15 maio 2007 - 0h05

O maior público do futebol paranaense

Na tarde de domingo, 15 de maio de 1983, 67.391 pessoas se espremeram nas arquibancadas do estádio Couto Pereira para a semifinal do Campeonato Brasileiro daquele ano. O público pagante foi de 65.491 pessoas (renda de Cr$ 51.707.460,00, maior arrecadação até então do futebol paranaense). A presença de torcida é recorde até hoje no futebol do Paraná.

E diante do maior público já presente em um campo de futebol no estado, o Atlético deu um show. Venceu o Flamengo de Zico e por um gol não chegou à então inédita final do Campeonato Brasileiro de 1983. As histórias de emoção, angústia, expectativa, alegrias e apreensão que nortearam aqueles 90 minutos de jogo entre Atlético e Flamengo foram relatadas por torcedores que estavam no estádio naquele domingo, engrossaram a torcida atleticana rumo à vitória. São testemunhas oculares da história, pessoas que melhor do que ninguém podem contar como foi aquele Atlético 2 x 0 Flamengo, em 15 de maio de 1983.

Para alguns, jogar contra o Flamengo e seu time de craques era um sonho. “Um time que para mim era somente de álbum das figurinhas que eu colecionava: Zico, Júnior, Raul”, afirmou o atleticano Julio Cesar Ferreira Santos. Para outros, aquela memorável partida no Couto Pereira significou a estréia em estádio de futebol, uma estréia em grande estilo, com tons de magia. O engenheiro civil Guido Campêlo, que foi nas duas partidas, no Maracanã e no Couto Pereira, lembra do erro do árbitro no primeiro jogo, que decretou a eliminação atleticana: “O primeiro jogo, no Maracanã, o Flamengo ganhou de 3 a 0. O último gol foi um pênalti inventado pelo juiz e foi determinante para não irmos à final já naquele ano.”

A presença em grande número dos torcedores causou situações inusitadas nas arquibancadas. “Tinha tanta gente que os filhos sentavam no colo dos pais. Todo mundo ficou espremido entre os caras do lado. Não havia espaço para ninguém mais. Não dava para levantar e ir comprar algo ou até para ir no banheiro. Quem se movesse do lugar provavelmente teria que assistir o resto do jogo em pé e em algum lugar com pouca visibilidade”, relembra o atleticano Sergio Surugi Siqueira. “Quando começou o jogo, a cada lance perigoso do Atlético, os torcedores se levantavam para ver melhor o lance e atrás deles todos iam fazendo a mesma coisa. Ou seja, não deu para ver o jogo sentado porque só dava Atlético!”, lembra Oilson Henning.

Ao final dos 90 minutos de jogo, o torcedor reconheceu a brilhante campanha atleticana e aplaudiu os heróis vestidos em vermelho-e-preto. “No fim, a torcida aplaudiu durante um longo tempo e senti uma espécie de sensação de dever cumprido e de que um dia chegaríamos lá. Chorei um misto de alegria e tristeza, um misto de emoção e deslumbramento. Choro ainda hoje quando lembro que minha história de vida se confunde com as lembranças do Atlético. Mas é um choro bom”, afirma o torcedor Eduardo Vieira.

Para relembrar essa memorável partida entre Atlético e Flamengo, a Furacao.com divulga oito relatos de atleticanos que estavam no Couto Pereira naquele domingo de maio de 1983. São oito personagens que se juntaram a outras 67.383 pessoas que protagonizaram, junto com os 22 jogadores dentro de campo, um dos maiores jogos da história do futebol paranaense. Vale a pena relembrar as emoções daquela partida.

“Foi um dos melhores jogos que assisti e de pé, na arquibancada dos fundos, pois não havia lugar para sentar tal o volume de pessoas. Jogavam no Atlético (alguns que me lembro): Washington, Assis, Capitão e o goleiro Roberto (Mão de Anjo). Jogavam no Flamengo: Raul Plasmann (que começou sua carreira no Juvenil do Atlético, onde eu jogava), Zico; Adilio; Nunes. No primeiro tempo o Furacão já ganhava de 2 a 0, ainda que tivesse que fazer uma diferença de 3 gols para seguir adiante. Logo em seguida o jogador Capitão perdeu um gol feito para o CAP, podendo aí ter feito a diferença. No 1° tempo houve uma defesa antológica do Roberto num chute a queima roupa do Zico.” – Carlos Roberto Antunes dos Santos

