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15 ago 2004 - 11h46

Em 2004, vote Atlético Paranaense para uma vaga no Aurélio!

Dizem que de médico e louco todo mundo tem um pouco. Eu, como não poderia ser diferente, tenho lá minha porção de médico e outra boa dose de loucura. Sendo assim, prescrevo aos prezados leitores, em caso de febre, trinta e cinco gotas de Novalgina a cada seis horas e, se persistirem os sintomas, procurem um médico de verdade, desses que, curem ou não, cobram da mesma forma os cem reais da consulta.

Agora que apresentei a vocês o médico que há dentro de mim e, por favor, não maliciem a expressão anterior, passo a lhes mostrar meu lado louco que, via de regra, torna-se mais louco ainda quando se depara com assuntos ligados ao querido e amado Furacão da Baixada.

Pois bem. Era o dia 13 de dezembro de 2003 quando eu, como sempre faço, fui até à banca de revistas da Dona Francisca, esposa do seu Geraldo que é dono do boteco como já lhes disse anteriormente.

Como de costume, pedi a ela um Marlboro “vermelho” box, um Hall’s “preto” e um exemplar da Folha de São Paulo (poderia ter pedido a Gazeta do Povo, mas eu não me sinto à vontade lendo um jornal que comete mais erros de Português do que o leitor, fui de Folha mesmo).

Lá pelas tantas leio a notícia: “Grupo paranaense adquire os direitos sobre o Dicionário Aurélio”. Parei e li detidamente todo o texto. De fato, o Grupo Positivo adquirira os direitos sobre a tão festejada obra que, a partir de então, seria impressa pelas potentes rotativas do Grupo do Oriovisto (ô nomezinho diferente, hein? Será que ele é parente do Onaireves? Vai saber?!).

Lido o texto, comecei a meditar sobre o tema e me convenci que tal aquisição deveria encher de orgulho o povo paranaense. E de tanto meditar, todos os meus cinco neurônios se irmanaram numa corrente elétrica-neuronal jamais vista. Daí, um pensamento foi levando a outro e outro foi levando a um até que meus neurônios atingiram o pântano de minhas lembranças e de lá trouxeram um trauma que estava adormecido.

Que trauma é esse? Eu explico: é o trauma que me acompanha desde os primeiros anos de vida escolar, é o trauma de nunca ter visto no tal Dicionário Aurélio o verbete “Clube Atlético Paranaense”, é o trauma de nunca ter lido o verbete “atleticano” como sinônimo de torcedor do Clube Atlético Paranaense. E “traumas é traumas” como diria a Dona Francisca, aquela da banca, e que estudou até o segundo ano de Psicologia através do curso por correspondência promovido pelo Instituto Elke Maravilha de Estudos da Mente, Instituto esse dirigido, hodiernamente, pelo não menos laureado Sr. Pedro de Lara.

De posse da boa-nova, enderecei imediatamente um e-mail ao Grupo Positivo requerendo a inserção do verbete “Clube Atlético Paranaense” às letras do famigerado dicionário. Da mesma forma, solicitei que ao verbete “atleticano” fosse acrescentado o significado “torcedor do Clube Atlético Paranaense”, em atenção ao querido Furacão e em nome da Polissemia.

Três dias se passaram até que eu recebi uma resposta do Grupo Positivo. Algo mais ou menos assim: “Prezado Dr. Rafael, anotamos sua solicitação e já encaminhamos o pedido para a viúva do Professor Aurélio, posto que somente ela pode inserir verbetes no dicionário e alterar o texto. Saudações cordiais. Grupo Positivo”.

Ou seja, senhores, fiquei na mesma, sofrendo ainda com meu trauma infantil. Mas, pensando bem, fiquei pior porque ao trauma se somou o sentimento de revolta de ver um grupo paranaense, dono de direitos sobre o maior dicionário da Língua Portuguesa, não fazer nada, absolutamente nada, para atender meu tão singelo, e justo, pedido.

Ora, senhores, o Positivo poderia ter sido mais sensível e atencioso diante desse meu pedido tão tresloucado e que, se pensarmos bem, nem é tão louco assim, é apenas original. Causa-me revolta ler no Aurélio o nome do Atlético Mineiro e até mesmo o nome do finado Atlético Ferroviário e nunca encontrar o nome do nosso Clube Atlético Paranaense. Para o Aurélio, atleticano é só quem torce pelo Galo. Nós, para eles, sequer existimos.

Para o saudoso Aurélio, para sua viúva e demais asseclas, toda aquela torcida que encantou o Brasil nas finais de 2001, e que inspirou as mais belas letras de gente como Luís Fernando Veríssimo e Armando Nogueira, toda aquela torcida, simplesmente, não existe. Atleticano é o torcedor do Galo e Atlético ou é Mineiro ou é Ferroviário.

Por mais campeão brasileiro que o Atlético Paranaense tenha sido, para eles, nós não somos nada. A estrela dourada? Não existe! Oitenta anos de História? Nada consta! Melhor estádio do Brasil? Nada! Para eles nós não temos significado.

E o que mais me revolta é saber que um grupo paranaense poderia mudar isso de uma vez por todas, e não muda e, convenhamos: esperar a decisão de uma viúva pouco versada em futebol é tempo demais! O que mais me revolta é perceber que quando um paranaense pode exaltar o outro, simplesmente, o ignora.

Talvez isso seja autofagia (s.f. Nutrição à custa da própria carne ou substância), talvez seja desinteresse (s.m. Falta de comprometimento, alheamento), quem sabe pusilanimidade (s.f. Fraqueza de ânimo, covardia), mas eu chamo mesmo é de sacanagem (s.f. Tapeação, velhacaria, falsidade). E saber que eu encontrei tudo isso no dicionário, só não encontrei o que realmente me interessa…

De médico e louco todo mundo tem um pouco. Meu lado médico anda preocupado com o meu lado louco. Meu lado médico diz que é loucura querer ver o nome do time dentro do dicionário, diz que é loucura querer consertar o mundo. Mas o médico que há em mim não estudou Psiquiatria e por isso meu lado louco nunca há de ser curado (e nem calado).

Eu ainda coloco o Clube Atlético Paranaense dentro daquele dicionário e ainda vou levar para dentro dele todos nós atleticanos.

Todos nós Rubro-Negros nascidos em Curitiba, nascidos no Paraná, ou mesmo em Minas Gerais, todos nós Rubro-Negros médicos, loucos, ferroviários, advogados, bruxos, padres, santos, demônios, todos nós atleticanos paranaenses, com muito orgulho e muito amor.



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