16 fev 2007 - 11h31

O exemplo de Nílson Borges

São quase quarenta anos de dedicação ao Atlético. É essa apresentação que podemos fazer de Nílson Borges, que nesta sexta-feira, dia 16 de fevereiro, comemora 66 anos de idade. Falar da vida de Nilson Borges sem mencionar o Clube Atlético Paranaense é missão impossível. Afinal, a história do Atlético se confunde com Nílson Borges, e a história de Nílson Borges se confunde com o Furacão.

Em todos esses anos de dedicação ao clube, Nilson Borges já passou por diferentes funções. Chegou no Atlético em 1968, vindo do Corinthians, para se consagrar um dos melhores pontas-esquerda da história atleticana, ídolo da torcida rubro-negra. No Atlético, Nilson foi campeão paranaense em 1970, conquista considerada como "o título da raça" na história do clube. "Antes de acabar o jogo, lá em Paranaguá, a torcida invadiu e nós pedindo pelo amor de Deus para eles saírem do campo. Nosso medo era que eles anulassem o jogo, porque o Coritiba mandava na Federação. Quando terminou o jogo, eu fiquei só de sunga. Nós viemos de Paranaguá até aqui em uma carreata que eu nunca vi igual. Daí viemos desfilar na Rua XV e tinha os coxas protestando. É uma das coisas que a gente nunca esquece", lembra Nílson.

Quando abandonou as chuteiras, em 1974, passou por diversos cargos dentro do clube, de auxiliar técnico a observador. Hoje, Nílson Borges se considera um torcedor do Atlético dentro da comissão técnica do clube. Mais do que um torcedor, ele é um exemplo para todos que vivem o dia-a-dia do Atlético, seja torcedor, atleta, dirigente ou outro profissional. Exemplo de raça, amor e dedicação às cores do Clube Atlético.

Como presente de aniversário, Nílson Borges fez um pedido à torcida do Atlético: paz. "Paz no estádio, sem briga, sem guerra. Paz entre os torcedores e paz para o time do Atlético", disse.

Confira a entrevista exclusiva que a Furacao.com fez com Nilson Borges no Slaviero Braz Hotel. Ele contou um pouco da sua época de jogador do clube, relembrou os momentos de transformação que o Atlético passou nos últimos anos e revelou seu trabalho como auxiliar técnico, durante a semana, nos treinamentos do time, e na hora do jogo. Boa leitura!

Você veio para passar seis meses no Atlético e já está aqui há quase quarenta anos. Já parou para fazer um balanço de tudo o que aconteceu neste tempo?
Eu acho que a coisa mais certa que eu fiz na vida foi sair do Corinthians e vir para o Atlético. Eu não queria vir. Naquela época, o Paraná era longe, o futebol daqui não tinha repercussão nacional. Minha mulher estava grávida, eu não queria vir de jeito nenhum. Daí foram conversar comigo o Cireno, o Jackson e o Lanzoninho. Os três apareceram na minha casa, conversaram comigo e um deles me disse: "Pense, converse com a sua esposa e depois você vai no hotel falar com o presidente Jofre". Eu conversei com a minha mulher e resolvi: vou pedir para não ir. Então, eu fui ao hotel e fiz uma proposta boa, para a época. Ele (Jofre Cabral e Silva, presidente do Atlético) nem piscou. Respondeu no ato: você pode ir amanhã? Fiquei surpreso, mas acabei acertendo para ir na semana seguinte. E eu vim para cá e só arrumei amigos aqui em Curitiba. Até hoje eu agradeço a Deus por ter vindo. Para mim, foi uma coisa espetacular que aconteceu na minha vida. Tenho minhas filhas, meus netos, todos nascidos aqui. Então, estou feliz da vida e alegre pela consideração que o Atlético teve comigo até hoje. É um time que eu gosto, que eu adoro, virei atleticano doente.

Qual foi a maior alegria que você já teve no Atlético?
Como jogador, foi ganhar do Coritiba de 4 a 3, depois de estar perdendo por 2 a 0, em 1971. Como funcionário, até hoje estou esperando uma alegria maior. Fui campeão como auxiliar diversas vezes. A gente que está no meio já não é mais um auxiliar, eu já sou como um torcedor. Já vou nervoso, quero ver o time ganhar. Eu penso como torcedor.

