9 out 2007 - 0h48

O capitão da boa fase

Raras vezes no futebol um casamento foi tão perfeito. De um lado uma torcida fanática, apaixonada, explosiva, que sentia a falta de uma referência dentro de campo. Do outro, um jogador que não admite jogar sem entrega total. O resultado só poderia ser um e aos poucos Claiton vem se transformando numa liderança no time do Atlético.

Liderança que vem sendo reconhecida pela torcida e pelo próprio grupo atleticano. Agora capitão da equipe, Claiton enumera os motivos que colaboraram para a virada atleticana no Campeonato Brasileiro: o pacto entre time e torcida, que jogam na Arena numa mesma sintonia, o técnico Ney Franco, a redução no preço dos ingressos e o retorno de Alberto Maculan como diretor de futebol. “Melhorou muito, o Atlético perdeu muito atrás, se tivesse com esse grupo, essa comissão, com essa direção, o Atlético estaria em uma posição melhor no campeonato”, afirmou.

Em entrevista exclusiva à Furacao.com, Claiton relembra o período de negociação com o Furacão, fala dos motivos que o fizeram assinar com o clube e revela: “A estrutura é fantástica, só joguei em clubes grandes e o Atlético é a maior estrutura que já trabalhei em toda a minha vida. Até comentei com meus amigos do Botafogo, se depender de mim não saio mais daqui.”

Confira a íntegra da entrevista exclusiva feita pela Furacao.com com o capitão atleticano:

Você ainda treinava no Flamengo quando recebeu a proposta para vir jogar no Atlético. Como foi e quanto tempo durou essa negociação?
Foi até engraçado. Porque eu estava no banco, antes de acontecer isso (o convite para vir jogar no Atlético). Na semana que aconteceu isso, o Ney (Franco, então treinador do Flamengo) tinha me colocado para jogar como titular. Aí o diretor do Flamengo me procurou dizendo que o Atlético tinha procurado. Conversei com o Lopes (Antonio Lopes, então técnico do Atlético) e gostei. Até foi uma surpresa para todo mundo quando eu aceitei. Sempre ouvi falar bem do Atlético, que a cidade era boa e tinha muita vontade de vir para cá.

Como foi a negociação?
Para o Flamengo me liberar teria que ir um jogador para lá. Aí em uma lista de jogadores o Ney (Franco) escolheu o Cristian porque era da mesma posição. Seria um empréstimo até o final do ano. E assim eu não queria. Eu queria vir em definitivo. Tinha contrato com o Flamengo até o final do ano que vem. Daí, conversei com o Petraglia e assinamos até o final do ano que vem. O Flamengo ficou com uma participação no meu passe, no caso de venda, tanto o Flamengo como o Botafogo têm participação.

Há algum tipo de ressentimento com o Flamengo?
Não, até porque eu quis sair em definitivo. Eu sou um jogador que não gosta de ficar mudando de clube. Eu saí do Botafogo e fui para o Flamengo, pra mim já deu, fui campeão carioca, eu tenho título lá. Para mim, vir para cá, arriscar ir bem ou ir mal, e voltar para o Flamengo no começo do ano, não seria legal. Ou então vir para cá e jogar muito bem aqui e ter que voltar para o Flamengo. Eu gosto de fazer as coisas planejadas, ir para frente, não ir e voltar. Isso até atrasou a negociação com o Atlético, porque eles (o Flamengo) investiram em mim para me levar do Botafogo, aí a gente fez um acordo de ficar uma porcentagem e deu tudo certo, mas não tem mágoa nenhuma.

Quais os fatores que mais motivaram a sua vinda para o Atlético?
Eu estava insatisfeito com a minha situação no Flamengo. O clube me enganou em várias coisas. Salário atrasado, uma bagunça. Tive o convite de um clube organizado como o Atlético, isso foi bom. Eu me senti valorizado e isso foi determinante.

