20 nov 2021 - 10h00

Por mais essa taça!

Depois de 2005 o Athletico viveu um jejum dos grandes. Aos 12 anos, naquela final no Morumbi, eu lembro de ter chorado pela primeira vez por causa de futebol. Eu lembro do título de 2001, mas era muito jovem pra entender o tamanho daquela conquista. Em 2004 eu acho que não entendi bem o que aconteceu, pra ser sincero. Mas em 2005 eu tinha completa noção do que a gente vivia e do tamanho daquela temporada. E quando o pênalti acertou a trave, eu chorei agachado no corredor da casa da minha avó.

Dali pra frente a vida do atleticano foi difícil. Algumas temporadas nem tão ruins, outras péssimas, acostumei a ver tiriças usando o manto e tentei me apegar a qualquer esperança que aparecesse. Quase todos meus amigos de escola eram coxas. Os membros da minha primeira banda? Coxas. Recordo de um dia específico, indo em uma lanhouse após a aula, a pé com a piazada, e todos entoando a plenos pulmões hinos da torcida adversária, enquanto apontavam pra mim e tiravam sarro. Na brincadeira, é claro, mas aquilo ficou guardado aqui dentro. Lembro do estadual de 2009 e de tirar sarro dos amigos rivais dizendo que aquele era o maior estadual da história, pois fomos campeões no ano do centenário do clube do Alto da XV. Mas além disso, nossa situação era sempre complicada.

2012 foi quando eu comecei a cursar Jornalismo na Pontifícia e sonhava em ser jornalista esportivo. Mas ali, já no início do curso, eu deveria ter entendido que dificilmente seguiria essa profissão. Afinal, é incomum saber o time do coração do pessoal que trabalha nessa área e eu simplesmente não conseguia esconder: eu sou caveira, sim senhor.

Fiz amizade com uma garota coxa-branca. Conversávamos as vezes e o assunto era sempre futebol. O time dela vivia uma fase incrível. Eu brincava que quanto mais perna de pau fosse o atacante adversário, mais fácil seria ele fazer gol no Athletico. Perdi as contas de quantas vezes tivemos as redes balançadas por jogadores desse calibre, de “Geraldos” a “Bills”. Muito além dos Atletibas, o Furacão nunca tinha um rendimento legal, tornando as derrotas comuns. Pensando nisso, decidi usar aquela que só se veste por amor na faculdade toda vez que o Athletico perdesse um jogo.

Foram várias, entre 2012 e 2016. Tivemos um bom período em 2013, é verdade, mas ainda assim parecia que as coisas não caminhavam para o nosso lado. Toda vez que a gente perdia uma partida, eu aparecia no Bloco Vermelho com a camisa do Athletico. No começo o pessoal tirava sarro, mas aos poucos foram entendendo. Mais que isso, foram respeitando. Ora, eu sou Athletico. Sempre fui. Sempre vou ser. Não importam as derrotas, eu estarei sempre aqui.

Eu acredito em karma. Acho que o universo devolve o que você entrega à ele. Os astros se alinharam, com uma forcinha de alguns pulhas por aí, e o Club Athletico começou a se fortalecer. 2018 foi um ano terrível pra mim, pessoalmente falando. Mas assistir aquele time jogar foi, aos poucos, fazendo a gente sonhar. Deixando a gente sonhar. Tudo que eu precisava era um time de guerra e lá estava ele batalhando contra tudo e todos, como sempre. As quartas de final contra o Bahia tiveram requintes de crueldade e pareciam ter tido emoção demais, até a final na Arena.

No dia 12 de dezembro de 2018 eu não conseguia me concentrar no trabalho. Eu não tinha conseguido comprar ingresso, apenas minha esposa (que na época era namorada e, por isso, não pôde me ceder o ingresso) conseguiu. Eu tinha a mais pura certeza que seríamos campeões. Era simplesmente impossível tirar aquela taça das nossas mãos. Fui até a Arena, assisti o jogo com desconhecidos, do lado de fora. Uma mulher que morava ao lado de um dos bares da Arena virou a televisão para a janela e o pessoal assistiu ali, espremido. Vivi todas as emoções que um ser humano pode viver naqueles minutos.

Quando Thiago Heleno partiu para a bola, eu virei de costas para a televisão. De frente para a Arena da Baixada. E ali chorei. Eu não precisa ver, apenas sentir. Em meio aos rojões, aos gritos e choros, aos hinos, eu senti algo que até hoje não consigo explicar. Foi como se ali, naquele momento, nada mais tivesse importância alguma. Nós éramos campeões e tudo que os outros podiam fazer era aplaudir ou invejar.

Hoje, 20 de novembro de 2021, apenas três anos após aquele dia, temos a oportunidade de fazer história mais uma vez. Alguns dizem que a Sulamericana é a “série B da América” e que essa taça “não vale nada”. É óbvio que ela não tem o mesmo valor da Copa Libertadores, e nós temos absoluta certeza disso. Mas taça é taça em qualquer lugar. Eu costumo dizer que eu quero ver o Athletico vencer tudo, até par ou ímpar. Com a Sulamericana não seria diferente. A nossa história tem sido essa, afinal. Todos apontam os dedos e acham defeitos, seja nas decisões do clube, nos títulos ou nos jogadores. Não ligamos e ao fim do dia estamos jogando outra final, erguendo outra taça, cedendo jogadores para seleção brasileira e vendo clubes de outros estados serem “pioneiros” fazendo o que nós fazemos há tempos. Essa noite ninguém chora e ninguém pode chorar. O rubro negro vai jogar por mais essa taça.



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