Esse sentimento de ser o torcedor dentro do clube é a sua maior motivação para continuar trabalhando no Atlético?
Sem dúvida. Isso, como a gente diz, é uma cachaça que é difícil de ser largada (risos). Agora, 16 de fevereiro, eu faço 66 anos. Já está na hora de eu dar uma parada, mas não tem jeito. Quando você está no meio, é difícil abandonar de vez.

Você parou de jogar e continuou trabalhando no Atlético. Que funções você já exerceu no clube?
Fui técnico do infantil, juvenil, júnior, aspirante e do profissional. Quando caía um treinador, eu assumia como interino. Hoje, pela minha idade, eu já estou meio sossegado, quero mais tranqüilidade. Mas ser jogador, sem dúvida, foi a função que eu mais gostei. Quando a gente pára de jogar, a gente ainda sonha que estava jogando. Você fica com aquilo na cabeça, fica pensando na bola.

"Eu penso como torcedor" [foto: FURACAO.COM]


Nós sabemos que você trabalha como auxiliar técnico, mas qual é exatamente a sua função, seu dia-a-dia no Atlético?
De vez em quando eu ainda vou ver um jogo, observar algum adversário. Hoje eu estou no time B, auxiliando o Ivo (Secchi, técnico do Atlético B). Ele não conhecia a maioria dos jogadores e, como eu conhecia bem, ele me pediu para o orientar. Eu faço um trabalho específico com alguns jogadores, mas ele é quem passa os treinos. Ele conversa comigo em dia de jogo e a gente troca idéias sobre os jogadores e o time.

Onde você costuma assistir aos jogos?
Eu fico lá em cima, junto com a comissão técnica, num camarote que tem lá no cantinho (na Kyocera Arena). Hoje quem passa as orientações ao treinador lá no gramado é o Gersinho, que é o porta-voz de todos que estão lá em cima. A gente fica ali discutindo o sistema de jogo, dando sugestões ao técnico. Inclusive ficamos nervosos quanto a coisa não está boa.

A torcida tem influência no trabalho de vocês durante os jogos?
A torcida influencia, lógico. Às vezes a gente dá uma opinião em que muitas vezes é levada em conta a opinião do torcedor. Mas a decisão sempre é do técnico, se o treinador aceitar, tudo bem, porque é o dele que está ardendo (risos).

E para o jogador, a torcida também tem um grande poder de influência? Como você avalia a relação atleta-torcida da sua época até hoje?
Mudou o ambiente da torcida com o clube. Na minha época de jogador, o estádio era aberto e ia muita gente ver treino. Com o CT, fica difícil. Quando a Fanáticos vai com vontade, com bateria, ela sente o calor. Mexe com o jogador. A torcida do Atlético sempre foi quente. É gostoso, você jogando e a massa te empurrando. Isso ajuda. Você está quase morrendo, e vai mais um pouco.

Com a sua experiência de jogador e também de fora das quatro linhas, pode nos dizer se adianta ficar gritando com o jogador o tempo todo, à beira do gramado?
O Felipão é um técnico que grita e se deu bem. E tem treinador que fica quieto e também se dá bem. Isso depende muito. Gritar muito com o jogador não é bom negócio, porque tem jogador que se preocupa, que fica incomodado com essa cobrança exagerada.

Quando você está de folga, costuma ir a estádios de futebol, a acompanhar futebol pela televisão ou se desliga completamente?
Eu quero ficar em casa, tranqüilo, sossegado, meus netos me perturbando, é bem melhor. Ir ao estádio sem estar trabalhando faz muito tempo que eu não vou. Já estou saturado. Às vezes na televisão, assistindo aos jogos, eu até mudo de canal. Você vê cada joguinho que é triste. Acho que você tem de ter um incentivo para ver futebol. Agora, quando é o meu time, quando é o Atlético, aí eu vou, eu não perco um jogo.

