29 nov 2021 - 19h24

Minha licença poética para a felicidade

Quando as pessoas me perguntam “quem é o Murilo?” a primeira coisa que digo é que o Murilo (ou Doc, como me chamam) é atleticano. Além disso, sou médico e atuo na área da Psiquiatria. Aqui, neste espaço, o intuito é conversar – de torcedor para torcedor – sobre aquilo que nos é cura, mas também comorbidade, loucura e uma licença poética: o Club Athletico Paranaense.

 

22 de novembro de 2021. Uma semana atrás; segunda-feira, como hoje. Passavam-se dois dias da conquista da Latina mais charmosa de todas. Eram oito e pouco da manhã e eu estava no trânsito, dirigindo em direção ao hospital, como faço em pelos menos seis dos sete dias da semana. Defini o que aconteceu como um “desespero bom”: precisei estacionar e parar naquele instante, porque a ficha caíra naquele exato momento. A “anestesia” cessou. Somos – mais uma vez – campeões sul-americanos.

O descontrole tomou conta e o choro foi diluvial. Uma emoção ímpar. Sim, o Athletico é campeão da Sul-Americana. O nosso Athletico é gigante! O sentimento de gratidão ao Furacão é (e foi) enorme. Agradeci pelos amigos/família que o Futebol me proporcionou conhecer; por meu querido (e infelizmente falecido) avô, João, que me legou um sangue forte e forjou meu atleticanismo; por todas as oportunidades que tive de sentir na alma o que significa torcer pelo El Paranaense. Sim, eu vi o Athletico copar no lendário Centenario. Eu vi El Rey bailar com “Thiagueleno” General, Santinho Aderbar, Nikão e companhia.

O Athletico embarcou para Montevidéu carregando na bagagem o sonho do bicampeonato. Volto no tempo, numa época que muitos de vocês viveram. Entravam livremente no Joaquim Américo e ficavam encostados nas arquibancadas de tijolos assistindo aos treinos, vendo os ídolos e no final de semana voltavam para vê-los defender a camisa rubro-negra, sendo a raça a única exigência.

E a história inicialmente de dificuldades, raça e resistência – a base de tudo – ganha suporte organizacional, salta para Arena e depois Baixada de Copa do Mundo, passa pelo centro de treinamento deslumbrante e os títulos chegam e com eles os milhares de torcedores em todos os setores da sociedade. O Athletico é mundo que pulsa, é furacão que gira, é time que luta, é time de guerra, é time que faz por merecer vitórias.

Todos os milhares de guerreiros que embarcaram rumo à capital uruguaia representaram aqueles que incentivaram Caju, Jackson, Ziquita, Nilson Borges, Sicupira, Washington e Assis, Oséas, Gabiru, Kléberson, Fernandinho, Cocito, Kléber Incendiário, Alex Mineiro, Bruno Guimarães, Lucho, Marco Ruben, Thiago Heleno, Santos, Nikão… Não são só os viventes, mas também os espíritos – estes com entrada livre – povoantes certos do Centenario de tantas histórias.

Todo crédito do mundo ao atleticano que foi à província Cisplatina e que com presença infinitamente superior se mostrou maior e definiu a camisa campeã; ao torcedor que se reuniu em bares com os amigos ou que ficou em casa, acendeu a vela, fez sua prece naqueles intermináveis seis minutos que anteciparam o abraço coletivo de toda a família rubro-negra. Orgulhe-se, amigo e amiga. O Athletico percorre o caminho mais bonito para a Glória Eterna. E se preparem, pois vem muito mais por aí.

E o símbolo da Grande Conquista é Nikão, o abençoado Nikão, que marca, assiste, acalma, cuja linguagem corporal em meio à luta anuncia o vento caloroso dos bons tempos, a névoa úmida das dificuldades. Nikão é hoje a personificação do time de bairro que muitos de nós aprendemos a amar. Existem outros tantos entre estes que agora mesmo espalham seu sangue pela grama sem raízes em defesa do Atlético e Athletico quase centenário, do Atlético e Athletico do povo, do Atlético e Athletico da raça, do Atlético e Athletico de todos nós. Como disse Nadja Mauad em uma de suas brilhantes matérias para televisão: “foi o Athletico copeiro, do espírito guerreiro e que nas Copas se transforma”.

Tanto para lembrar… Tantas coisas boas para lembrar. Não me recordem as dificuldades – hoje -, pois eu as ultrapassei com orgulho. Não me relembrem – hoje – derrotas, porque elas ficaram pelo caminho, certezas da necessidade do meu grito, para empolgar aqueles que, um dia, perdendo de quatro a zero, empataram em dez minutos. Dez mágicos minutos, assim como nossa mágica história. A vida é feita de escolhas e olho para trás e vejo que acertei em todas. E acertei porque em todas fui movido pelo coração, este artilheiro coração rubro-negro.

Pois bem. Aqueles breves e intensos minutos que vivi há uma semana, dentro do carro, comprovaram-me – mais uma vez – uma das pouquíssimas certezas que tenho: a de que o Athletico faz tudo o que vivemos valer a pena. Que esta instituição é minha loucura favorita. Justamente porque sempre me é cura. É minha comorbidade que mais cuido e que ostento com orgulho. Que privilégio! Este clube é pura e simplesmente a minha licença poética para a felicidade.



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