Rubens Passerino Moura
 

Nome:

 

Rubens Passerino Moura.

  Gestão:   1970 e 71.
  Resumo:  
Passerino reformulou o quadro social e até chegou a entrar em campo armado para impedir a prevalência das forças ocultas. E a torcida gostava dele. Certa vez, vendo um certo “corpo mole” de alguns jogadores, chamou-os num canto e disse que se continuassem daquela maneira, tirava-os do time, encostava e não os emprestava, muito menos vendia. Deixava-os no come-e-dorme.
       
       
       

Um homem imprevisível e que nunca aceitava jogar no Belfort Duarte. Assim pode-se caracterizar Rubens Passerino Moura, o primeiro presidente do Atlético da década de 70. Muito criticado no início do mandato, por “viver ainda no tempo do amadorismo”, Passerino chegou à presidência no dia em que resolveu abandonar seu grupo de torcedores que ficavam atrás do gol dos fundos do Caldeirão do Diabo, atirando bolinhas no goleiro adversário com estilingues, e salvar o time.

Rubens Passerino Moura nasceu a 22.02.1924, um mês antes da fundação do Atlético, em Florianópolis. Ainda garoto, Passerino jogou futebol no antigo Batelzinho, time onde militavam José de Freitas e Biguá, como comandante de ataque. Treinou e jogou duas partidas pelo médio do Atlético, por volta de 1937. Em seguida, foi operado de uma hérnia e não pôde mais jogar futebol. Praticou ainda snooker esportivo, sendo campeão universitário. Também fez parte da equipe de Medicina de xadrez, em Jogos Universitários. Passerino aprendeu as primeiras letras com a mãe, em casa. Em seguida, fez o exame de admissão, preparando-se para o curso na Escola de Dona Carola. Prestou exames de administração no Colégio Progresso, onde cursou todo o ginasial. Aprovado no vestibular para Medicina, formou-se após seis anos de profundos estudos. Saindo da escola, foi médico da Companhia Atalaia, junto ao DNER, na estrada Curitiba-Lages.

Após casar-se com Dona Glacy Diniz Moura, em 1948, Passerino entrou para o Exército como médico, fazendo um curso de aperfeiçoamento na Escola de Saúde do Exército. Em seguida, classificou-se na 5ª Companhia Independente de Fronteira (em Guaíra), como primeiro tenente. Permaneceu durante 14 meses na cidade, sendo transferido por necessidade do serviço para o 1º Batalhão de Fronteira em Foz do Iguaçu, onde permaneceu por mais três anos. Dali, Passerino foi para a 5ª Companhia Independente de Saúde, onde foi promovido a capitão. Permaneceu na cidade durante dois anos, donde foi transferido para o CPOR de Curitiba, para chefiar o curso de saúde, onde ficou quase três anos. Posteriormente, Passerino foi transferido para Lages, onde ficou apenas um ano e por motivo de doença, foi transferido novamente para o Hospital Geral de Curitiba, onde também atuou na 5ª Companhia Independente de Saúde, por dois anos.

Amante do basquete, Passerino teve experiências como dirigente esportivo e chegou, inclusive, a ser eleito por unanimidade para ser presidente da Federação Paranaense de basquetebol, um dos seus esportes prediletos, mas não aceitou a função. Porém, como ele havia feito exigências, não poderia aceitar o cargo sem contar com a devida cobertura para colocar seus planos em prática, ou seja, fazer com que o basquete do Paraná conquistasse o lugar que merecia estar. Passerino também teve experiência como fundador da Liga Esportiva de Foz do Iguaçu, do qual foi presidente. Como médico, foi campeão em 1955 pelo Poty, a convite do então técnico do tricolor, Sargento Aleixa Snége.

Passerino tinha um espírito todo especial. Não ligava para as opiniões de terceiros, agindo sempre leal e cordialmente, não necessitando de hipocrisias e falsos amigos. Por isso mesmo, ele não era uma pessoa de muitos amigos, mas sim, de bons amigos. Não escondia de ninguém sua raiva pelo Coritiba, ficando extremamente feliz quando o Atlético ganhava do rival, pelo placar que fosse. Tamanha era a paixão pelo esporte nacional que move multidões aos estádios, que chegou a prometer quebrar o seu rádio se o Brasil fosse campeão do mundo. Em 1958, Passerino não resistiu após o quinto gol brasileiro e explodiu em frente ao rádio, arrebentando-o. Curiosamente, o aparelho ficou depois em exposição no Bar Americano e na redação do jornal Paraná Esportivo.