No seu dia-a-dia, as pessoas o reconhecem como atleticano?
Principalmente os mais velhos. A moçada de hoje, poucos me conhecem. Mas hoje mesmo, vindo para cá (Slaviero Braz Hotel, local da entrevista), eu encontrei quatro ou cinco torcedores mais antigos na Rua XV e começamos a conversar, lembrar do tempo que eu jogava. Isso é gostoso, ser lembrado e reconhecido pelo que a gente fez.

Desse seus anos todos dedicados ao Rubro-Negro, quem é a pessoa de quem você mais sente falta no Atlético?
Eu tenho um grande amigo em Curitiba que é o Sicupira. É uma pessoa que eu gosto muito, tenho uma grande amizade com ele. Ele sempre me deu força, mesmo quando eu parei de jogar.

"A torcida do Atlético sempre foi quente" [foto: arquivo]


Fazendo uma retrospectiva do Atlético que você conheceu, em 1968, até os dias de hoje, a que fatores você credita toda essa mudança que ocorreu no clube?
Principalmente a estrutura. E a gente tem o que falar no Dr. Mario Celso Petraglia. Ele acreditou no que ia fazer e fez. Se vocês soubessem o que eu passei no Atlético quando eu vim pra cá…Com o Jofre foram três meses bem, mas depois que ele morreu a coisa ficou difícil. Passamos por uma fase muito ruim. Melhorou quando o Valmor (Zimermann, presidente entre 84 e 85 e 88 e 89) veio, quando o Lück (Antônio Sérgio Guimarães Lück, presidente entre 78 e 81) assumiu. Fora isso, houve épocas muito difíceis. Aí eu lembro até hoje quando perdemos por 5 a 1 do Coritiba, em 1995. O Dr. Petraglia perguntou: "Nilson, o que é isso?" E nesse dia, ele assumiu. Limpou a área e tomou conta. E hoje o Atlético é isso. Um clube em que o jogador se sente bem no CT.

O que você ainda espera do Atlético e do futebol?
Espero que o Atlético seja campeão mais umas tantas vezes, até eu embarcar. A minha alegria vai ser essa. A gente espera que tudo corra bem, continue correndo bem como está indo, com essa diretoria dando apoio para jogadores e funcionários.

Muitas vezes os torcedores se irritam com os erros cometidos pelos jogadores durante as partidas, reclamando que o sujeito tem a semana inteira pra treinar, ganha bem para isso, mas não acerta no jogo. Por que isso acontece? É falta de dedicação nos treinamentos?
Falta de treinar não pode ser porque se treina todo dia. Agora, acontece muitas vezes coisas que o torcedor lá em cima não percebe. Às vezes você vai bater na bola e ela da um quique e você erra o passe. Outras vezes vezes, é um jogador mal trabalhado na base, que não tem fundamento. Então, chega nessa hora e se complica. Na hora de bater na bola, não é todo mundo que bate direito. Mas em boa parte das vezes é a má qualidade do campo mesmo.

É possível ensinar fundamentos a jogadores que estão no profissional ou é perda de tempo?
Não, qualidade ele tem de ter. Não é qualquer um que vai conseguir aprender. Quando o garoto chega e tem alguma coisa, eles estão crus, você tem de aprimorar aquilo e isso ajuda bastante. É o que o Atlético tem feito em suas categorias de base.

Nós temos acompanhado que desde o ano passado o Atlético tem sofrido muitos gols em jogadas de bolas alçadas na área. Por que isso acontece? Não é possível encontrar uma solução para este problema?
Quando o Antônio Lopes esteve aqui, ele ficava fazendo esses treinamentos uma hora e meia. Ele botava a bola no escanteio e cruzava, sem parar. Os caras ficavam com a cabeça inchada de tanto cabecear. Chegava no jogo e levava gol de cabeça. Você vai falar o que? Faltou treino? Treinar, treinou. E está acontecendo agora de novo, com o time B. Treina, treina, treina e continua tomando gol de cabeça. O goleiro fala, o Gustavo fala, mas chega na hora do jogo, eu não sei o que acontece.

Tem algum jogador do time B que você destacaria como talento em potencial?
Esse guri, o Rogerinho. Ele leva jeito, sabe driblar, sabe sair da porrada. Pode ver que ele não se machuca. Só que ele é muito fraquinho, tem de pegar mais massa. Mas é uma boa promessa.



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