25 out 2022 - 7h49

O dia mais feliz das nossas vidas: Libertadores, chegamos

Quando as pessoas me perguntam “quem é o Murilo?” a primeira coisa que digo é que o Murilo (ou Doc, como me chamam) é atleticano. Além disso, sou médico e atuo na área da Psiquiatria. Aqui, neste espaço, o intuito é conversar – de torcedor para torcedor – sobre aquilo que nos é cura, mas também comorbidade, loucura e uma licença poética: o Club Athletico Paranaense.

 

Nestes últimos 4 anos, falei por várias vezes que “hoje é o dia mais feliz da minha vida dentro do futebol”. Em todas elas comemorei deixando tudo de mim. Como se aquele fosse o título mais importante que vivi – mesmo sabendo que maiores viriam e seriam possíveis. Eu gritei o grito mais alto. Eu sofri o sofrimento mais intenso. Eu rezei a reza mais torturante. Eu vivi e comemorei como se não houvesse o amanhã. Sorte a nossa que havia. E, junto do amanhã, a possibilidade de viver mais e mais momentos.

El campeón de la Sudamericana ahora va por la Libertadores. Não se sabe se o Athletico será campeão. Mas pouco importa. Para o atleticano, este time atual oferece o que nenhum troféu do mundo pode oferecer: orgulho.

Acredito que o tempo longo demais para a final da competição continental afeta o psicológico dos jogadores, cria desatenções, limita a entrega, obriga substituições, dificulta o entrosamento. Não é uma justificativa. É só um argumento a favor daqueles que lutaram para chegar à final da autêntica, apaixonante e incomparável Libertadores.

Para o atleticano, nada mais aconteceu desde a noite de 6 de setembro até agora. Do Palestra à Guayaquil, tudo o que o torcedor fez foi cantar incessantemente, entrando em campo para aquecimento para o jogo mais importante dos 98 anos de vida do nosso amado Furacão. Para um jogo de 90 minutos. Ou 120 minutos. Ou com decisão por pênaltis, se preciso for. O atleticano da arquibancada tomou para si o nada desgastado chavão, como se tivéssemos encarado uma batalha ininterrupta, com meses de duração. “Vamos, vamos, jogadores, queremos ganhar a Copa Libertadores”. Para o atleticano da arquibancada, não houve estrada entre São Paulo e o Equador.

É como se o setor reservado aos visitantes do Allianz tivesse se mesclado à Getúlio Vargas e à Buenos Aires, de onde irradiaram os gritos de guerra entoados com fervor por todos os demais enclaves da arena rubro-negra. É como se aos 10 ou 15 minutos de insanidade pós-vitória na Baixada tivessem se seguido os mais de 90 minutos do Palestra, em que uma torcida ensandecida resolveu ser também incansável, alentando o time desde antes do jogo até bem depois, já na fria e encantadora madrugada paulistana.

Sejamos sinceros: para o atleticano da arquibancada, nada acontece desde a noite de 6 de setembro de 2022. Não estivemos no nosso estádio para um jogo contra o Cuiabá, ou Juventude, ou Fortaleza. Ou até contra o rival – o Guarani das Araucárias – em finais de semana inexistentes; não trabalhamos; não cuidamos de nossos afazeres; não vivemos nada que não fossem os 90 (ou mais) minutos da final de uma Copa Libertadores que está por vir. Quando, em um futuro distante, nos lembrarmos deste outubro de 2022, teremos a nítida sensação de uma dobra no tempo, com as duas noites se emendando inexoravelmente.

Não tem como não lembrarmos de tudo o que passamos para chegar até aqui. Toda a história que vimos, vivemos e escrevemos, agora atinge o clímax, o ponto máximo da narrativa, com a final da Libertadores. Um ano que aparentava ser despretensioso. Em um mês e com os mesmos jogadores, Felipão transformou o assustado Furacão de Valentim e Carille em vice do Brasil, antecipou-o, em tese, para as quartas de final da Copa do Brasil, e, em Assunção, alcançou as quartas da competição continental. E chegou a hora da escrita do capítulo mais belo da nossa história e de Felipão celebrar seu the last dance. Sim, Scolari tem um plano.

Nossa maior comorbidade – de nome Athletico – não para de se superar e esta superação, apesar de parecer inacreditável no calor do momento, não surpreende. Não é por acaso, quem acompanha sabe. Decisão histórica no sábado. Está se acostumando com coisas grandes. O Furacão é absoluto no estado. É protagonista no Brasil. E é destaque na América. Em meio às agruras de mais uma batalha selvagem pelo continente, o atleticano dos dias iniciais de setembro de 2022 se deixou tomar pela serenidade de quem entendeu estar escrevendo, com capricho, as páginas mais gloriosas de uma história já repleta de glórias.

O que se viu no Allianz foi uma supremacia mental e emocional do Furacão que absorveu todos os recursos de campo do Palmeiras, reduzindo-o a um time qualquer. A vitória do time paranaense foi muito mais expressiva e significativa que a derrota do paulista. É prova que times com menor investimento podem conseguir bons resultados; que nem tudo são contratações, instalações de primeiro mundo, salários em dia, aviões fretados para lá e para cá. No futebol, o ânimo e a vontade de ganhar têm valor, são precisos para as grandes campanhas. E é bom que seja assim. Se assim não fosse olharíamos para o Palmeiras e nos contentaríamos com a eliminação. As justificativas surgiriam a rodo: melhor elenco, grande treinador; a história entraria em campo; os cronistas que apostaram no favoritismo verde sorririam de orelha a orelha, carimbariam suas sabedorias com mais uma predição óbvia. Não foi assim porque o ânimo e a vontade de vencer entraram em campo e cá estamos, na grande final. A um passo da Glória Eterna. E este mesmo ânimo que eliminou o Verdão pode entrar em campo de novo, contra o time da ave agourenta, nivelar as coisas, tornar possível o impossível. Que seja assim. Tem que ser assim. E se não for pedir muito, que seja assim…

Dizem que eu quero para o Furacão uma realidade impossível. Ao contrário, por pertencer a uma geração que viveu de ideal, a realidade atual me deixa feliz. O Furacão – que colocou a mídia nacional em defesa da história dos clubes do eixo – jogou contra o Palmeiras, colocou sua marca frente ao time que tudo ganha, mantém-se equilibrado, tira de letra a Libertadores, galopa na frente do Brasileiro. Nós fomos sempre o time da entrega total, do amor total, razões da nossa sobrevivência até este momento mágico em que quarenta mil de nós estarão reunidos na Baixada – ainda que longe da absurda sede escolhida a dedo pela devassa CONMEBOL – para garantir que a voz das arquibancadas fale alto em favor das nossas cores e que as melhores energias sejam direcionadas aos nossos representantes e guerreiros em Guayaquil.

Nesta semana em que a Glória Eterna ficará ainda mais próxima de nós, aos heróis o nosso abraço, a nossa confiança. O grito da torcida vai ajudar: “vamos, vamos, jogadores…”. Repetiremos, incessantemente. E assim vai a mente até o final do dia 29. Que o nome do jogo seja o coletivo, a entrega, a obediência tática, a eficácia necessária no momento exato deste que foi espetáculo grandioso de afirmação do Club Athletico Paranaense.

O Athletico vencerá? O Athletico será campeão? Quer saber… pouco importa. A única certeza que tenho é a de que você precisa ir para Baixada nesta terça celebrar. Depois, no final de semana, você retorna ao Templo Sagrado, mais uma vez, e eu e vários outros representantes da nossa torcida estaremos no Equador para o dia mais feliz das nossas vidas: Libertadores, chegamos.



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