29 ago 2022 - 20h49

A Glória Eterna é logo ali

Quando as pessoas me perguntam “quem é o Murilo?” a primeira coisa que digo é que o Murilo (ou Doc, como me chamam) é atleticano. Além disso, sou médico e atuo na área da Psiquiatria. Aqui, neste espaço, o intuito é conversar – de torcedor para torcedor – sobre aquilo que nos é cura, mas também comorbidade, loucura e uma licença poética: o Club Athletico Paranaense.

 

Sonhar custa nada? Há controvérsias. O sonho do campeonato mundial custa uma barbaridade. Nada menos que a conquista da Libertadores, o desejo maior de todos os times do continente. E para se alcançar este objetivo, faltam para o nosso Furacão três jogos. Três duríssimos jogos. Y nada más.

Quando o adversário é melhor, a grande estratégia é saber exatamente isso e armar um bom plano. Vale, aqui, lembrar que há menos de dois meses enfrentamos o Porco de Abel – que busca o terceiro título seguido da mais importante competição continental – e, em pleno Allianz, poupando os titulares na época, vencemos pelo Brasileirão. Tudo é possível quando o assunto é futebol e mata-mata. A mente comanda – aprende com o problema, reage com a vitória. E você, torcedor, vá mentalizando o momento, a escapada, o chute e o gol. O jogo é mental. Por isso, jogue você também.

Estamos falando de uma semifinal de Libertadores da América da qual participaram equipes milionárias – Galo, River e Boca – hoje eliminadas. Mas que ninguém se engane. Sob as toneladas de concreto que sustentam a estrutura do Caldeirão Rubro-Negro – afortunado berço deste nosso amor sem fim – continuam lá suas raízes. A força está lá; a força está no nosso passado; a força está em nossos corações, velhos (com stents assegurando o fluxo) e novos (o amor jovem, garantindo o correr do sangue forte), motores esplêndidos do nosso canto entusiasmado que anima, arrasta, transforma jogadores em guerreiros imbatíveis.

Espero o Athletico montado para um grande jogo, equilibrado, forte na defesa, letal no ataque. E espero um torcedor de noventa minutos, equilibrado e apaixonado no seu grito. E que em nenhum momento haja dúvida sobre a vitória. Que ela paire viva a todo instante. Vocês sabem que o adversário joga, sabem que temos um time complicado pela frente. O Palmeiras é aplicado taticamente, rápido no vai e vem entre defesa e ataque, certeiro nos chutes de fora, bola parada eficiente, jogadas de ataque repetidas à exaustão. Nem poderia ser diferente, ninguém chega onde os paulistas chegaram de graça.

A torcida do Athletico já deu provas soberbas da sua paixão, da entrega total dos seus torcedores em busca do apoio aos seus representantes em campo. Agora, não será diferente. Aqueles que se assustam com o nível crescente da agressividade nos estádios não encontrarão na fanática torcida rubro-negra qualquer sinal da violência que intimida, diminui o espetáculo e leva ao descrédito do esporte futebol. Nós estaremos a todo instante ao lado dos nossos atletas, eles serão incentivados no acerto e no erro, simplesmente porque nós somos eles, a camisa que vestem é a mesma que envergamos, seus ideais de vitória são os nossos. A luta pedida se alicerça na história do clube, na raça sempre presente em tantos cruzamentos maiores e menores da nossa longa estrada.

Mas e a eliminação na Copa do Brasil? A sensação é de missão cumprida. Amar o Athletico é uma das nossas especialidades e não é uma derrota que mudará isso. O Furacão em campo tudo fez pelo melhor resultado, a torcida compareceu em massa. Pode-se procurar justificativas para a derrota, cada um encontrará o seu culpado, em momento em que não se devem achar culpados. Perdemos de um a zero jogo de duzentos minutos contra o Flamengo bilionário e beneficiado pela arbitragem. Duelo para exaltar performances, refletir e melhorar. Nada a lamentar.

Por outro lado… Fins de “Batalha de La Plata”, empanturrados com tanto esforço, saciadas suas fomes de luta, os Deuses “sudamericanos” da bola reconheceram o jogo como da mais pura e gloriosa Libertadores – todos os ingredientes colocados em campo, temperados com o sal do suor de tantos guerreiros, com o sofrimento de tantos torcedores – e concederam a graça de um minuto de arte em terras argentinas. Estava sacramentada a passagem de fase do Furacão. Os deuses se abraçaram, abraçaram-se os jogadores em campo, os torcedores em suas casas, nos bares, nas arquibancadas da fria e ao mesmo tempo calorosa La Plata. Foram cem minutos de entrevero, de peleia, de entrega total. Os nomes dos guerreiros estarão para sempre escritos nas páginas da história do futebol, da história rubro-negra.

Sofrimento e delírio da torcida à parte, a classificação do Furacão foi sensacional e o futebol mostrou mais uma vez que tem geometria complexa. O Athletico Paranaense foi o primeiro time a derrotar o Estudiantes como visitante em um mata-mata de Libertadores – eram 24 jogos invictos do time argentino até então (22 vitórias). Épico define. E não posso deixar de falar, mais uma vez, no “fator Luiz Felipe Scolari”. O “inimigo do futebol” é o sexto treinador com mais títulos na história do futebol, campeão de Copa do Mundo e recordista em semifinais de Libertadores no Brasil (seis). É confiar no processo e lutar até o fim.

O que uma Libertadores desperta num abençoado arqueiro que substituto-de-monstro-monstro-é? O que uma Libertadores desperta num General que defende nossas cores como defende sua vida? O que uma Libertadores desperta num ídolo que nada mais precisa provar e que há 17 anos viveu esta história junto de nós? O que uma Libertadores desperta num treinador campeão mundial, de 73 anos, e que deverá não estar mais à beira dos gramados (que honra fazer parte da sua história, Felipão!) ao findar desta temporada? O que uma Libertadores desperta numa jovem revelação de 17 anos? Tá em choque? O que uma Libertadores desperta numa nação inteira, fanática, completamente insana pelo seu clube e que doutrina e espalha seu amor em todos os cantos do continente? O que uma Libertadores desperta num Furacão que não cansa de surpreender a ele próprio, a nós e a quem ousa duvidar de todo seu potencial?

O Athletico se coloca como postulante – real – a finalista e campeão da América. Se a ficha ainda não caiu, urge que assim se faça. Já! Porque, torcedor, independente do que aconteça, já é histórico. Um dos momentos mais especiais da história do nosso clube. Você, nesta terça, presenciará e viverá – sem dúvida alguma – uma das noites mais incríveis de sua vida e da história quase centenária da nossa amada comorbidade, do nosso estimado Club Athletico Paranaense. Vamos por mais, porque é possível. Vamos por mais, jogadores – não parem de lutar. Vamos por mais, torcedores – não paremos de cantar. Vamos em frente, com garra e com raça. Afinal, a Glória Eterna é logo ali.



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