26 mar 2022 - 19h24

Nossa maior e melhor comorbidade

Quando as pessoas me perguntam “quem é o Murilo?” a primeira coisa que digo é que o Murilo (ou Doc, como me chamam) é atleticano. Além disso, sou médico e atuo na área da Psiquiatria. Aqui, neste espaço, o intuito é conversar – de torcedor para torcedor – sobre aquilo que nos é cura, mas também comorbidade, loucura e uma licença poética: o Club Athletico Paranaense.

 

O que é o amor? Muita gente – muito mais qualificada do que eu – já tentou explicar este sentimento maluco. Mas não gosto de vê-lo e analisá-lo apenas pelo viés da emoção. Por que nós, torcedores e torcedoras, sentimos esta paixão absurda? Por que nós vivemos e fazemos de tudo por este amor? Simples. Porque na vida, amor é verbo intransitivo – ou seja, não necessita de complemento, pois tem sentido completo por si só. Eu amo o Club Athletico Paranaense. Ponto. Termina aqui. O amor de verdade é aquele que não te cobra – e nem você cobra -, só a sua existência já é suficiente para lhe fazer feliz. E se em algum momento todo este amor der certo, for correspondido, a vida valeu a pena.

Tanto para lembrar… Tantas coisas boas para lembrar. Não me recordem as dificuldades – hoje -, pois eu as ultrapassei com orgulho. Não me relembrem – hoje – derrotas, porque elas ficaram pelo caminho. Sei da necessidade do meu grito, para empolgar aqueles que, um dia, perdendo de quatro a zero, empataram em dez minutos. Dez mágicos minutos. Assim como nossa mágica história. A vida é feita de escolhas. Olho para trás e vejo que acertei todas. E acertei porque em todas fui movido pelo coração. Este artilheiro coração rubro-negro.

Muitos de nós começaram a amar o Athletico na época em que não ganhávamos coisa alguma. Com o tempo e o apoio de cada um de nós, crescemos. Hoje, estamos entre os maiores do Brasil. Portanto, honremos nossas cores. O vermelho da paixão, do nosso sangue. O preto de nossa raça, cujas coxas sempre foram mais do que apenas brancas. Mais do que imortais, mais do que um bando de loucos, mais do que uma nação, somos o que acreditamos que seremos.

A grandeza do Furacão pode ser reconhecida de várias formas. Pode ser pelos títulos recentes, pode ser pela competitividade recorrente. Pode ser pelas finanças estáveis, pode ser pela estrutura de primeiro nível. Detalhes. Tudo isso mostra um tipo de atitude, o comprometimento e a atenção ao que é mínimo. Estes fatores (que muitos ignoram porque não é o jogo em si, ou o resultado) têm de fazer parte dos valores da equipe, pois são o diferencial. Mas nada maior para representar este gigantismo que a torcida. Nas últimas três décadas o Furacão faz jus ao seu apelido e assume, hoje, uma posição de protagonismo como sendo a maior transformação registrada no futebol brasileiro.

Ser Athletico é algo que nos define… Todas as dificuldades pelas quais passamos como torcedores – os perrengues da vida para acompanhar o time do coração – com certeza tiveram fundamental importância para forjar nosso atleticanismo. Athletico é fanatismo, é religião. Vivemos o amor ao clube, incondicionalmente. Não queremos coisa alguma em troca, mesmo sabendo que diariamente ele nos retribui com a felicidade de nos sentirmos pertencentes a algo maior. Existe um sentimento tão grande, mas tão grande pelo Athletico que a gente precisa viver (com) esta comorbidade o tempo todo, afinal, somos reféns e escravos da nossa paixão.

Você, torcedor e torcedora, é herdeiro e herdeira de um João que gastou sua voz para vencer um Atletiba, de uma Maria que costurou uma bandeira para tremular ao vento, um grupo de fanáticos que manteve o Atlético (sim, o “com acento e sem ‘h’”) vivo, entregou a você história de amor incondicional, verdadeiro e vencedor.

Sou um cara de pouquíssimas certezas. Mas entre tão poucas obviedades, a mais clara é: o irrestrito e incondicional apoio àquilo que foments toda e qualquer discussão quando o assunto é futebol; àquilo que move a razão e a emoção em cada um de nós; àquilo que nos permite estar aqui, neste instante, interagindo. O Club Athletico Paranaense.

Tenho um pacto comigo: com o Athletico posso ser quem eu quiser. Tento o tal “amadurecimento” em todos os outros lugares. Mas na Getúlio Vargas ou na Brasílio Itiberê posso agir livremente. Ali encontro os amigos, dou risada e evito assuntos graves. Desde o primeiro dia em que coloquei meus pés infantis no Caldeirão, o “pode ser”, o “vai dar” caminharam ao meu lado. Era só um sopro do vestiário trazer a campo a bravura de tantos guerreiros que vestiram a mágica camisa – aquela que enverga varal – e a vitória estaria ao alcance dos nossos pés, ou das nossas cabeças.

E nos faz bem estar lá, nos estádios, na Baixada, seja onde for e onde o Furacão estiver, porque ao lado das nossas famílias, dos nossos irmãos em armas, em canto dos nossos corações mora o Athletico. Ele é importante para nós, faz parte das nossas vidas, sofremos quando ele repete derrotas, vibramos quando acumula vitórias; é nossa escolha, um imenso matrimônio coletivo com uma simples história que nos comove e acolhe. E a gente vai por aí, completando-se assim… Meio torto mesmo. E Deus escrevendo certo pelas nossas linhas que se não fossem tão tortas não teriam se cruzado.

O entusiasmo que se desencadeia cada vez que a bola balança as redes pode parecer mistério ou loucura, mas é preciso levar em conta que o milagre é raro. O gol, mesmo que seja um golzinho, é sempre “gooooool” na garganta dos locutores de rádio e a multidão delira e o estádio se esquece que é de cimento, solta-se da terra e vai para o espaço. A mania de negar a evidência acaba fazendo que a razão e tudo que se pareça com ela afundem, e navegam à deriva os restos dos naufrágios nestas águas ferventes, sempre alvoroçadas pela fúria sem tréguas.

Sentimentos aflorados que só não arrepia quem nunca passou por isso. Athletico é para ser estudado e analisado. Mas, acima de tudo, Athletico é para ser sentido. Por quem joga, por quem trabalha e por quem torce. Afinal, foi assim que nos apaixonamos por ele. Que nunca percamos isso! Obrigado por tudo, Athletico. É por você, mas no final é também por mim.

O Furacão nos permite, rotineiramente – basta aguçarmos nossa visão -, viver momentos mágicos. Obrigado àqueles que se fazem presentes ao meu lado nesta aventura chamada Athletico Paranaense. Obrigado àqueles que suportam minhas análises psicopatológicas, quase imparciais, quando o assunto é o Athletico Paranaense. Obrigado aos amigos de sempre e àqueles novos que tive e tenho a oportunidade de conhecer a cada aventura rubro-negra. Obrigado àqueles que fazem do Athletico Paranaense um estilo de vida. Obrigado a você, amigo e amiga, que me permitem ver sentido em toda esta insanidade de nome Athletico Paranaense – tudo só vale a pena graças a você. E meu mais profundo agradecimento, enfim, a ele mesmo, ao Club Athletico Paranaense. Recaio, então, no clichê (extremamente necessário, hoje): o aniversário é seu, mas o presente, sempre, é nosso, Athletico – nossa maior e melhor comorbidade.



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