7 jul 2021 - 8h58

“Tá lá, tá lá, tá lá!”: a história através da emoção

O luto sempre será intenso porque celebra os bons momentos vividos. A dor da perda é a alegria da vida com o sinal trocado. Muito carinho gera também ausência que punge. Pior seria não ter amor a perder a nenhuma lembrança a celebrar.

Sobre o que choramos? A viagem no trem da vida está ficando com menos passageiros conhecidos. Os que embarcaram na mesma estação estão partindo. Sentimos a força do nada que se amplia.

No futebol, a pior cegueira seria enxergar somente a bola. Também por isso, o futebol é uma licença poética. E a narração do jogo é pura poesia cantada para aqueles que não precisam ver para sentir.

Jacir de Oliveira. Narrador. Especialista em emocionar. Mestre na arte de contar histórias e de tocar a alma de cada um de nós.

Incansável pulmão que adornava as vitórias e portava a sensibilidade de fazer das derrotas algo menos sofrível.

Voz que é parte da história do Rádio esportivo paranaense. Rádio esse que nos proporciona emoções ímpares. Certamente muitos de nós temos histórias memoráveis para contar cujas emoções estejam atreladas a grandes e inesquecíveis narrações.

Jacir marcou de forma indelével a vida dos torcedores dos três times da capital de forma especial e única. Sua narração transportava a atmosfera da Baixada, do Couto Pereira e da Vila Capanema a todos os torcedores que não estavam presentes nos estádios.

Uma dor psíquica e física, um encolhimento da percepção do mundo e fechamento em torno de uma cela de chumbo. Nossos corações sangram pela sua ausência, Jacir.

Só o tempo fará a dor sair da posição de protagonista e aninhar-se nos bastidores. Ainda choraremos muito ao ver vídeos seus, ao escutar momentos marcantes eternizados em sua voz. Ainda comemoraremos e nos arrepiaremos como se fosse a primeira vez. E, certamente, jamais cansaremos.

Sentimos uma dor que não tem time. Que não tem bandeira. Que não tem cor. Ou que é uma mistura de rubro-negro, alvi-verde e tricolor.

A vibração marcante foi silenciada. Mas na mente do torcedor, a voz indefectível de Jacir de Oliveira reverberará para todo o sempre.

Nunca haverá silêncio enquanto seu nome for lembrado. Por isso, você jamais morrerá. O narrador perpetua a vida em larga escala e sua presença ecoa em cada um de nós.

Entre um crepúsculo e outro, entre uma partida de futebol e outra, vivemos o privilégio de tê-lo entre nós.

Você é parte da história de cada um de nós. Você é responsável por parte do amor pelos nossos times e pela vibração que sentimos durante um grito de gol ou quando da comemoração de um título.

Só existe um modo de triunfar sobre a morte: tornando a nossa vida uma obra-prima. E quantas obras-primas você contou e cantou pra gente hein, Jacir?!

Sua incomparável voz e seu brado tão característico que ecoaram não só pelo Beira-Rio, mas nas transmissões das rádios do adversário. As lamentações gaúchas na final da Copa do Brasil de 2019 foram maravilhosamente maculadas ao fundo pelos seus gritos, pelos “tá lá, tá lá, tá lá!” que jamais abandonarão a memória dos atleticanos.

Mas não foi só o “tá lá” que marcou o coração atleticano…

Aquela cobrança de Barrera, a pouca distância para a bola, a certeza do acerto, a desilusão com o erro (que o atormentará ad eternum). O silêncio sepulcral – jamais antes visto ou ouvido na Baixada – que deu lugar a uma explosão – jamais antes vista ou ouvida na Baixada – de emoção. A alegria de milhões de rubro-negros pelo título Sul-Americano em 2018 foi magistralmente eternizada pela sua voz.

Um profissional que narrava um jogo classificatório de campeonato estadual com a mesma intensidade, seriedade e emoção de uma final de Copa do Brasil ou Sul-Americana precisa ser reverenciado.

É claro que as transmissões nunca mais serão as mesmas. E nem poderia ser diferente…

Lembrando que o desejo tradicional é equivocado: quem parte sempre descansa em paz. Nada mais os aflige. A paz é uma luta para nós que ficamos. Então, que encontremos a nossa.

Lutou bravamente, guerreiro! Agora, deixa com a gente. Seu legado é bonito demais.

Obrigado, Jacir, por fazer parte da nossa história. Por fazer parte da história ouvida e falada do Club Athletico Paranaense. E por contar esta história através da emoção.

Foi uma honra.

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