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Anos 90 - Atirei o pau nos coxas...

No início da década de 90 costumava tocar nas rádios curitibanas uma paródia da música “Another Brick in the Wall” (da banda inglesa Pink Floyd), cujo título era “Atirei o pau no gato”. Foi então que, numa reunião entre amigos no dia 17 de março, alguns começaram adaptar xingamentos aos coxas à letra da música. A imaginação rolou solta e a canção foi transformada no maior hino da história da Fanáticos, a primeira torcida brasileira a cantar na íntegra uma versão de música em inglês - clique aqui para ler a entrevista que André Gonser, autor da adaptação, concedeu à Furacao.com contando a história da música.

A música foi cantada pela primeira vez contra o Paranavaí no Pinheirão e os últimos acertos na letra foram deixados para o jogo contra o Coxa, é claro. Foi nesse dia que as tradicionais famílias curitibanas se envergonharam com tanto palavrão e a galera rubro-negra foi ao delírio. Já os alviverdes simplesmente emudeceram. Hoje a música continua sendo entoada a plenos pulmões pela torcida atleticana, desde as pequeninas crianças até os idosos. Isso sem contar que as torcidas de outros estados fizeram outras versões, fazendo com que a Fanáticos fique marcada cada vez mais como uma torcida diferente.

No futebol, o Atlético começou o ano ainda triste pelo rebaixamento para a Segunda Divisão em 1989. Longe da Baixada e com pouco apoio da torcida, restou a conquista do Campeonato Paranaense, que aconteceu após dois Atletibas onde brilharam o carrasco Dirceu, que assinalou quatro gols, e o autor do gol do título atleticano, o zagueiro Berg, do Coritiba.

Neste ano, a relação com as torcidas adversárias começava a ficar crítica. As reuniões feitas antes dos clássicos de nada adiantavam e, quando a Fanáticos saía em caravana, seja a pé ou com vários ônibus, era terrivelmente surpreendida pelas torcidas adversárias com muita violência. Foi aí que a torcida convidou um coronel para dar uma palestra aos associados, que melhorou o relacionamento com os comandantes da Policia Militar. A Fanáticos ganhou mais flexibilidade e confiança da corporação.

O ano também foi marcado pela viagem que alguns integrantes fizeram até a cidade de Alagoinhas para prestigiar o Atlético contra a Catuense. Os jogadores ficaram muito emocionados de ver a faixa da Fanáticos em um lugar tão distante.

1991 – Chega de Pinheirão!

Neste ano a Fanáticos liderou um movimento de repúdio ao Pinheirão e de apelo para voltar à Baixada. O estádio era desconfortável e os atleticanos não se sentiam em casa, bem o oposto do que ocorria no Joaquim Américo. A revolta em relação ao então atual palco de jogos do Atlético, o Pinheirão, gerou um novo manifesto dos torcedores, onde a Fanáticos mostrava seu repúdio contra a Federação Paranaense de Futebol e contra a diretoria atleticana, que tinha o presidente José Carlos Farinhaque no comando. Com o Atlético de volta à primeira divisão do Brasileiro, muitos torcedores aderiram ainda mais à causa atleticana, pois quanto mais eles insistiam naquela empreitada, maior era o número de torcedores que se engajavam no movimento contra o Pinheirão. “Baixada já” era o grito mais presente nas arquibancadas.

Volta para a Baixada foi um lema dos anos 90 [foto: arquivo]

O ano não foi bom para o futebol, pois o Atlético amargou o Brasileiro na 15ª posição e teve uma participação frustrante na Copa do Brasil, sendo eliminado ainda na primeira fase pelo Vitória. Além disso, o clube ficou com o vice-campeonato estadual.

1992 – Início das obras

O esforço dos atleticanos deu resultado em 1992. Iniciaram-se as obras de reforma do antigo Joaquim Américo, bastante castigado pelo tempo em que ficou desativado. O então presidente Farinhaque foi corajoso e levou a situação à frente com muita determinação, apoiado principalmente pelo governo do Estado. Vale lembrar nesta época que a Fanáticos fez uma campanha para a arrecadação de materiais de construção e conseguiu 8.000 tijolos para a obra dos sonhos de toda uma torcida. Houve até um jogo organizado pelo jogador Nivaldo, que reuniu outros ex-jogadores, principalmente a base do time campeão de 1982, para fazer uma apresentação no abandonado gramado do Joaquim Américo.