Você possui uma característica natural de liderança, isso é evidente e a torcida atleticana já percebeu. Você veio para o Atlético com a missão de liderar o elenco?
Quando houve o convite, conversei com o Lopes (o então técnico Antonio Lopes) e com o Petraglia. Eles falaram que o Atlético estava carente de um líder. E eu, onde passei, independente de ser capitão, eu sempre tive essa característica. No Flamengo, em uma semana eu era capitão. No Botafogo também. Então é maneira de eu tratar, de eu lidar. Eu sou um jogador muito emotivo, dentro de campo eu até me transformo um pouco, quero ganhar, quero vencer, sei cobrar e sei ser cobrado, e aonde eu chego sou bem aceito. E fora de campo sou uma pessoa totalmente diferente, sou brincalhão, estou sempre rindo!

Jogar com raça é fundamental?
Acho que sim. Independente da posição, o jogador tem que entrar em campo e encarnar o espírito do jogo. Até porque o torcedor quer ver isso.

"Hoje o Atlético é um grupo só, independente de quem estiver jogando ou não." [foto: PR PRESS/Giuliano Gomes]


Você fica incomodado se os outros jogadores não entrarem nesse ritmo?
Incomoda, mas aceito, até porque tem pessoas que estão sentindo, mas não botam para fora como às vezes eu boto. Mas em um grupo de jogadores, tem que saber lidar com cada pessoa, conhecer elas. Hoje no Atlético eu conheço quase cem por cento dos jogadores. Sei como falar com cada um do grupo. Sei que com alguns posso gritar, com outros não, para não perder o jogador dentro de campo.

Essa sua liderança e esse pleno conhecimento do grupo foram os fatores principais para você ser o capitão do time?
Ser capitão é uma conseqüência. Independente de ser capitão, vou ser o mesmo jogador. Neste jogo contra o Botafogo nem esperava ser capitão, foi uma surpresa. O Ney chegou na preleção e falou que eu ia ser o capitão. Mas é uma coisa que eu encaro com naturalidade, não é uma coisa que faço questão, “nossa, se não for capitão eu não vou jogar”, ou “se eu for capitão eu vou jogar mais”, é uma coisa que não vai me mudar! E é legal porque todos os jogadores gostam disso, brincam com isso! Para mim é uma satisfação!

Desde a sua passagem pelo Internacional, Santos, Botafogo e mais recentemente o Flamengo, você sempre atuou no meio-campo, como volante, ou teve experiências em outras posições?
Já joguei como lateral quando precisava no meio do jogo. Já atuei como zagueiro, quando algum jogador foi expulso. No Internacional já joguei de meia. Mas minha posição de origem sempre foi a de volante.

Como foi o seu trabalho no Flamengo com o Ney Franco?
Quando acabou o Campeonato Carioca e a gente foi campeão, eu era titular. Começou a Libertadores ele me tirou do time, daí eu ia e voltava. Aí começou o Brasileiro, comecei jogar de novo, joguei duas partidas, fiz até gol no primeiro jogo. No jogo contra o Figueirense nós perdemos de 4 a 0. Aí de volta ele me tirou do time, eu não gostei e depois ele não me colocou mais para jogar. Até porque tinha um jogo a cada quinze dias em casa, por causa do Pan-Americano, e nesse intervalo teve três jogos só, contra o Inter no Maracanã, daí ficamos quinze dias sem jogar, jogamos contra o Atlético Mineiro e contra o São Paulo, e na semana a gente ia jogar em casa, daí que pintou o Atlético, então não joguei. Às vezes eu jogava, saía, mas no começo era titular, era capitão dele.

Como você recebeu a notícia de que o Ney Franco ia vir para o Atlético?
Chegaram a me perguntar sobre o Ney (a diretoria do Atlético). Falei que era um bom treinador, que não tinha nada contra ele, porque sou um jogador que não brigo. Eu saí do Flamengo por minha vontade, o Ney não me mandou embora e nunca brigou comigo e a gente tem que aceitar, ele é o treinador, é opção dele, só que eu não estava feliz no Flamengo, não só porque eu não estava jogando. Eram vários motivos, não estava me sentindo bem. E para render nessa profissão tem que estar em um grupo que você se sinta bem, e eu precisava disso.

