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2000

Anos 80 - O crescimento da Fanáticos

Em 1980, mais um ano sem título maltratou os corações atleticanos. O Atlético ficou de fora da zona de classificação no Paranaense e disputou o “Torneio da Morte”. Acabou ficando em primeiro e naquele mesmo ano disputou a Taça de Prata, que teve o Londrina como campeão. A crise financeira era intensa e nem a contratação do meia Nivaldo, que havia sido campeão com o Grêmio Maringá no ano anterior, deu solução ao time.

E a história não era nada diferente na Fanáticos. Aquele grupo que já havia nascido audacioso estava ficando grande, mas as dificuldades eram ainda maiores. O material continuava sendo guardado na garagem da casa de Belotto e levado à Baixada por Sueli e Maucir, que carregavam o máximo de instrumentos.

Naquela época, os torcedores não tinham ingressos gratuitos, pois não eram reconhecidos pelo clube e pela imprensa esportiva. Porém, conta-se que algumas pessoas que trabalhavam na portaria da Baixada deixavam alguns integrantes entrar sem pagar pelo portão lateral das roletas. Fato que tinha o “consentimento” do diretor atleticano Hailton Fantinato, uma das primeiras pessoas a ajudar a Fanáticos.

Foram vários jogos em que os integrantes da organizada nem sequer apareciam ou chegavam tarde devido às dificuldades financeiras. Isso fez com que muitos que estavam nas arquibancadas, mesmo que nunca tivessem tocado um instrumento, fossem convocados a ajudar.

O ano de 1980 também foi marcado pelo início do diálogo entre o clube e a torcida para que o grupo pudesse ter uma sala na Baixada para guardarem faixas, bandeiras e instrumentos. Um dos que ajudou nesta conquista foi o atleticano Rui Carlos Ribeiro, um dos fundadores do ETA e que naquela época trabalhava na administração do clube.

1981 – A luta por materiais

Enquanto uma integrante da torcida enviava cartas ao programa de televisão de Dirceu Graeser pedindo desculpas por algumas confusões causadas pelos jovens torcedores, outros membros da organizada lutavam para conseguir materiais que eram levados à Baixada. Para obterem bandeiras, por exemplo, os torcedores batiam à porta de várias atleticanos pedindo colaboração, mas nem sempre eram ajudados. Foi com a ajuda de um dos proprietários do grupo Malucelli que conseguiram fazer 80 bandeiras e uma faixa de 50 metros. Já para conseguir bambus, que serviam de hastes para as bandeiras, o mutirão era outro. Quando alguém descobria um lugar onde tivesse bambu, o grupo conversava com o dono e pedia a doação de alguns “10 ou 12”, mas acabavam saindo com uns 50 escondidos.

Quando o material era talco, a torcida alugava um pequeno caminhão e seguia rumo a Rio Branco do Sul. Chegando lá, os jovens percorriam as pedreiras pedindo sobras de talco e não saiam dali com menos de uma tonelada. O mais divertido (e trabalhoso) era ensacar os milhares de saquinhos plásticos com o talco. O papel higiênico era conseguido com o torcedor Vanderlei Micheletto, proprietário da Mili, que nunca negou enormes quantidades, colaborando para que a torcida levasse quase 100 fardos em alguns jogos. Quem também ajudou bastante a Fanáticos naquela época foi Valmor Zimmermann, que emprestava um de seus caminhões para a luta por bambus, bandeiras, papel higiênico e talco.

Era Pinheirão: tempos difíceis nos anos 80 [foto: arquivo]

É importante destacar que todos esses materiais eram levados exclusivamente para os Atletibas e em alguns jogos de grande porte. Todo o trabalho era cansativo e desgastante, mas ao mesmo tempo era gratificante, pois a torcida queria demonstrar o quanto era superior às adversárias, seja na festa, nas músicas e nos adereços. O esforço era recompensado e o sacrifício valia a pena.

Com o objetivo de colorir ainda mais os jogos do Atlético, foi formado em 1982 o grupo feminino Esquadrão da Torcida Feminina do Atlético (ETAFE), que sempre vibrava e torcia muito nas arquibancadas. Nessa época o Atlético também contava com a Torcida Guerrilheiros da Baixada (TGB), e a Anjos do Caldeirão, além da Torcida Independente Atleticana (TIA).

