15 maio 2007 - 0h04

Por um golzinho

“Paraná hoje é todo Atlético”. A manchete do jornal Gazeta do Povo de 12 de maio de 1983 retrata o espírito que o futebol paranaense encarava o confronto pela semifinal do Campeonato Brasileiro daquele ano. Nesse dia, no Maracanã, começava a ser decidido um dos finalistas da competição. De um lado o poderoso Flamengo, que há poucos meses havia conquistado o título de Campeão do Mundo, com jogadores consagrados como Zico, Junior e Baltazar. Do outro o Atlético, que vinha surpreendendo o Brasil inteiro com um futebol contagiante, revelando craques como o goleiro Roberto Costa e a dupla de ataque Washington e Assis.

A campanha atleticana na competição era digna de reconhecimento nacional. A cada jogo decisivo, um novo recorde de público era decretado no estádio Couto Pereira, onde o clube mandava os seus jogos. Nas quartas-de-final, contra o São Paulo, a marca de 38.132 pagantes era a maior até então no estádio. E seria batida onze dias depois, numa semifinal eletrizante.

Quando superou o São Paulo nas quartas-de-final, com duas incontestáveis vitórias (2 a 1 em Curitiba e 1 a 0 no Morumbi), o Atlético mostrou que tinha condições de brigar pelo título. “Nós estamos tão emocionados e torcemos como ninguém pelo Atlético, que mostra toda a sua raça diante de tão valoroso adversário, o São Paulo. Olha, ganhar no Morumbi, com todo aquele público em cima, não é fácil. Demos uma demonstração de que o melhor futebol não está só no eixo Rio-São Paulo e muito menos em Minas ou Rio Grande do Sul. No Paraná também existe um clube que está sendo orgulho do Brasil”, disse o ex-goleiro e um dos maiores jogadores da história do Atlético, Caju.

Primeiro jogo: Maracanã, quinta-feira, 12 de maio

O primeiro jogo das semifinais foi disputado no Maracanã, numa quinta-feira, às 21h30. Empolgada e confiante, a torcida atleticana foi em grande número para o Rio de Janeiro acompanhar a partida. Mais de uma dezena de ônibus saíram em caravana de Curitiba e até um Boing foi fretado pelos torcedores, para ir ao Rio.

No Maracanã, entretanto, nem mesmo a torcida foi capaz de dar vida nova ao Atlético. Mais preocupado em não perder do que ganhar, o Furacão entrou em campo com uma postura mais defensiva. Sem poder contar com Assis, que cumpria suspensão, o time marcava sob pressão sem dar espaços à dupla Adílio e Zico. O bloqueio estava dando certo, sempre esbarrando nos zagueiros ou nas belas defesas de Roberto Costa. Mas, no final do primeiro tempo, Zico aproveitou a falha de Sotter e Flávio e abriu o marcador, para delírio dos mais de 100 mil flamenguistas presentes no estádio.

Logo nos primeiros minutos da etapa final, Vitor ampliou o marcador para o Flamengo. Aí o Atlético decidiu partir para o ataque, na busca de um gol que amenizaria a derrota. O que o time não contava era com um erro da arbitragem, que acabou decretando o destino de toda essa decisão. Aos 16 minutos, o árbitro Carlos Rosa Marins marcou um pênalti inexistente para o time carioca. O lance polêmico foi narrado pela Gazeta do Povo da época: “Sérgio Moura não chegou a obstruir faltosamente Robertinho. O avante do Flamengo tomou a dianteira e o lateral atleticano levou o braço sem a intenção de deslocá-lo. Robertinho foi para o solo e Carlos Rosa Marins deu o pênalti, que cobrado por Zico, foi convertido no terceiro gol”.

Os destaques do Atlético em campo foram o goleiro Roberto Costa, Detti e Jair Gonçalves. O time sentiu a ausência de Assis, com Capitão e Washington num jogo ruim, tornando o ataque praticamente nulo. Com o placar de 3 a 0 para o Flamengo, restava ao Atlético repetir o mesmo placar no domingo, em Curitiba, para chegar à finalíssima. E o Furacão quase chegou lá!

Segundo jogo: Couto Pereira, domingo, 15 de maio

Esperança. Essa é a palavra que resume o clima antes do jogo entre Atlético e Flamengo, em 15 de maio de 1983, às 16 horas, no estádio Couto Pereira. A torcida foi a principal aliada do clube nessa partida. Na véspera do jogo, o Rubro-negro fez o último treino físico, em plena praça Afonso Botelho, em frente à Baixada, com a presença de centenas de torcedores.

Torcedores esses que lotaram o Couto Pereira, no maior público já registrado no futebol paranaense: foram 67.391 pessoas (público pagante de 65.491 pessoas). Enquanto a bola começava a rolar no gramado, ainda havia cerca de 200 pessoas no lado de fora, tentando um ingresso, mas todas as bilheterias já estavam fechadas.