Quando você chegou no Atlético, o time estava numa situação bem ruim no campeonato e agora é perceptível uma mudança no ânimo dos jogadores. Há talvez um comprometimento maior com o time, com a torcida, com a vitória. Essa mudança realmente existiu dentro do grupo?
Houve. Quando cheguei ao Atlético encontrei um grupo cabisbaixo, com medo de jogar na Arena, dava até medo. Eu até falava que se continuasse assim a gente ia cair. A vinda do Maculan (Alberto Maculan, diretor de futebol), e do próprio Ney (Franco, treinador) deram uma mudada no ambiente, porque estava muito ruim, não estava legal. Quando cheguei o grupo estava desunido, muitos grupinhos. Hoje o Atlético é um grupo só, independente de quem estiver jogando ou não. Quando o Ney chegou, tivemos duas partidas fora, contra o Inter e o Santos, e depois na Arena, com aquele expectativa toda de jogar na Arena que estava todo mundo. Mas melhorou muito, o Atlético perdeu muito atrás, se tivesse com esse grupo, essa comissão, com essa direção, o Atlético estaria em uma posição melhor no campeonato.

Onde o Atlético pode chegar neste Brasileiro?
Depois do jogo contra o Goiás, que a gente ganhou fora de casa, começamos a falar em Libertadores, houve uma empolgação muito grande no vestiário. Eu falei que não podíamos pensar assim, pois estávamos muito próximos da zona do rebaixamento. Temos que pensar hoje em se afastar da zona do rebaixamento. Como falei depois do jogo contra o Botafogo, temos que achar um jeito de jogar fora de casa também. Mas meu pensamento agora é sair da zona da degola, dessa situação.

O grupo tinha era um pouco de receio da cobrança da torcida?
Da torcida e do Lopes. O Lopes é um treinador multicampeão, que tem muita moral, mas ele trabalha na base da cobrança, da pressão. E o Atlético tem jogadores muito jovens que na base da pressão não conseguiram render o que podem render. Quando o Ney (Franco) chegou eu falei isso, pois ele é mais acostumado, já trabalhou na categoria de base muito tempo. Então seria bom para os jogadores. É um treinador que dá muita confiança para jogar, não é um treinador que vive xingando, vive gritando, e o Lopes trabalha assim. Então acho que isso também ajudou, porque os jogadores hoje se sentem mais a vontade para jogar.

A torcida do Atlético passou a ser bastante exigente nos últimos anos. Como está o relacionamento do time do Atlético que está dentro de campo com a torcida na arquibancada? A torcida faz a diferença para o time?
Primeiro que a gente não está ouvindo nem vaia da torcida, está muito bom de jogar na Arena, todo mundo comenta isso. Estamos nos sentindo em casa, é só apoio. Teve dois momentos nesses jogos em casa que foram maravilhosos. Contra o Palmeiras tomamos o gol e a torcida já começou a gritar “Atlético, Atlético” e contra o Paraná a mesma coisa, a gente fez o gol e tomamos a ducha de água fria logo em cima e a torcida veio e nem deu para ouvir o grito da torcida do Paraná. Geralmente num clássico, um gol assim pode dar um desânimo, mas quem está lá dentro do campo, você olha para a torcida e pensa, vamos embora, vamos de novo. Está muito legal. Nesse jogo agora (contra o Botafogo), até achavam que ia ter cobrança, porque vínhamos de derrota para o Náutico, mas a torcida foi maravilhosa de novo. Acho que esse foi o melhor jogo do Atlético em casa, tivemos o jogo controlado, não sofremos nenhuma chance do Botafogo.

Quando você chegou aqui, pelos comentários que tinha da cobrança da torcida, você chegou a ter medo de jogar na Arena?
Não, porque joguei no Flamengo, no Internacional, no Santos, em clubes grandes também, de pressão assim como o Atlético. Time que tem torcida grande vai ter pressão. Se não quiser ter pressão vai jogar em time pequeno.

Jogar na Baixada com o apoio da torcida é um diferencial para o Atlético?
Muito importante. Já provou nesses jogos em casa. Antes de o Ney chegar, eu joguei uma partida na Arena, que foi contra o Cruzeiro, depois eu fiquei fora por suspensão e com o Flamengo não podia jogar. Eu via que os jogadores do Atlético iam para a Arena já com medo, a gente via que não travava três passes, já erravam, a pressão era muito grande, eles não conseguiam jogar, não dava. Você sentia o time pressionado. O Evandro, que estava vendo o jogo (contra o Botafogo), comentou que não íamos tomar gol porque o time estava fechado, ligado o tempo todo e a torcida está colaborando com isso.



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