“Foi num domingo, 15 de maio, acordei e fui almoçar bem cedo no Juventus para podermos pegar a churrasqueira. Depois fomos ao jogo. Fui com o Clé (meu melhor amigo) e com o pai dele. Tinha um mar de gente, o maior público em todos os tempos de Couto Pereira, número que nunca mais será batido. De um lado o Atlético de Roberto Costa, Bianchi, Sérgio Moura, Capitão, Lino, Washington e Assis, entre outros. Do outro lado, um time que para mim era somente de álbum das figurinhas que eu colecionava: Zico, Júnior, Raul… Precisávamos ganhar de 3 a 0 e com poucos minutos aconteceu o inusitado, 2 a 0 Atlético. Depois não sabemos. Talvez por mais uma teoria da conspiração, talvez por não ser nossa hora, não marcamos mais e o Flamengo fez a final com o Santos. Eu tinha só 8 anos, mas isso é algo que eu nunca mais vou esquecer.” – Julio Cesar Ferreira Santos

“Eu tinha 9 anos naquela época. Foi a primeira vez que entrei num estádio de futebol. Foi mágico. O Couto Pereira estava lotado – 67 mil pessoas, maior público da história do futebol paranaense. A maioria daqueles pagantes era gente muito simples, muito humilde. Para eles, derrotar o Flamengo de Zico era um sonho. Para mim também. Foi lindo ver os cariocas arrogantes levarem uma surra daquele brilhante escrete atleticano.Não lembro muito do jogo, mas sei que demos um baile nos caras. A única cena triste ocorreu bem perto de mim. Um torcedor irado, que estava perto de mim, atirou uma garrafa de Caracu na cabeça do Baltazar. O meu pai ainda disse: "Putz! O Baltazar tá com um baita azar!". Não dava para saber se o torcedor era atleticano ou flamenguista, porque havia torcedores dos dois clubes espalhados em todos os setores do estádio. Bem ao meu lado, por exemplo, estava um urubuzinho. Mas o cheiro dele nem me atrapalhou, porque estava vivendo um sonho de 90 minutos.” – Silvio Rauth Filho

“Lembro bem daquele jogo, lógico que eu era um dos torcedores que estava no Couto naquele dia… Algumas coisas me marcaram nesse dia. É até hoje recorde de público no campo deles. O Washington (o antigo), fez dois gols, ainda no primeiro tempo. O Capitão perdeu um outro na cara do Raul. No primeiro tempo, o ritmo de jogo era intenso, o que inexplicavelmente não aconteceu no segundo tempo. A torcida já mostrava a sua força naquele tempo, o show foi impressionante e o primeiro tempo, como falei, foi um massacre, o Flamengo praticamente não jogou.” – Guido Campelo

“O jogo em si não foi muito diferente do que se esperava. O Atlético precisava ganhar de 3 a 0 e fez dois gols no primeiro tempo. No segundo gol, o pinga mijo tremia tanto que eu cheguei a ficar com vertigem. Estava com um amigo meu que estudava Engenharia Civil e ele nos deixou tranqüilos dizendo que não ia cair. No segundo tempo o Atlético diminuiu o ritmo e o gol da Libertadores não saiu, apesar de pelo menos uma chance importante de gol. Fora o jogo, teve o espetáculo do público. Tinha tanta gente que os filhos sentavam no colo dos pais. Todo mundo ficou espremido entre os caras do lado. Não havia espaço para ninguém mais. Não dava para levantar e ir comprar algo ou até para ir no banheiro. Quem se movesse do lugar provavelmente teria que assistir o resto do jogo de pé e em algum lugar com pouca visibilidade. Também houve muita coisa interessante antes e depois do jogo. Antes, o diretor de futebol do CAP, Joãzinho de Oliveira Franco, que era dono de um banco em Curitiba, obrigou todas as funcionárias, incluindo as caixas, a atenderem com a camisa do Atlético. Depois, já na calada da noite do domingo, o atacante Washington, que tinha perdido o terceiro gol, destruiu o seu carro, um Gol por sinal, quando perdeu a direção sozinho e entrou na vitrine de uma loja de luminárias que ficava na esquina da Brigadeiro Franco com a Emiliano Perneta.” – Sergio Surugi Siqueira

“Em 1983, Atlético e Flamengo realizaram um grande jogo para o maior público que o estádio Couto Pereira já recebeu. Eu também estava lá. Era a semifinal do Campeonato Brasileiro, de um lado Zico, Júnior e cia. e do nosso lado Roberto Costa, Nivaldo e o conhecido Casal 20 Assis e Washington. Precisávamos fazer três gols de diferença, terminamos o primeiro tempo com 2 a 0. No segundo tempo, as chances de gols diminuíram e não conseguimos marcar o terceiro gol. Acabava para o Atlético mais um Campeonato Brasileiro, mas com a certeza do dever "quase cumprido", pois sabíamos que tínhamos um time capaz de ser Campeão Brasileiro daquele ano.” – Alexandre Martins