Nesta época, a rivalidade da Fanáticos era com a “Torcida Jovem”, do Coritiba, e a TOC, do Colorado. Outra torcida do rival alviverde, apesar de ter sido fundada um pouco antes que a Fanáticos, ficou afastada dos estádios por muitos anos, voltando somente por volta de 1986. Nessa fase, vale lembrar que todos os jogos do Atlético eram realizados no Couto Pereira e o Coritiba recebia 15% pelo aluguel do campo. Um fato interessante era a divisão das torcidas durante os clássicos, com apenas uma corda separando as organizadas. Após organizar todo o material pela manhã, a Fanáticos se dedicava a azucrinar os coxas, ainda mais que a sala de material da torcida adversária ficava logo abaixo onde se encontrava a nação atleticana. Ou seja, eles eram obrigados a passar pelos rubro-negros, o que sempre deixava a situação bastante tensa.

1982 - O primeiro título

O ano de 1982 entrou para a história do Atlético e para a Fanáticos. No Atlético, a contratação da dupla Washington e Assis, a experiência do supervisor Hélio Alves e a competência do treinador Geraldo Damasceno fez com que o Furacão fizesse uma campanha arrasadora, alcançando uma invencibilidade por 26 rodadas e conquistasse o título em cima do Colorado. Já na Fanáticos, novas dezenas de pessoas foram se juntando ao grupo, entre eles Roberto, Valfrido, Joca, Eremar, Gerson, Maurinho, Bolinha, Lino, Joel, Paulista, Cláudio, Marcos, Edson, Mauricio, Onivaldo, Xuxa, Gravatinha, Rato Branco, Ane, Silvia e Rosane. Quem também começou a marcar história na torcida foi dona Hilda, que costurou centenas de bandeiras e faixas para a torcida.

Foi também neste ano que Maucir teve a idéia inovadora de confeccionar chocalhos de mão, após retornar de uma viagem aos EUA. Decidiram fazer um teste e levaram apenas 20 para um Atletiba, causando muitos comentários da imprensa esportiva e da própria torcida adversária. O sucesso foi tão grande que outros integrantes da Fanáticos resolveram ajudar e confeccionaram 500 chocalhos, que foram levados na partida seguinte, um adereço que até hoje é usado pela organizada.

Mesmo com todas as superações e colaborações, tudo ainda era muito difícil para a Fanáticos e cada conquista era fruto de muito suor, resultando em mais shows nas arquibancadas. Porém, eram poucas as pessoas dispostas a ajudar na organização da torcida, que ainda não contava com cadastro de associados ou mensalidades dos associados.

Foi também em 1982 que a torcida começou a trocar correspondências com outras torcidas de outros Estados, fazendo com que o Atlético passasse a ser mais conhecido. Tal trabalho rendeu frutos em todo o País, pois a torcida foi, por muito tempo, considerada a mais simpática organizada do Brasil.

1983 – Orgulho rubro-negro

Roberto Costa, Renato Sá, Nivaldo e a dupla Washington e Assis foram passando pelos adversários em 1983 e chegaram às semi-finais do Campeonato Brasileiro. Por um acaso do destino, topou contra o poderoso Flamengo de Zico e acabou eliminado. Após perder a partida de ida por 3 a 0 num Maracanã lotado, só restava ao Furacão vencer pelo mesmo placar no jogo de volta. Com o apoio de cerca de 70% dos mais de 65 mil espectadores daquela partida, o maior público em um estádio no Paraná que nunca mais será batido, o Atlético despediu-se do torneio vencendo o futuro campeão nacional pelo placar de 2 a 0. Esta importante caminhada deixou marcas em muitos atleticanos e fez com que o Atlético começasse a despontar como grande força no cenário nacional, conquistando muitos novos torcedores.

Foi em 1983 que a torcida começou a acompanhar mais o Atlético em vários lugares dentro e fora do Estado, sempre com a colaboração de várias pessoas.

Outra torcida que marcou época nesta fase foi a Nação, que surgiu em meados de julho daquele ano. Desde sua fundação, num Atletiba, a Nação mostrou ser diferente pelo grande número de mulheres que ficavam junto aos demais integrantes. E tudo isso contribuía ainda mais para caracterizar a vibração da torcida. A camisa vermelha, com um grande coração em preto, se fez presente em muitos momentos do Atlético e ficou na memória dos torcedores atleticanos que tiveram o prazer de conhecer aquele grupo de jovens amantes do Furacão no começo dos anos 80.