No futebol, o Atlético realizou mais uma campanha discreta, encerrando o campeonato na 15ª posição, sem contar a melancólica última posição na média de público entre os clubes da primeira divisão. Na Copa do Brasil, chegou às quartas-de-final e foi eliminado pelo Palmeiras, sendo derrotado nas duas partidas. Já no Estadual, o time chegou às semifinais, perdendo nos pênaltis para o campeão Londrina.

Neste ano, a Fanáticos comemorou 15 anos e a festa foi pela primeira vez em um restaurante.


1993 - Contagem regressiva


O ano de 1993 foi marcado pelas visitas diárias às obras do Estádio Joaquim Américo. Todos os dias, centenas de pessoas fiscalizavam as construções, num gesto de amor ao clube. Com o estádio em reformas, os dirigentes atleticanos prometeram uma sede nova para a Fanáticos. Sempre que podiam, alguns integrantes faziam projetos e visitavam o que seria o novo canto da torcida. Pela primeira vez, a torcida começava a sonhar com uma sede própria, dentro do clube, mas independente em seus portões. O novo canto era nos fundos do estádio, onde antigamente ficava o campo de areia. Sempre que podiam, os torcedores iam visitar o que futuramente seria a sede.

É importante destacar que a torcida compareceu em todos os jogos oficiais do clube, sem jamais abandonar o time naqueles momentos ruins. Desde o começo da década, a Fanáticos não deixou de comparecer às partidas, seja com caravanas, carros ou ônibus.

Ao final do ano, a torcida fez um aniversário em grande estilo para comemorar o 16º aniversário, em outro restaurante da capital. O lugar foi tomado por mais de 700 pessoas, com a presença de fervorosos admiradores, sócios, imprensa, diretores e diversas torcidas organizadas de vários clubes. Foi mais um momento inesquecível de confraternização entre todos os atleticanos.

1994 – Volta pra casa

Finalmente o sonho da torcida atleticana aconteceu no dia 22 de maio de 1994, diante do Flamengo. Sob o comando do então presidente Hussein Zraik, a Baixada era finalmente reinaugurada. Para um dos dias mais especiais da vida da nação atleticana, a Fanáticos preparou uma grande festa, pois era a certeza de que a luta pela volta à Baixada daria uma nova vida à torcida atleticana.

Na grande festa, o ex-presidente Farinhaque, ao invés de estar ao lado das personalidades, estava no meio da torcida com uma camisa da Fanáticos, sem esconder as lágrimas daquele momento inesquecível. Assim, o Atlético estava de volta ao lar, donde jamais deveria ter saído, dizia a imprensa esportiva na ocasião.

Na metade do ano, a torcida foi procurada por um grupo liderado pelo torcedor Mauro Singer, que queria doar um gigantesco bandeirão para a Fanáticos. Os torcedores mediram o tobogã, construído nos fundos da Baixada para que o bandeirão fosse exatamentedo mesmo tamanho. A Fanáticos recebeu a doação de um tecido especial e resistente e restou apenas a luta pela pintura. A maior bandeira de torcida da história do Paraná foi esticada no dia 11 de setembro, para orgulho do povão rubro-negro.

Ao final de 1994, Renato Sozzi deixou a presidência da Fanáticos, depois de ter ocupado o cargo por mais de 14 anos. Em seu lugar, assumiu José Carlos Belotto, um dos fundadores da torcida, tendo Júlio Sobota como vice. Antes de sua saída, Sozzi ajudou na elaboração do Estatuto Oficial da torcida e a mudança de nome para “Associação Recreativa Torcida Organizada Os Fanáticos”. Foi feita também uma ata de fundação, datada de 1977, bem como o registro do nome, símbolo e slogan “Atlético até a morte”.

1995 – Nova sede e volta à elite

Com a Baixada de volta, também voltava a força da torcida atleticana. Porém, durante o primeiro semestre, o Atlético fez uma campanha medíocre no Estadual e ainda sofreu a humilhante derrota por 5 a 1 para os coxas, que abalou as estruturas do clube e mudou a história para sempre. O triste reverso provocou uma revolução administrativa e técnica no Atlético, com a mudança na diretoria. Os resultados começaram a ser vistos no segundo semestre, enquanto o Atlético disputava a Segunda Divisão do Brasileiro apostando em jogadores como Ricardo Pinto e a dupla Oséas e Paulo Rink. Resultado: a campanha foi fechada com o título e a conquista do acesso à primeira divisão, principalmente com a torcida apaixonada ao lado do time. A média de público atleticana foi a maior entre todos os clubes no torneio, com 10.705 pagantes por partida, fazendo o Atlético renascer das cinzas.