“Naquele dia eu também estava lá. Lembro que na partida de ida o Atlético perdeu no Rio de Janeiro por um placar de 3 a 0, por pura bobeira, mas como tinha melhor campanha, um resultado igual o levaria às finais. A torcida atleticana acreditava tranqüilamente que poderia passar pelo Flamengo, sabia que era o melhor time. Por isso a expectativa era de grande público e então resolvemos chegar um pouco mais cedo. O tempo estava muito bom, sol e céu claro. Ao chegarmos, a fila nas bilheterias indicavam que o público seria bem maior. A ansiedade de entrar logo e conseguir um bom lugar foi o determinante para atender aos apelos do cambista, que gritava: “É sem fila!!!! – É sem Fila!!!”. Entramos e subimos no primeiro anel, próximos à torcida uniformizada. Quando começou o jogo, a cada lance perigoso do Atlético, os torcedores se levantavam para ver melhor o lance e atrás deles todos iam fazendo a mesma coisa. Ou seja, não deu para ver o jogo sentado porque só dava Atlético! A torcida organizada, que estava atrás, nos degraus próximos a nós, começou jogar sacos de pó-de-arroz, ora para comemorar algum lance espetacular, ora para fazer com que a torcida em frente se sentasse novamente. No primeiro tempo o Atlético já vencia por 2 a 0 e dava um banho de bola naquele time que tinha Junior e "um tal de Zico". O Atlético pressionou bastante no segundo tempo, com Washington e Assis, mas o terceiro gol não veio e encerrou ali a até então melhor campanha do Furacão em campeonatos brasileiros. De qualquer forma, o Furacão mostrou para o Brasil a sua força e arrasou o timão de Zico & Cia..” – Oilson Henning

“Fui ao jogo, claro. Estádio lotado. Não havia espaço para mais ninguém. Recorde que até hoje aborrece os coxas e os aborrecerá pela eternidade, pois o Erasmo Tremendão Carlos (Couto Pereira) foi redimensionado. E, mesmo que não fosse, entrou mais gente do que o bom senso e a segurança poderiam admitir. Portanto, o recorde é nosso e ninguém tasca. Eu era um piá, mas com um filho recém-nascido, que agora é um adulto fanático pelo Furacão tanto quanto seu irmão mais novo. No ano anterior eu havia visto meu primeiro título in loco, com quase o mesmo time. Aliás, por conta do "quase" a história poderia ter sido outra. O meia Lino fez muita falta em 83. Cursava o primeiro ano de Engª Civil na UFPR, recém saído da escola Técnica Federal (ETF-PR), locais onde torcedores do CAP não eram maioria, mas já faziam um bom estrago. Doces memórias de um tempo difícil, de conquistas esporádicas e de viagens às cidades vizinhas para ver o Furacão. Voltemos ao jogo. Fiquei na curva do terceiro anel da Perpétuo Socorro, sentado no corredor, segurando-me no guarda-corpo, com os pés pendurados para fora. O "corredor" virou camarote. Não tinha mais lugar disponível em qualquer ponto que olhássemos. Cada degrau tinha três filas de torcedores. Simplesmente impensável. No lado oposto, nos fundos, ficara a torcida do Flamengo, amigos da rede da Globo e os porcos secadores. Dia de céu limpo e tempo quente e com torcida inflamada e irmanada. Todos sorriam, apesar do nervosismo. Primeiro tempo tenso, mas com o Atlético passeando em campo. Placar de 2 a 0 e muitas esperanças no coração sofrido. No segundo tempo, estranhamente o Atlético parecia administrar, apesar de precisar fazer mais um gol. Uma grande chance de gol perdida, que até hoje lamentamos. Lembro-me mais da emoção e do clima do que propriamente do jogo. Na torcida adversária, que no primeiro tempo torcera em sua totalidade para o Flamengo, parecia que teve grande parte "virando a casaca" e torcendo por nós. Prova de que o Flamengo possui simpatizantes e não torcedores. Na emoção, começaram a torcer pelo Furacão. Pena que havíamos sido operados no Rio de Janeiro e precisávamos devolver o placar de 3 a 0, porém sem ajuda do juiz. Difícil aceitar que o Flamengo, time que seria campeão brasileiro e mundial, precisou deste artifício para passar por nós. Mostra que na época tivemos um dos melhores times da história do futebol mundial. Enfim, faz tempo e este é implacável. Muitas lembranças se apagaram. Minha mulher viajara para o interior do estado e dissera-me que já naquela época a cidadezinha parou para nos ver na TV. No fim, a torcida aplaudiu durante um longo tempo e senti uma espécie de sensação de dever cumprido e de que um dia chegaríamos lá. Chorei um misto de alegria e tristeza, um misto de emoção e deslumbramento. Choro ainda hoje quando lembro que minha história de vida se confunde com as lembranças do Atlético. Mas é um choro bom.” – Eduardo Vieira



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