21 maio 2007 - 0h04

O exemplo das outras Copas

Os dois principais argumentos de quem prefere defender a aposta do Pinheirão contra a realidade da Arena para representar o estado do Paraná na disputa por sediar os jogos da Copa de 2014 não se sustentam diante de um mero exame dos fatos. Questões como o eixo do gramado invertido e a área residencial no entorno da Kyocera Arena não são critérios técnicos que poderiam levar a Fifa a desclassificar o estádio atleticano de algum jogo do Mundial. O motivo é simples: as recentes edições da Copas do Mundo (França em 1998, Coréia do Sul/Japão em 2002 e Alemanha em 2006) tiveram estádios cujas características são exatamente as mesmas da Baixada.

Em recente artigo publicada na Tribuna do Paraná, o colunista Luiz Augusto Xavier, um dos mais respeitados da crônica esportiva paranaense, afirmou que a Fifa não exige locais amplos de estacionamento em torno das praças esportivas. "Um dos pontos de glamour da Copa da França era o Parque dos Príncipes, um estádio central, encravado no meio de prédios e sem estacionamento. Na Alemanha, ano passado, havia pelo menos três praças nessas condições. A começar pelo maravilhoso Olympiastadion, no centro de Berlim", escreveu Xavier.

Na Copa de 2002, sediada em conjunto por Coréia do Sul e Japão, o estádio japonês Kobe Wing também não possuía uma ampla área de estacionamento ao seu redor. O estádio recebeu, inclusive, o jogo entre a Seleção Brasileira contra a Bélgica, nas oitavas-de-final.

Estádio Kobe Wing, no Japão: área residencial, mas recebeu jogo do Brasil em 2002 [foto: arquivo]


Outro exemplo é o Stade de France, palco a final da Copa do Mundo da França, em 1998. A praça esportiva não fica exatamente em uma região residencial, uma vez que a cidade de Saint-Denis se situa na periferia de Paris. Mas de todo modo, não se trata de um local deserto ou afastado. O estádio é cercado por prédios, há estabelecimentos comerciais, hotéis, bares, restaurantes, tudo em sua volta. Ou seja, não há uma área enorme para a revista policial, como muitos vêm falando que a Fifa exige. O espaço de isolamento para a triagem dos torcedores do Stade de France tem dimensões perfeitamente equiparáveis ao que poderia ser disponibilizado na Arena em caso de aproveitamento das ruas ao redor do estádio – ou, numa alternativa ainda melhor, usando-se a Praça Afonso Botelho (em frente ao estádio do Atlético) para este fim.

Eixo do gramado invertido

Outro ponto que é apontado como "defeito" na Kyocera Arena é o eixo do gramado invertido. O estádio atleticano foi construído com o direcionamento dos gols no sentido Leste-Oeste, ao contrário de muitos estádios que têm o direcionamento Norte-Sul. No entanto, esse quesito também não é exigência da Fifa. Na última Copa, na Alemanha, pelo menos quatro estádios estavam nessas condições: o Olympiastadion Berlin, o Fritz-Walter-Stadion, o Gottlieb-Daimler-Stadion e o Commerzbank-Arena. Além deles, o famoso estádio Wembley, em Londres, também tem o gramado construído com o direcionamento Leste-Oeste, assim como a Kyocera Arena.

Assim como a Arena, Olympiastadion, na Alemanha tem o eixo do gramado invertido [foto: arquivo]


A orientação da Fifa é de que os novos estádios sejam construídos preferencialmente (e não obrigatoriamente) com o eixo do gramado no sentido Norte-Sul, para não atrapalhar a visão dos goleiros quando o sol está se pondo. No entanto, apesar de o campo de jogo da Kyocera Arena estar no sentido Leste-Oeste, o pôr do sol não chega a ser um problema para os goleiros, visto que as arquibancadas são altas e bem próximas ao campo de jogo, o que barra os raios solares.


Gottlieb-Daimler-Stadion, Fritz-Walter-Stadion, Commerzbank-Arena, usados na Copa da Alemanha, têm eixo igual à Arena (foto 4) [foto: arquivo]


Orientações da Fifa

A construção de estádios com grandes áreas livres ao seu redor e com o gramado direcionado no sentido Norte-Sul são algumas das recomendações da Fifa presentes no “Caderno de Recomendações da Fifa” para a construção de praças esportivas. A entidade recomenda alguns itens, mas não impõe que eles sejam obrigatórios para que se aprove ou rejeite determinada praça esportiva para abrigar jogos de competições oficiais por ela organizada. É preciso destacar que este documento não tem qualquer relação com o "Caderno de Encargos" para o Mundial.

O maior exemplo de que esses itens são somente recomendados (e não obrigatórios) é de que nas últimas edições da Copa do Mundo vários estádios não se encaixavam nesses itens, mas nem por isso foram vetados pela entidade para receber os jogos do Mundial.

O famoso estádio Wembley, em Londres, tem direcionamento dos gols no sentido Leste-Oeste [foto: arquivo]


Entenda a questão do eixo do gramado

O motivo da orientação para que os estádios sejam construídos no sentido Norte-Sul é que, teoricamente, o sol nascerá em um lado do gramado e morrerá no outro, sem atrapalhar o goleiro. Mas isso funcionaria apenas nas regiões perto da Linha do Equador. Para entender melhor é preciso compreender como funcionam as estações do ano.

O eixo da Terra está inclinado em torno de 23,5º, e ela mantém esse eixo sempre fixo enquanto faz o movimento de translação. Com conseqüência disso, a Terra apresenta um hemisfério voltado ao Sol a cada seis meses. Essas posições da Terra em relação ao Sol são conhecidas como Solstícios: Solstício de Verão é quando um hemisfério voltado para o Sol, na mesma época ocorre o Solstício de Inverno para o outro hemisfério. Seis meses depois ocorre o inverso. Entre os Solstícios, há posições intermediárias, conhecidas como equinócios, em que os dois hemisférios estão simetricamente dispostos em relação ao Sol: Equinócio de Primavera para o hemisfério que está indo do Inverno para o Verão e Equinócio de Outono para o hemisfério que está indo do Verão para o Inverno. Em virtude desse efeito, a incidência de raios solares é maior ou menor em diferentes pontos da Terra de acordo com a época do ano.

Os Solstícios e Equinócios são as datas que marcam a entrada em outra estação [montagem: FURACAO.COM/Thiago Caetano]


Curitiba está localizada abaixo do Trópico de Capricórnio, o que faz o Sol ter uma angulação muito variada de acordo a época do ano. Para entender melhor, basta observar o Sol em três datas do ano. Durante o Solstício de Verão, o Sol fica na angulação mais alta do ano, ao meio-dia ele estará 2º do zenite em direção ao norte, ou seja, não estará exatamente na vertical, e sim um pouco para o norte do ponto mais alto do céu. Durante os equinócios, o Sol estará a 25º do zenite em direção ao norte. Já no Solstício do Inverno, o Sol ficará com a angulação mais baixa do ano, estará a 47º ao norte. Se você parar e olhar para o Sol, ele estará à sua frente, na altura mais alta atinge durante esse dia, e não no topo.

Observe a animação da Terra, mostrando a diferença do ângulo do Sol durante o verão e o inverno [montagem: FURACAO.COM/Thiago Caetano]


Com isso, em Curitiba, mesmo que um estádio seja feito no sentido Norte-Sul, o goleiro que ficar no gol do lado Sul receberá o Sol diretamente na maior parte do ano, incluindo a época que será disputada a Copa do Mundo.

Colaboração: Thiago Caetano e Glauco Hass



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