20 mar 2002 - 21h21

O FUTEBOL É UMA DROGA

Um dos motivos que levaram o governo colombiano a intervir no futebol foi a volta do fantasma que há anos liga o esporte mais popular do país ao narcotráfico.

Em sua última edição, a revista “Semana”, uma das mais influentes da Colômbia, reproduziu uma gravação, interceptada pelo serviço de inteligência do governo, em que o dirigente Jorge Hernán Duque, candidato à presidência da Dimayor (a liga profissional do país), conversa com outro cartola sobre a necessidade de obter a bênção do “Senhor” para conseguir se eleger.

De acordo com a “Semana”, o “Senhor” seria Miguel Rodríguez Orejuela, um dos chefões do poderoso Cartel de Cali. Embora esteja preso (junto com seu irmão Gilberto), Miguel Orejuela ainda seria uma espécie de eminência parda do futebol colombiano.

A gravação também revela que o narcotráfico poderia pressionar dirigentes de clubes em favor da candidatura de Jorge Hernán Duque, que desistiu de concorrer à Dimayor logo após a publicação da reportagem.

O governo colombiano declarou que não toleraria a candidatura de Duque nem a de Juan José Bellini, cujo nome foi lançado, há duas semanas, por presidentes de clubes para comandar a liga profissional do país.

Ex-presidente da Federação Colombiana de Futebol (entre 1992 e 1995), Bellini esteve preso durante quatro anos por ter enriquecido às custas do Cartel de Cali.

Devido a esses acontecimentos e outros ocorridos nas últimas semanas, a diretoria atleticana tentará mudar o local da partida entre América e Atlético, que está marcada para Cali, no dia 27.

Cartel de Cali no comando

As revelações sobre a ligação futebol-narcotráfico na Colômbia reacenderam uma questão que parecia enfraquecida no país após a morte de Pablo Escobar e dos irmãos Miguel e Gilberto Rodríguez Orejuela.

Maiores chefões dos cartéis de cocaína do país, Escobar e os irmãos Orejuela sempre foram entusiastas do futebol e financiaram clubes e jogadores em troca da paixão e do dinheiro de apostas.

O América de Cali, quatro vezes vice-campeão da Libertadores, era comandado há até poucos anos por Miguel Orejuela, ex-chefe do Cartel de Cali que está preso ao lado do irmão.

Os Rodríguez Orejuela chegaram até a receber uma homenagem do atacante da seleção colombiana Anthony de Ávila. Em julho de 97, ele dedicou um gol marcado contra o Equador aos irmãos narcotraficantes.

Antes, em 94, o zagueiro Andres Escobar, que havia defendido a Colômbia na Copa dos EUA, foi assassinado com 12 tiros em Medellín por ter marcado um gol contra no Mundial -que resultou na derrota de 2 a 1 e a eliminação de seu time.

Presume-se que seu assassino, Humberto Muñoz, que cumpre pena de 43 anos de prisão, era à época um apostador ligado aos narcotraficantes e perdera dinheiro com a eliminação do país.

Em 1989, um bandeirinha foi assassinado depois de anular um gol em um jogo entre times de Cali e Medellín. O goleiro René Higuita teve que ser cortado da seleção de 1994, depois de condenado à prisão, em 1993, por participar de um sequestro para o cartel das drogas.

A Copa América-2001 esteve ameaçada pelo narcotráfico e pelo terrorismo. Dois meses antes de seu início, um carro-bomba explodiu num prédio em Cali. Uma das hipóteses ligava o atentado à disputa entre os clãs Pacho e Varela, que controlam o narcotráfico.

Fonte: Agência Folha



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