30 jan 2006 - 15h25

Alemão na área

Uma das características mais marcantes da história do Clube Atlético Paranaense, e que tanto orgulha sua gente, é o espírito democrático. A tradição de aproximar pessoas tão diferentes em torno do mesmo ideal foi iniciada logo na fundação. A junção de forças entre o Internacional e o América é prova inequívoca de que o novo clube estaria fadado a promover união e a ser objeto da paixão de todo o tipo de torcedor.

O espírito democrático, de não cometer nenhuma rejeição por origem, credo ou raça, está nas raízes atleticanas. Em 1912, Joaquim Américo liderou um grupo que fundou o Internacional Foot-Ball Club. O próprio nome já era um recado: este seria o clube que estaria de portas abertas a todos os curitibanos, paranaenses e estrangeiros. Era uma evidente oposição ao Coritiba, surgido alguns anos antes e restrito à comunidade alemã.

Não se pode negar que o clube mais alemão da cidade é o Coritiba. Mas o Atlético é o mais democrático: agrega italianos, poloneses, ucranianos, portugueses, árabes, austríacos, suíços, russos, holandeses, franceses, espanhóis, e até alemães.

É isso mesmo: a torcida atleticana é grande e fanática mesmo entre os descendentes de alemães. E a história do clube foi construída com a colaboração de muitos deles. Por isso, o técnico Lothar Matthäus não se sentirá um estranho no ninho. A torcida atleticana está de braços abertos para recebê-lo e esperançosa que ele grave seu nome como o fizeram diversos rubro-negros de origem germânica.

Os alemães no Atlético

Dezenas de pessoas de origem alemã foram de fundamental importância ao Clube Atlético Paranaense ao longo de seus 82 anos, seja na função de dirigentes, jogadores ou torcedores. Para contar essa história, tivemos de escolher alguns personagens. Aqueles que, por uma razão ou outra, representam um elo entre o Furacão e a Alemanha.

Os primeiros descendentes de alemães a tomarem parte do Atlético são oriundos do Internacional. Os irmãos Mäder (Candido, Erasmo, Hugo e Othon) praticaram futebol na Baixada. Hugo foi o primeiro secretário do alvinegro. Erasmo integrou a primeira diretoria do Atlético. Anos mais tarde, tanto Erasmo quanto Candido foram presidentes do Rubro-Negro.

A família Mäder é originária da Suíça, de uma cidade chamada Schaffhausen, que fica no norte do país e faz fronteira com a Alemanha. A cidade fez parte do Império Austro-Húngaro e por isso, a influência germânica é marcante – a tal ponto de a língua alemã ser a praticada na localidade. Mesmo com forte tradição alemã, os irmãos Mäder não simpatizaram com o Coritiba, que reunia os ex-participantes do Clube de Ginástica Teuto-Brasileiro. Por isso, escolheram o Atlético e foram recebidos de braços abertos – sem qualquer restrição por sua origem.

Tão impressionante quanto à acolhida dos Mäder é a história de José Gustavo de Macedo Seiler. Descendente de alemães, José Gustavo era filho de João Vianna Seiler, fundador e primeiro presidente do Coritiba. Mas a pressão do pai não foi suficiente para cooptar José Gustavo. Desde cedo, seu coração bateu mais forte pelo Atlético. Jogou nos médios (denominação de então para os juniores) entre 1935 e 1937. Seu apelido como atleta era "Alemão", para evitar o desgosto do pai de ver estampado o nome Seiler ligado ao Rubro-Negro. José Gustavo Seiler foi ainda médico do Atlético por vários anos e conselheiro do clube na gestão de João Alfredo Silva. Morreu em 1997, aos 84 anos, com a honra de ter o caixão coberto por uma bandeira rubro-negra.