1984 – A primeira festa

Após a saída dos principais jogadores que conquistaram o bicampeonato estadual, o Atlético jogou o ano de 1984 com uma equipe bem inferior àquela que havia encantado o Brasil no ano anterior. E foi na gestão do presidente Valmor Zimermann que as portas do Atlético começaram a se abrir para a Fanáticos. Deu-se início a um diálogo permanente com o clube através da doação de ingressos e colaborações em excursões.

A primeira comemoração de aniversário da torcida aconteceu em 1984, com a celebração de seus sete anos de existência. Neste ano, a Nação encerrou suas atividades e os integrantes das duas torcidas conversaram sobre a doação dos materiais à Fanáticos. Foi doado uma kombi (que depois foi apelidada de “Kid Bala”) e ficou acordado que na camisa da Fanáticos, toda vermelha e com duas faixas pretas na horizontal, o “F” seria trocado pelo coração.

1985 – Caveira, “Atlético até a morte” e viagem internacional

Em 1985, a Fanáticos começou a se popularizar com a criação de duas marcas: a adoção da caveira como símbolo e o lema “Atlético até a morte”, que até hoje embala os gritos de guerra dos atleticanos. O ano também ficou marcado pela primeira viagem internacional da torcida com a faixa da Fanáticos, num jogo das eliminatórias do Brasil contra o Paraguai, em Assunção.

A notícia bombástica de 1985 ficou por conta da mudança do Atlético para o Pinheirão. Mesmo após a saída do Joaquim Américo, muitos integrantes da Fanáticos mantinham limpas as arquibancadas. Enquanto os diretores e conselheiros discutiam os projetos, a torcida tomou conta do maior patrimônio atleticano.

No campeonato, o Atlético ganhou o primeiro turno e bastava vencer o Londrina na última partida do segundo turno para ser campeão. Na manhã do dia 10 de dezembro, a Fanáticos marchou rumo à Baixada numa espécie de alegria e melancolia, pois o Atlético tinha que conquistar o título e, assim, se despedir do Caldeirão do Diabo. Foi assim que a torcida preparou uma festa grandiosa para empurrar o Atlético para mais um título.

1986 – Tempos de Pinheirão

O primeiro ano do Atlético no Pinheirão deixou o Rubro-Negro na sexta colocação no Paranaense. Tal melancolia contrastava com o trabalho suado dos torcedores, que cortavam o mato das arquibancadas e tentavam dar o mínimo de dignidade ao lugar. Tudo isso ficava por conta da Fanáticos, que praticamente morava dentro do Joaquim Américo.

A torcida se alojava em outra sala, onde era a antiga tesouraria em dia de jogos, no canto direito da entrada do estádio. Era uma sala melhor, com dois andares e permitia o acesso direto ao ginásio. Foi ali que se consolidou a irmandade entre os membros da torcida, que já não eram sócios e sim amigos. Os torcedores jogavam bola no ginásio todas as terças e quintas-feiras e, nos finais de semana, organizavam churrascos na base do improviso.

Apesar de tudo, Fanáticos continuou fazendo festa nas arquibancadas [foto: arquivo]

Com os jogos no Pinheirão, muitos torcedores rejeitaram os jogos do Campeonato Brasileiro e, os que ainda compareciam, costumavam entrar revoltados no estádio, fazendo com que graves brigas acontecessem. O único ponto positivo de 1986 foi a festa de aniversário de nove anos da Fanáticos, que foi realizada num parque aquático com a presença maciça de torcedores, uma das grandes e memoráveis festas da Fanáticos.

Em meio a tudo isso, a torcida ganhou uma casa nos fundos do Pinheirão e tratou logo de marcar território: foi colocada uma placa, que existe até hoje, com os dizeres “Templo da Caveira”. Antes do primeiro Atletiba no Pinheirão, a torcida levou todo o material até a sala e alguns tiveram que dormir lá mesmo para cuidar de tudo. Porém, eles não contavam com o tremendo frio à noite e nunca mais nada foi guardado lá.