Antes do jogo, o público pôde prestigiar uma grande festa com atleticanos das antigas, numa partida preliminar entre os veteranos do Atlético contra os veteranos do Coritiba. No Atlético, craques do passado como Bellini, Djalma Santos, Zé Roberto e Nilson Borges foram comandados por Sicupira na partida. Já no Coritiba, alguns dos destaques foram Paulo Vecchio e Hermes. O Atlético entrou em campo com a seguinte formação: Wanderley; Djalma Santos, Bellini, Alfredo e Julio; Zequinha, Milton Dias e Sicupira; Dorval, Zé Roberto e Nilson Borges.

Quando o relógio apontou 16 horas, começava o grande jogo da tarde, entre Atlético e Flamengo. Precisando vencer por três gols de diferença, os craques atleticanos se desdobravam no gramado, em busca do objetivo. Jogando um futebol firme na defesa, para não permitir um gol flamenguista, e com bastante objetividade no campo ofensivo, o primeiro tempo do Furacão deu aos torcedores a impressão de que vencer o Flamengo não era missão impossível. O domínio atleticano foi total, com o Flamengo pouco se arriscando nos ataques, sempre esbarrando nas boas defesas de Roberto Costa.

Aproveitando-se das seguidas falhas de Junior, o Atlético passou a dominar o lado direito do campo. E foi por ali que saiu o primeiro gol do jogo. Aos 29 minutos, Assis lançou Capitão que cruzou na medida para Washington abrir o marcador: 1 a 0.

A torcida ainda comemorava a abertura do placar quando, três minutos depois, o Rubro-negro ampliou o marcador. Aos 32 minutos, Abel dominou na intermediária e fez um preciso lançamento em diagonal para Capitão. Ele cruzou e na falha de Raul, Washington completou para o fundo das redes: 2 a 0 Furacão. A chance do sonhado terceiro gol veio nos pés de Capitão, que desperdiçou a oportunidade.

No segundo tempo, no entanto, inexplicavelmente o Atlético recuou. Precisando ainda fazer mais um gol para garantir o placar que lhe levaria à inédita final da Taça Ouro, o Furacão teve mais preocupações defensivas, temendo um contra-ataque flamenguista que seria fatal. Assim como foi fatal não ter se arriscado ao ataque, não ter explorado as seguidas falhas da defesa adversária e não ter feito o gol que precisava para a classificação à inédita decisão e a estréia atleticana na Libertadores da América (naquela época, apenas o campeão e o vice iam para a competição continental).

No apito final do árbitro, o misto era de satisfação pela belíssima campanha e tristeza por ter deixado a oportunidade escapar por um golzinho. No discurso pós-jogo, o técnico Hélio Alves lamentou os erros no primeiro jogo, em especial a inexperiência de alguns jogadores, já que dois dos três gols do Flamengo foram por descuido da defesa.

Aos torcedores, ficou eternamente a revolta pelo pênalti mal assinalado pelo árbitro Carlos Rosa Marins, que acabou decretando o destino dessa semifinal de Brasileiro. E aos jogadores, ficou a sensação de dever cumprido, mostrando a todo o Brasil a força do Furacão da Baixada: “Nosso time mostrou um futebol de primeira qualidade, provou que é grande. Poderia muito bem decidir e ganhar o título”, disse, em tom de desânimo, o atacante Assis após o jogo.

Com a vitória por 2 a 0, o Atlético encerrou sua brilhante participação na Taça Ouro do Campeonato Brasileiro de 1983, terminando a competição na terceira colocação – somou dois pontos na semifinal contra apenas um do Atlético-MG.

O exemplo que esse 15 de maio de 1983 deixou, no entanto, é para sempre. Estádio lotado, maior público da história do futebol paranaense. Em campo, um Atlético com grandes jogadores, que se tornaram ídolos na história do clube, como a dupla “Casal 20” Washington e Assis e Roberto Costa (considerado naquele ano o melhor goleiro do país e o melhor jogador do Brasileiro de 1983, conquistando a então inédita Bola de Ouro da Revista Placar para os atleticanos – feito depois igualado por Alex Mineiro, em 2001). E principalmente a certeza de que o Furacão da Baixada reunia totais chances de ser o Furacão do Brasil. A resposta a quem duvidava disso o clube deu 18 anos depois, com a incontestável conquista do Campeonato Brasileiro em 2001.

Campeonato Brasileiro – semifinal (15/05/83) – Atlético 2 x 0 Flamengo
L: Couto Pereira; H: 16h00; A: José de Assis Aragão (SP); CA: Flávio e Detti; P: 67.391; R: Cr$ 51.707.400,00; G: Washington, aos 29 e aos 32 do 1º.

ATLÉTICO: Roberto; Sotter, Flávio, Jair Gonçalves e Sérgio Moura; Detti, Assis e Nivaldo; Capitão, Washington e Abel. T: Hélio Alves.

FLAMENGO: Raul; Leandro, Figueiredo, Marinho e Júnior; Vitor, Adílio e Zico; Júlio César, Baltazar (Robertinho) e Elder. T: Carlos Alberto Torres.



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