Paulo Rink: revelado pelo Atlético e com passagem pela seleção alemã [foto: arquivo]

Mais recentemente, outro "alemão" brilhou com a camisa atleticana. Paulo Roberto Rink, nascido em Curitiba e atleticano desde criancinha, foi um dos principais ídolos da torcida e ajudou o clube a conquistar o título da segunda divisão do Campeonato Brasileiro em 1995. Depois, foi negociado com o Bayer Leverkusen e se naturalizou alemão, resgatando as tradições da família Rink. Orgulho ainda maior, tornou-se o primeiro brasileiro nato a vestir a camisa da seleção alemã – jogando inclusive ao lado do lendário Lothar Matthäus.

Dentre os dirigentes, o Atlético teve ainda outros dois presidentes cujos sobrenomes têm origem alemã: o belga Carlos Zehnpfennig, na década de 60, e Valmor Zimermann, na década de 80.

Os clubes alemães

A influência germânica em Curitiba não se deu apenas no comércio ou nas atividades de profissionais liberais. Os descendentes fundaram diversos clubes sociais para a prática de diversas atividades durante o tempo livre e como medida de preservação cultural. Muitas dessas entidades existem até hoje, como o Clube Concórdia, Graciosa Country Club, Sociedade Duque de Caxias, Clube Rio Branco e Sociedade Thalia, entre outros.

O Concórdia é um dos clubes que ainda mantêm a tradição germânica entre as suas práticas. O clube foi fundado em 1869 com o nome de "Verein Deutscher Sängerbund" ("Associação Alemã de Cantores"). Ou seja, tratava-se de uma sociedade eminentemente dedicada à música e às artes. Ao longo dos anos, o clube foi incorporando diversas outras associações e diversificando suas práticas. No final da década de 30, os alemães foram proibidos de participar da diretoria de clubes em todo o Brasil e o "Verein Deutscher Sängerbund" mudou de nome para Clube Concórdia.

Em 1942, durante a II Guerra Mundial, o clube foi tomado de seus sócios e foi administrado pela Cruz Vermelha e pela Liga de Defesa Nacional. Em junho de 1945, o interventor Manoel Ribas decretou a transferência do Clube Concórdia ao Clube Atlético Paranaense. Durante cerca de seis meses, o Rubro-Negro ocupou a sede central do Concórdia, na Rua Carlos Cavalcanti. Ao final do ano, e com o fim da Guerra, o patrimônio foi devolvido aos sócios.

Matthäus: apreciador da famosa festa do chopp de Munique [foto: arquivo]

Além dessa ligação histórica com o Atlético, o Concórdia se orgulha ainda de outro feito: foi na sede do clube que foi realizada a primeira Oktoberfest do Brasil. Inspirados na tradicional festa do chopp de Munique, os diretores do Concórdia resolveram promover um evento parecido em 1961. De lá para cá, a festa se popularizou no Brasil e hoje é realizada em diversas cidades, como Blumenau, Rolândia e Ponta Grossa.

Atualmente, o Concórdia possui cerca de 800 sócios. "Diria que metade do nosso quadro de sócios é de descendentes alemães. Houve tanta mistura no Brasil que o clube deixou de ser apenas dos alemães", conta o atual presidente do Concórdia, Claudio Luiz Mäder, neto de Othon e sobrinho-neto de Candido e Erasmo, ex-presidentes do Atlético. "Pouca gente fala a língua alemã, mas fazemos questão de manter a tradição. O clube tem um grupo folclórico e realizamos as tradicionais festa da cerveja em outubro e da colheita em agosto", completa Mäder.

Ainda não houve nenhuma reunião da diretoria do Clube Concórdia neste ano, razão pela qual não foi discutida alguma recepção especial para a chegada do ilustre Lothar Matthäus. Porém,o presidente garante que o alemão será bem acolhido pela colônia. "Vamos preparar alguma coisa e convidá-lo para alguma festa. Não vai ser igual às festas que ele freqüenta na Alemanha, mas alguma coisa vai fazê-lo lembrar da terra", promete Mäder.

Serviço
Clube Concórdia
Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 815
Restaurante aberto diariamente para almoço e jantar
Aluguel de salão para eventos e festas com capacidade para 900 pessoas
Telefone: (41) 3222-8685

Créditos
Reportagem e edição: Marçal Justen Neto e Sérgio Tavares Filho



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