alento, mas ainda sim pouco para a pretensão dos clubes.



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