17 out 2004 - 20h28

Veja publica reportagem sobre Washington

A Revista Veja desta semana (edição n° 1876 – capa Os Intocáveis) circula em todo o país com uma reportagem de duas páginas sobre o atacante Washington, do Atlético. A matéria trata da luta que o jogador enfrentou desde que descobriu que sofria de diabetes, em 1996, passando pelas duas cirurgias cardíacas realizadas nos últimos anos.

A matéria, assinada pelo jornalista André Rizek, explica como foi o procedimento de implantou de stents realizada pelo médico Constantino Costantini. Confira a íntegra:

Coração valente
Washington é o atual artilheiro do Campeonato Brasileiro. Mas sua maior proeza é jogar com três stents no peito

André Rizek

O jogador Washington Stecanela Cerqueira, 29 anos, centroavante do Atlético Paranaense, comemora seus gols batendo a mão no lado esquerdo do peito. O gesto – que ele repetiu 25 vezes até agora no Campeonato Brasileiro – não é gratuito. Em 1996, quando jogava no Caxias, no Rio Grande do Sul, Washington descobriu que sofria de diabetes, um dos principais fatores de risco para distúrbios cardíacos. Seis anos mais tarde, um exame de rotina detectou a obstrução quase total de uma das artérias do seu coração. Diante do diagnóstico, os médicos lhe deram um veredicto arrasador: aos 27 anos, sua carreira como atleta estava encerrada. E pior: ele poderia sofrer um infarto a qualquer momento.

Na época, Washington jogava na Turquia, contratado pelo Fenerbahce. Uma angioplastia realizada em Istambul implantou-lhe um stent no coração e salvou sua vida – mas não seu contrato. O clube turco deu o caso como perdido e simplesmente deixou de pagar-lhe o salário. Washington voltou ao Brasil e, disposto a tudo para poder voltar a jogar, firmou um acordo com o Atlético Paranaense: treinaria seis meses sem receber salário e, durante esse período, se submeteria a uma bateria de testes a ser analisada por uma junta de cardiologistas. O parecer dos especialistas definiria se ele seria ou não contratado. Os primeiros resultados foram desoladores: seis meses depois da angioplastia, não só a artéria que havia recebido o stent estava de novo quase obstruída como um outro vaso cardíaco agora apresentava o mesmo problema. "Washington teve uma crise de choro. E nós, médicos, choramos com ele", diz o cardiologista do atleta, Constantino Constantini. A única chance do jogador, concordavam os especialistas, estava na implantação de novos stents, dessa vez recobertos com uma substância chamada rapamicina.

O stent é uma estrutura metálica minúscula (os que Washington recebeu têm 14 milímetros de comprimento por 4 de diâmetro). Ele é implantado na artéria coronária obstruída por intermédio de um cateter, introduzido pela virilha do paciente. Sua função é dilatar a artéria, segurando a placa gordurosa contra suas paredes, para que o sangue volte a circular sem empecilhos. Desenvolvida há dez anos, a técnica de desobstrução arterial com stent logo mostrou um problema: observou-se que em 20% dos pacientes, depois de seis meses, as artérias que haviam recebido um stent voltavam a se obstruir, por causa de um processo de cicatrização mais intenso, comparável ao da formação de quelóides na pele. A grande revolução nesse tipo de procedimento se deu menos de cinco anos atrás. A "molinha" do stent foi recoberta por rapamicina. Desenvolvido inicialmente para ser um antibiótico, o composto é liberado aos poucos no organismo e se mostrou bastante eficaz contra a formação de novos entupimentos. Graças à rapamicina, as taxas de reobstrução arterial foram reduzidas a menos de 5% dos casos. Dois stents com essa substância foram colocados no coração de Washington em julho de 2003. Depois de uma infinidade de testes, ele foi finalmente liberado para jogar. Antes, teve de assinar um termo de compromisso em que afirmava ter ciência dos riscos que corria, entre os quais o de ter morte súbita em campo – uma ocorrência não tão incomum. Em 2003, o camaronês Marc-Vivien Foe caiu fulminado por um infarto durante a Copa das Confederações. Neste ano, em Portugal, aconteceu o mesmo com o húngaro Miklos Feher, do Benfica.

A volta de Washington aos gramados ocorreu em fevereiro último, contra o Paraná – e, ao menos para os dirigentes do Atlético Paranaense, não foi exatamente um momento de descontração. Além do cardiologista Constantini e de dois médicos do time, munidos de um desfibrilador, o clube colocou em campo um especialista em procedimentos de entubação e reanimação disfarçado de repórter. A idéia era estar preparado para o pior, mas sem apavorar o jogador. Na estréia, Washington fez o gol da vitória e não parou mais de marcar. Hoje, é o artilheiro do campeonato nacional. Com 1,89 metro e 88 quilos, ele é considerado um "centroavante trombador", para usar o jargão futebolístico. Com média de 0,92 gol por partida, tem chance de bater o recorde de gols marcados num Campeonato Brasileiro. A marca pertence ao centroavante Dimba, com 31 gols. Por obrigação contratual, Washington submete-se a exames periódicos. Em dezembro, quando vence o seu contrato com o Atlético Paranaense, deverá fazer um cateterismo que atestará se está apto para continuar jogando no ano que vem. Ele aposta que estará. E, valente, afirma: "Ainda vou jogar de novo na Europa".



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