Atleticano histórico, de muitos arroubos e temperamento difícil, Passerino atuou como médico oficial do clube em 1967, diretor do Departamento Médico e do Departamento de Futebol profissional. A favor de Lauro Rego Barros, que ficou como seu vice, Passerino foi eleito por aclamação pelos 60 conselheiros presentes à sede do clube da Baixada, após a morte do então presidente Jofre Cabral e Silva. Em seu discurso, Passerino falou sobre as dificuldades em assumir a presidência. “ Quando nos propusemos a trabalhar pelo Atlético, tínhamos uma mentalidade nova para colocar em prática, pois o homem vale por aquilo que produz. O nosso clube não pode viver de conversa e sim de ação ”, afirmava ele, que foi responsável pela compra da sede campestre, em Colombo.

Passerino reformulou o quadro social e até chegou a entrar em campo armado para impedir a prevalência das forças ocultas. E a torcida gostava dele. Certa vez, vendo um certo “corpo mole” de alguns jogadores, chamou-os num canto e disse que se continuassem daquela maneira, tirava-os do time, encostava e não os emprestava, muito menos vendia. Deixava-os no come-e-dorme. Em 1970, o Atlético estava em situação financeira muito ruim. Os jogadores não recebiam há meses e o time não era campeão há 12 anos. “ Vou acabar com isso ”, dizia ele. E foi assim, com esta determinação, que Passerino se elegeu presidente. Embora o clube não tivesse mais de 20 sócios pagantes, ele não desanimou. No jogo da final, contra o Seleto, em Paranaguá, Passerino afirmava com total convicção: “ Que ninguém seja louco de nos roubar. Comando a massa e quebro tudo isso aí ”, dizia ele. Além do título, Passerino elevou o número de sócios para oito mil.

E a situação estava mesmo caótica. Depois de passar um dia inteiro lutando para levantar recursos para pagar o plantel, Passerino chamou todos os jogadores e o então técnico Alfredo Ramos em sua sala de trabalho e falou: “ Nós havíamos programado o pagamento e um jantar para hoje, mas foi impossível levantar o dinheiro. Porém, temos esperanças de conseguir isso amanhã ou depois. O jantar está de pé e se vocês quiserem, vamos jantar todos juntos aqui mesmo no restaurante rubro-negro” . O técnico e os profissionais do clube compreenderam a situação e sem reclamações, dirigiram-se ao restaurante, onde jantaram tranqüilamente. Uma refeição farta, mas desprovida de alegria. Para salvar o clube, Passerino não se preocupou com as críticas e colocou três bancas em locais de grande circulação do público, para que o torcedor depositasse qualquer quantia, por menor que fosse. Os postos foram instalados na Avenida Luiz Xavier, bem no coração da “Boca”, no “Senadinho” e na Praça Tiradentes. Tal medida exteriorizava o desespero do clube, mas perfeitamente compatível com a situação. “ Ou o Atlético se firma como um grande clube ou morre. Uma única alternativa existe e ela depende inteiramente da torcida. A campanha de sócios poderá se constituir na salvação do clube. Sem um quadro social estável, jamais o clube terá condições para sobreviver” , dizia um dos grandes presidentes da história do Atlético.

Mesmo diante de tantas crises, Passerino se mostrava altamente confiante com a equipe que disputaria o Estadual de 70. Tanto é que chegou mandar um recado para os jogadores do Alto da Glória. “ Eles já estão falando no tri, mas quero dizer que o Atlético tem um ótimo técnico, um elenco jovem, capaz de lutar de igual para igual e que também está nessa briga pelo título ”. No primeiro Atletiba do campeonato, o Atlético levou a melhor, ganhando por 1 a 0. E lá estava Passerino, rolando na grama do Estádio Joaquim Américo, de braços para cima, como a pedir graças à Deus pela vitória da equipe. Ali estava um presidente que deu o melhor exemplo de fé e demonstrou que também era um torcedor que sofria pelo time.

Na conquista do título, Passerino não agüentou a emoção. Quando o Atlético marcou o segundo gol, com Nelsinho, o presidente não se conteve e, quando alguns torcedores do Seleto começaram a gozá-lo, imediatamente mostrou o cotovelo aos invejosos. Além disso, fumou mais de duas carteiras de cigarro, tamanho era o nervosismo. Em lágrimas, Passerino passou pela multidão saudando a torcida, demonstrando sua imensa alegria em ver a equipe conquistando um campeonato, após 12 anos de angústia. Foi eleito “O Presidente do Ano”, pela mídia local. Ali consolidava-se o resultado de um trabalho com muito amor e honestidade. O título, segundo Passerino, era dedicado à torcida atleticana, que sempre apoiou e incentivou o time, principalmente nos momentos de desespero. Torcedor, autêntico, estourado, impulsivo, fez amigos e inimigos. Assim era Passerino. Graças a isso, o Atlético foi campeão em 1970.
 
 
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