9 set 2021 - 10h45

Sobre burros e cavalos de corrida

Muitos são os erros que nos trazem até esse ponto da temporada e muitos são os culpados para eles. A própria torcida se divide ao discuti-los, pois como qualquer massa estamos sujeitos a visões e interpretações diferentes dos fatos apresentados. Aliás, até os “fatos” podem ser discutidos de maneiras diferentes. Me proponho a buscar, nessa discussão, os erros e os culpados.

Quando uma empresa se propõe a crescer, ela traça metas. Assim é no futebol. Nossa diretoria não é amadora e tem em Mario Celso Petraglia uma figura forte que entregou resultados expressivos nesses mais de 25 anos de projeto e jogar várias competições ao mesmo tempo, estendendo o calendário do clube com partidas importantes (tanto no cenário nacional como internacional) faz parte disso. Esse, num primeiro momento, é o planejamento.

A partir disso, é preciso traçar os objetivos. Vamos apenas jogar todas essas competições ou vamos tentar vencê-las? É óbvio que o torcedor quer vencer sempre, mas a diretoria precisa trabalhar pensando no que é tangível. Aqui começam os erros. Para se jogar quatro competições e buscar algum título, qualquer que seja, é preciso ter elenco e, para isso, é preciso contratar.

Ora pois, o Club Athletico é um grande negociador do mercado. Fazemos compras por valores baixos e vendemos para a Europa muito bem, é verdade, e geralmente com bom retorno dentro de campo. Porém esse retorno nunca vem a curto prazo, pois a maioria desses investimentos é feita em jovens jogadores. Isso, em si, não é um problema. O problema é achar que apenas os jovens vão dar conta do recado.

Mas é claro que a diretoria tem uma resposta pra isso também. Aí vem o papo de buscar “oportunidades de mercado”, sempre aquele ex-craque que teve problemas (físicos ou não) e que não vem encontrando seu melhor futebol, que deseje uma nova chance com uma grande vitrine. Esse ex-craque vai ter à disposição um dos melhores centros de treinamento da América Latina e ainda vai jogar competições internacionais pelo Athletico. O discurso é lindo.

O problema é que o papel aceita tudo. Colocar em prática são outros 500. O futebol de verdade, no campo, não é um jogo de Football Manager, onde você acerta taticamente as peças e elas vão desenvolver como robôs. O futebol tem muito mais que isso, especialmente no Brasil. Aqui, o vestiário e a boleiragem influenciam muito mais que qualquer outra coisa e para manter a ordem é preciso de alguém com pulso firme.

Antes de falar de burros e de cavalos de corrida, é preciso dar nome aos bois. Um velho sábio costuma dizer que o problema de ter jogadores fracos no elenco é que inevitavelmente eles acabam entrando em campo. Jogadores como Marcio Azevedo, Nicolas, Richard, Canesin, Carlos Eduardo e Kayzer já não têm interesse ou qualidade para vestirem o manto rubro-negro. Isso sem falar de outros como Pedro Henrique, que comete falhas decisivas há semanas e mantém a titularidade. Passes para o lado e falta de interesse são apenas algumas “qualidades” que os supracitados têm apresentado nos últimos jogos e que contribuem para a fase que vivemos.

Com um elenco curto e de pouca qualidade, é de se imaginar que o rendimento não seja bom, mas analisando friamente os resultados não temos um cenário de terra arrasada. Tirando o fato de termos sido humilhados com uma derrota de virada para um time de Série D desfalcado, utilizando nossos titulares na semifinal de um campeonato estadual que nem de longe era prioridade da diretoria e o terrível rendimento no Brasileirão, estamos na semifinal da Copa Sul-Americana pela terceira vez na história e temos vantagem nas quartas de final da Copa do Brasil. Mérito do treinador, certo?

Errado. Apesar de ter tido alguns bons jogos, como o reencontro com Tiago Nunes e o Grêmio no Brasileirão, o Portuga não apresenta grandes qualidades na prancheta. O setor defensivo, antes ponto forte do time, foi desmontado e sofre gols constantemente, o time não apresenta gana ofensiva para buscar resultados (salve raríssimas exceções, como na partida contra a LDU na Sul-Americana), o que gera vexames como na partida contra o Cascavel (em que o time abriu o placar com 5 minutos e recuou de forma covarde, sofrendo a virada no segundo tempo e perdendo a vaga na final) e as constantes substituições tardias e equivocadas.

A culpa talvez não seja dele em poupar tantos jogadores, já que é de entendimento geral que essa ordem vem de cima e que é preciso respeitar a integridade física dos jogadores para evitar lesões. Porém, novamente, erro da diretoria em achar possível disputar vários torneios com um elenco curto e pouco qualificado.

Portanto, quando o pai do garoto que é treinador do Club Athletico vai nas suas redes sociais gritar aos quatro ventos (da inovação?) que “de burros não se podem fazer cavalos de corrida”, ele está certo, mas não totalmente. Porque, apesar de tudo, o seu querido filho também não faz seu próprio trabalho com qualidade. O Furacão é previsível dentro de campo e pouco eficiente, cria com muita dificuldade por não ter jogadas treinadas e quando finalmente consegue criar algo perde gols por incapacidade técnica. Percebe a diferença?

Não é a questão de dizer que António Olivera é o culpado por tudo, mas sim que também é culpado pelo que se vê em campo. E a solução não é simples. Se o técnico perdeu o vestiário e os jogadores já não respondem aos seus pedidos, é hora de mandar o treinador embora. Mas não só ele. O que o Athletico precisa é de um técnico de verdade, de pulso firme e de experiência, para botar a boleiragem no seu lugar, que é jogar futebol. Nosso time nem de longe é bom como foi poucos anos atrás, mas com certeza não é tão fraco como nos acostumamos a ver em tempos passados. Dá pra brigar por taças caso o problema seja resolvido logo.

Infelizmente, parte da diretoria não acredita que um treinador de ponta é importante. O fantasma de Tiago Nunes, que não era ninguém antes do clube e conquistou grandes glórias aqui, ainda é recente e corrobora com essa teoria. O que não se vê é que ele foi o único em um rol de vários nomes nesses últimos 20 e poucos anos que deu certo. Pergunte a qualquer torcedor sobre nomes incompatíveis com a grandeza do clube no comando técnico e a lista será grande e triste.

Talvez nosso problema seja estar mal acostumados. Temos um rival brigando para se manter na Série C, passando vergonha atrás de vergonha o ano inteiro, e outro que vive grande momento (leia-se: líder da Série B e dando risada da nossa derrota contra o Cascavel no estadual, campeonato em que não passaram da primeira fase). A verdade é que nossa torcida não se contenta com migalhas e sabe bem que se contentar com o que tem é o caminho para dar os mesmos passos dos rivais. Somos corneteiros, insatisfeitos, talvez até arrogantes. Mas acima de tudo, somos apaixonados pelo Athletico e brigamos sempre por ele, não com ele.



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