4 maio 2022 - 7h16

Um parasita dele próprio

Quando as pessoas me perguntam “quem é o Murilo?” a primeira coisa que digo é que o Murilo (ou Doc, como me chamam) é atleticano. Além disso, sou médico e atuo na área da Psiquiatria. Aqui, neste espaço, o intuito é conversar – de torcedor para torcedor – sobre aquilo que nos é cura, mas também comorbidade, loucura e uma licença poética: o Club Athletico Paranaense.

 

“Somos parasitas de nós mesmos”. Esta frase curiosa foi dita pela querida doutora Carmen, psicanalista, ao analisar o comportamento autodestrutivo de um de seus pacientes, numa das nossas proveitosas reuniões de discussão de casos clínicos.

Hoje escrevo ainda anestesiado pelo dessabor do vivido na noite de 03 de maio de 2022. A comorbidade ataca forte. Na desastrosa atuação na Bolívia, ficou claro que o Rubro-Negro é corpo com cabeça, tronco e membros que não se articulam organizadamente – num momento erra no ataque, noutro quebra na defesa.

O uso pouco inteligente do Paranaense contribuiu para a falta de entrosamento, para queda física em meio ao jogo, para os riscos corridos diante adversário frágil técnica e taticamente. E assim o Athletico, aos poucos, desaparece. Voltamos aos passes para trás, à lenga-lenga que permite a consolidação defensiva do adversário e dificulta tudo para o nosso lado.

Problemas surgidos da imensa expectativa positiva. Expectativa de um time renovado, com atletas mais qualificados em todos os setores. Como diz o ditado, “crie porcos, mas não crie expectativas”. Infelizmente ou felizmente, o coração do torcedor vive de esperanças.

Mesmo assim, eu queria que a partida – válida por um campeonato da grandeza que é a Libertadores da América – fosse levada a sério pelo elenco atleticano. Que os jogadores se entregassem ao jogo como o mais guerreiro dos espartanos; que o suor derramado em busca da vitória alagasse o gramado; que o sangue pulsante nas veias pudesse gerar energia. E que o nosso treinador fizesse o simples, só o simples – atacar vulnerabilidades, bloquear potencialidades, usar o jogador certo no lugar certo, sem invenções que desacreditam o trabalho e levam a campo a certeza de que não vai dar certo.

O Furacão tem a capacidade de superar a si próprio. Consegue piorar sua versão a cada jogo. Só que agora não se trata mais do Estadual. Trata-se de de competição continental. E já no sábado tem partida pelo Brasileirão. Em La Paz, foi tanta miséria tática que assustou o torcedor que consegue dar o mínimo de tempero de razão à sua paixão. De tão desprezível, provocou o sentimento de que não há técnico e não há time.

O Athletico perde ao natural. É humilhado ao natural. Não faz um mísero gol, tem postura não só defensiva, mas covarde, medrosa e sem oferecer menor resistência aos adversários. Não há repertório. Chego a questionar as milionárias contratações. Chego a pensar que há um plantel de jogadores contratados para jogarem no clube e não pelo clube. E sempre há justificativas pelos reveses: culpa da altitude, da pandemia, do calendário atípico, do gramado natural, da falta de tempo, que o time foi pego de surpresa…

Defesa entrega. Ataque não cria. Inexiste algo que revele alguma organização. Individualmente o time está sofrível. Não há um setor que se destaque. O tal “estado anímico” está jogado às traças. Falta velocidade (Canobbio tenta, mas coitado – sozinho, tudo fica inviável); não há criatividade; perece objetividade;  ousadia nunca foi vista, assim como coragem. E isso atinge a todos – com raríssimas exceções – afeta o individual, produz o erro, destrói o coletivo, traz a derrota. E aí sobra para todo mundo. A defesa diz que o ataque perde gols, o ataque olha com desconfiança a defesa entregar um atrás do outro. O Athletico de hoje não compete e se antes sabia sofrer, agora parece que não sabe mais.

Há jogadores capazes para a formação de um time competitivo, mas, ainda, não há time. Se é difícil entender a proposta coletiva, como avaliar a individual? Aí a gente recai em ter que ver glórias na camisa suada – o esforço é o principal mérito, quando, na verdade, deveria ser apenas uma ferramenta. Mas, ao que parece, nem esforço há.

Seria interessante avisar aos jogadores que o Atlético e o Athletico têm uma história. Uma história difícil. Difícil e honrada. E que muitas vezes as camisas desbotadas sangraram para conseguir os resultados que garantiram a sobrevivência do clube, as comodidades que lhes são hoje asseguradas, os salários de seis dígitos que recebem. Tudo pode acontecer, menos um Athletico acomodado, perdido e sem perspectivas dentro das quatro linhas.

Chega de cansaços, de gente tratada a pires de leite, iogurtes gregos cremosos, suplementos noruegueses, atletas necessitados da substituição exatamente aos vinte minutos do segundo tempo – senão o siricotico muscular é certo. O torcedor quer sentir de novo a emoção do time da raça, pelo menos por noventa minutos. Depois a ciência pode tomar conta do Caju, voltar aos sufocos que passaremos contra Américas, Cuiabás, Juventudes, Avaís e tantas outras peladas sofríveis.

“Somos parasitas de nós mesmos” – volto à curiosa frase da doutora Carmen para dizer que um time de futebol é um ser vivo e, como tal, suscetível à autodestruição, à autofagia. Ainda há tempo para salvar o ano. A equipe depende só de si para evitar um vexame ainda maior – talvez isso, de fato, seja a maior das preocupações. Sim, torcedores, o nosso amado clube é, hoje, um parasita dele próprio.



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