27 abr 2022 - 19h56

Não é tão simples

Quando as pessoas me perguntam “quem é o Murilo?” a primeira coisa que digo é que o Murilo (ou Doc, como me chamam) é atleticano. Além disso, sou médico e atuo na área da Psiquiatria. Aqui, neste espaço, o intuito é conversar – de torcedor para torcedor – sobre aquilo que nos é cura, mas também comorbidade, loucura e uma licença poética: o Club Athletico Paranaense.

 

Eu sei que futebol é assim mesmo: um dia a gente ganha, outro dia a gente perde. Mas por que quando a gente perde ninguém se lembra de que “futebol é assim mesmo”?

Fico imaginando o intenso treinamento do time da Liberta, as ultrapassagens repetidas incansavelmente, a troca de passes aprimorada, as bolas paradas ensaiadas à exaustão, os contra-ataques aperfeiçoados, a velocidade copiando o bote da serpente… E os nomes em treinamento? Só craques, e cada vez chegam mais craques.

A derrota de um a zero para o Galo poderia ser enganosa, dando a impressão de que o Athletico jogou bem, foi páreo duro para o Mineiro sem Hulk e Keno. Não foi. Depois, veio o Urubu. Pontos para nós. Simples: marcação aproximada, dois ou três jogadores contra o condutor da bola, a carga legal forte, o bloqueio da saída para o jogo a partir dos volantes, a aplicação na marcação e a proximidade entre as linhas – nunca maior que trinta metros – reduzindo substancialmente os espaços para o trabalho dos atacantes da equipe carioca.

O problema se escancara quando o Athletico toma o primeiro gol. Aconteceu contra Atlético Mineiro e, agora, contra o Libertad. Tendo que correr atrás do resultado, espanta a (não) reação do time. Empolgação e confiança vão no chão. As dificuldades para marcar tornam o gol sofrido quase derrota, o time se descontrola, desorganiza, perde. É aí que aqueles meses jogados fora sob comando de Valentim cobram o preço. Quando a transpiração não é suficiente o time precisa de ideias. Ainda não temos ideias. Carille é vítima das sombras do passado e seus erros coincidiram com a organização do Libertad para atacar. Demos um passo à frente contra Flamengo e três para trás contra os paraguaios.

Chega o segundo tempo. Pensando em mudanças, imaginei a entrada de Marlos no lugar de Christian – o Libertad era tão ineficiente que não se justificavam dois volantes. As substituições alvinegras tiveram sucesso e as nossas em nada contribuíram. Canobbio na direita? Sim, nosso melhor atacante foi reduzido à lateral, tendo Erick em campo – certamente a melhor opção para substituir Orejuela. O gol guarani aconteceu e o Athletico se perdeu.

E o pênalti desperdiçado? E o Pablo? Sabemos que o jogador que se identifica com as cores que veste não pede para cobrar com intenção de errar. Deve estar dando seu melhor. Infelizmente, este melhor não é o suficiente para o que precisamos. Solução: fica no banco. Coloca o cara no jogo quando a partida está encaminhada. A chance de queimar ainda mais o atacante, numa situação como contra o Libertad, é gigante – Libertadores, fora de casa, com o time precisando empatar. Acho que o Carille errou por omissão. Quer dar confiança ao outrora matador rubro-negro? Pablo titular contra o América-MG, pelo Brasileirão – que, cá entre nós, está longe de ser o foco do Athletico (o discurso de lutar em todas as frentes é essencial e necessário para o grupo, mas é muito teórico e pouco prático, no nosso caso. Sem ilusões).

Considerando o contexto que vivem Athletico e Pablo, acho que o treinador deve interferir quando da cobrança de um penal decisivo. Tem de chamar a responsabilidade. Blindar o frágil. Indicar Marlos, Canobbio… Opções tínhamos. A chance de gol é clara, mas existe o risco do erro. Pagaram pra ver. O batedor de pênalti não pode ser aquele que está precisando marcar presença.

Pontos fortes? Algumas figurinhas já estão sendo positivamente marcadas: Canobbio e Bento se salvaram, mais uma vez. Excelentes atuações.

Verdade é que o trabalho de Carille já começa prejudicado, infelizmente. Não seria em cinco partidas que o time modificaria um conceito ruim de jogo de oito meses. A ordem é acreditar e jogar junto com o autofágico Athletico que comprometeu o próprio “projeto” por pura teimosia de quem dita as regras. Vai evoluir ainda. Agora, é correr atrás do prejuízo.

Compor esta equipe, torná-la um Furacão, demandará tempo, paciência, adequada gestão do grupo ao correr das grandes competições. O torcedor rubro-negro tem que estar junto. Entender as dificuldades, apoiar em todos os momentos, nos bons, nos maus, nos piores momentos. Não há fórmulas milagrosas diante do tempo perdido, torcedores. As coisas vão melhorar, mas consertar o carro com o veículo em movimento não é tão simples.



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