Com isso, a Fanáticos também começava uma vida nova, com nova diretoria. A realidade da volta à Baixada tornou as coisas bem mais fáceis e novas ideias começavam a aparecer, principalmente sobre a construção da tão sonhada sede da Fanáticos. A torcida começou a incentivar mais a venda da camisa da caveira (nesta época foram mais de 20 mil) e a produção de outros materiais para arrecadar o máximo de dinheiro para as obras da nova sede nos fundos da baixada.

Porém, com a situação financeira do clube em maus lençóis, o protocolo da construção da sede da torcida ficou paralisado. Então, alguns integrantes começaram a procurar um terreno para que fosse construído o novo canto e chegaram a uma casa abandonada, mas com um ótimo terreno, na rua Menna Barreto, a uma quadra do Caldeirão.

Jogando em casa, o público das partidas ia aumentando cada vez mais, impulsionando também os negócios da torcida, seja nas vendas de materiais e na entrada de novos sócios. Em campo, a Fanáticos continuava a dar espetáculo nas arquibancadas e causava inveja às outras torcidas adversárias. Não tinha quem não se emocionasse com o show da torcida da caveira.

A volta à elite foi selada numa excursão com vários ônibus a Mogi Mirim e, com a vitória por 1 a 0, a Fanáticos comemorou com uma grande festa no interior de São Paulo. Antes disto, a torcida havia comparecido a lugares que somente os clubes que disputam a segunda divisão conhecem: Goiatuba, Caruaru, Aracaju, Barra do Garças e Novo Horizonte. Na volta do time de Mogi Mirim, a torcida recepcionou os jogadores no aeroporto e fez uma gigantesca carreada pelas ruas da capital.

O ano de 1995 também ficou marcado pela viagem que alguns integrantes fizeram para representar a Fanáticos na Copa América no Uruguai. Foi de lá que trouxeram o grito de “Dá-lhe... dá-lhe dá-lhe ooo ...”, que eternizaria ainda mais a força da torcida rubro-negra nas arquibancadas. O ano acabou com o início das obras na nova sede e com um jantar memorável para comemorar o aniversário da torcida, com a presença de dezenas de torcidas organizadas de todo o País.

1996 – A realização do sonho

Com o Atlético respirando novos ares, a alegria voltava à Baixada e fez o sorriso aparecer novamente nos rostos dos atleticanos. As obras da sede estavam em ritmo acelerado com ajuda de contratados e integrantes. Ninguém media esforços para que o sonho da torcida se tornasse realidade o mais breve possível.

Embora tenha começado muito bem, o Atlético acabou na terceira colocação no Paranaense. Já no Brasileiro, com a base do time campeão do ano anterior e reforçado por jogadores como Alberto, Andrei e os poloneses Nowak e Piekarski, o Atlético acabou na quarta posição entre 24 clubes. Foi neste ano também que aconteceu um episódio que envergonha o futebol brasileiro até hoje: após a vitória rubro-negra sobre o Fluminense, os torcedores rivais invadiram o campo e começam a agredir os jogadores do Atlético. O goleiro Ricardo Pinto, que sempre se aquecia com a camisa da Fanáticos, foi a maior vítima, chegando a ficar em coma e tendo de ficar de fora do restante do campeonato.

Bandeirão: um dos orgulhos da Fanáticos [foto: arquivo]

Com o estádio novo, muitas famílias e mulheres retornavam à Baixada e marcavam presença, na sede da Fanáticos. Foi nesta época que surgiu o Pelotão Feminino, que contava com lindas garotas se unindo em prol do Furacão.

O tão esperado momento para a Fanáticos chegou no dia 15 de junho, quando foi aberta a sede da Associação Recreativa Torcida Organizada Os Fanáticos. Com a presença de boa parte da imprensa esportiva, diretoria do Atlético e jogadores, foi feito um coquetel para mostrar a todos a nova sede, que contava com um bar e lanchonete, sistema de televisão, sinuca, almoxarifado, boutique e sala de reuniões. Um marco na história de tantas lutas, batalhas, dificuldades e alegrias. Agora, após 18 anos de história, a Fanáticos estaria com seu nome definitivamente entre as maiores torcidas organizadas no Brasil, com milhares de sócios e uma administração com responsabilidade. Um orgulho para todos que puderam passar pela Fanáticos ao longo de todos esses anos.

1997 – Juntos pelo Atlético

Consolidando-se entre os maiores clubes do Brasil, o Atlético crescia a passos largos e começou o Paranaense muito bem, mas na fase final acabou sendo derrotado e novamente se contentou com o vice-campeonato. Mas o mais complicado aconteceu nos bastidores do futebol.