A péssima campanha no Paranaense e no Brasileiro também atrapalhava os planos da torcida, que continuava a enfrentar dificuldades. Ninguém queria patrocinar a Fanáticos e poucos integrantes entravam para ajudar o grupo. O que realmente sustentava a torcida era amizade de todos.


1987 – A Fanáticos e as outras torcidas

O ano de 1987 foi marcado pela fase negra das torcidas organizadas pelo Brasil, mas ainda sem a selvageria e brutal violência de anos mais tarde. A Fanáticos mantinha um bom intercâmbio com todas as grandes torcidas do Brasil, independente dos clubes. Foi assim que a torcida começou a receber as torcidas adversárias na sede com muita hospitalidade, oferecendo sempre uma recepção regada a chopp e linguiça.

No início do ano, a Fanáticos foi convidada a participar do “Primeiro Congresso de Torcidas Organizadas do Brasil”, representando o sul do Brasil e teve o apoio do Edmar, um grande amigo da Fanáticos que levava o nome da torcida para todos cantos do País, mesmo exemplo que depois foi seguido pelo Guto anos mais tarde. Ao retornar a Curitiba, a Fanáticos convocou todas as torcidas do Paraná para participar de um debate e explicar o que fora decidido no congresso, além da discussão sobre os novos rumos que poderiam ser tomados por aqui também.

Com a colaboração de um integrante, a Fanáticos fez algumas mudanças na camisa: um novo modelo, idêntica à do Atlético, lista horizontal, com o CAP à esquerda e a caveira à direita, escrito “Até a morte” nas costas. Graças ao dinheiro arrecadado com os ônibus doados por um amigo, foram feitas as primeiras 50 camisas já com a mudança.

Neste ano também aconteceram as primeiras reuniões com a Polícia Militar para tentar organizar as torcidas em razão do deslocamento dos torcedores ao Pinheirão e à Vila Capanema.

1988 – Mais um título

Pelo Paranaense, o Atlético fez uma bela campanha durante o primeiro turno e contou com o tropeço dos principais rivais no returno, passando pelo Colorado nas semi-finais e pelo Pinheiros nas finais. Após três partidas bastante disputadas e que ficaram marcadas para a história da torcida, o centro-avante Manguinha fez o gol do título, o primeiro que o rubro-negro conquistava no Pinheirão, sob o comando de Nelsinho Baptista. A festa percorreu a cidade e, mais uma vez, em tão pouco tempo de existência, a Fanáticos comemorou mais uma conquista.

Aliás, no primeiro jogo, apareceu um atleticano, o folclórico Coronel, que iniciou um dos gritos mais emocionantes da torcida: "A.....tlé.....ticoooooo", pausadamente e bem forte. E não deu outra: o estádio inteiro respondeu, cantando igual. A torcida acompanhou e, por mais de meia hora, não parou nem um minuto sequer.

Mesmo assim, o público nos jogos do Atlético estava virando motivo de piada entre os atleticanos. Eram sempre os mesmos abnegados que continuavam a assistir aos jogos do Furacão. Se tivessem 1.000 pessoas no estádio, 800 ficavam junto à Fanáticos. Ou seja, tempos de muito amor ao clube naqueles anos tenebrosos, fazendo com que a torcida exigisse a volta imediata ao antigo Caldeirão. A cada jogo as manifestações dos torcedores aumentava cada vez mais, com os atleticanos demonstrando toda a sua insatisfação.

No final do ano, durante a festa em comemoração ao 11º aniversário, foi lançado o primeiro jornal da Fanáticos, com a colaboração do vereador Mário Celso, que viria a fazer todo ano um novo jornalzinho com as informações da torcida.


1989 – Rumo ao Nordeste

Em 1989 o Atlético resolveu trazer de volta a administração para Baixada, também abandonando o Pinheirão e a Fanáticos continuou com a mesma sala, no mesmo lugar. O ginásio estava sendo reformado pelos torcedores para dar início às escolinhas de futebol de salão do Atlético. Antes disto, a torcida teve a experiência de contar com o próprio bar dentro do ginásio.

Com o time jogando pela primeira vez a Copa do Brasil, a Fanáticos rumou para Recife numa viagem que durou 53 horas, a primeira viagem ao Nordeste.

Texto: Monique Silva (adaptado)

 
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