O jogo de volta contra o Vasco ficou marcado por uma série de telefonemas gravados, mostrando conversas entre vários dirigentes de clubes (entre eles, Corinthians e Atlético) e o então diretor de arbitragem da CBF, Ivens Mendes. Nos telefonemas, os dirigentes ofereciam quantias em dinheiro para receberem ajuda da arbitragem. Com o escândalo, Fluminense e Bragantino, rebaixados no ano anterior, foram mantidos na primeira divisão e o Atlético foi suspenso por 360 dias de qualquer atividade esportiva, enquanto o Corinthians não sofreu nenhuma punição. O então presidente no comando atleticano foi banido do futebol.

Tal diferença de tratamento revoltou os atleticanos e toda a população do Paraná, que se mobilizou em uma campanha visando acabar com tamanha injustiça. Uma série de protestos encabeçava pela Fanáticos até o Rio de Janeiro ajudou o Atlético a reduzir as punições de seu presidente e do clube, que sofreu uma perda de 5 pontos no Brasileiro. Mais uma vitória para a sempre aguerrida torcida rubro-negra.

1998 - Estádio destruído e mais um título para a torcida

Ainda sofrendo os problemas envolvendo a CBF, o clube não foi convidado para disputar a Copa do Brasil e teve que se contentar com o Paranaense e o Brasileiro. Pelo Estadual, o time realizou três finais e ficou com o título, acabando com a hegemonia dos rivais. Foi a primeira festa na sede oficial da Fanáticos. Já no campeonato nacional, o Atlético amargou apenas a 16ª posição.

Além disso, o clube resolveu mais uma vez demolir seu estádio para fazer surgir o mais moderno estádio da América Latina. O Atlético começava a voar alto no cenário nacional e o Caldeirão começava a ficar pequeno para acomodar toda a nação atleticana. Assim, tudo começava novamente e o estádio foi abaixo. Por mais algum tempo, a torcida ficava de novo sem um lar e se dividindo entre a Vila Capanema, a Vila Olímpica e o Pinheirão.

Na torcida, novas conversas sobre a mudança na diretoria começaram a acontecer, já prevendo as eleições que ocorreriam em maio do próximo ano.

1999 – Nova diretoria

Pela primeira vez, foi realizada uma eleição para a nova presidência da Fanáticos. Com chapa única, o comando da torcida foi assumido por Julio Cesar Sobota, o Julião, que passou pelos diversos cargos que qualquer associado pode ter na torcida até chegar à presidência, tendo Juliano Rodrigues, o Suk, como vice. O primeiro passo da nova diretoria foi organizar a documentação da torcida e pagar as dívidas da mesma. Com muito trabalho, logo no início foi confeccionada a maior faixa da torcida de toda a história da Fanáticos e uma das maiores do Brasil, que media mais de 100 metros de comprimento e 3 metros de largura.

No futebol, o ano de 1999 demonstrou-se promissor para o Atlético, tendo no dia 24 de junho o momento tão esperado pela nação rubro-negra: a Baixada finalmente era reinaugurada, num amistoso contra o paraguaio Cerro Porteño. A Fanáticos mais vez demarcou o seu lugar, na Curva da Caveira, e o Atlético venceu por 2 a 1, com gols de Lucas e Vanin e que ficarão guardados na memória de todos os atleticanos. Dois dias depois, a Baixada recebeu um amistoso da Seleção Brasileira contra a Letônia. Após a vitória por 3 a 0, o estádio foi bastante elogiado por jornalistas de todos o País, impressionados com um estádio superior a qualquer outro no país. Já no primeiro Atletiba, a torcida realizou uma grande caminhada rumo ao estádio adversário com a participação de cerca de 2 mil pessoas.

No segundo semestre, o Atlético encerrou o Brasileiro na nona posição e acabou se qualificando para uma Seletiva envolvendo os clubes eliminados do Brasileiro valendo uma vaga na Libertadores da América. Depois de enfrentar a Portuguesa, Coritiba, Internacional e São Paulo, o Atlético chegou à final da Seletiva contra o Cruzeiro. O jogo de ida foi marcado pelo desempenho de Lucas, que marcou os três gols da vitória na Baixada. No jogo de volta, a consagração trouxe o título para o Atlético, conquistando assim a vaga para a Libertadores da América. Dessa forma, o mesmo clube que começou 1990 na segunda divisão e sem estádio acabou encerrando o ano de 1999 com a Baixada e a Libertadores da América.

Texto: Monique Silva (adaptado)

 
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